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Ibope deixa Bolsonaro feliz, mas é antirreforma. Guedes, o mala, faz o quê?

CNI-Ibope/Gráfico da GloboNews
Imagem: CNI-Ibope/Gráfico da GloboNews
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

25/09/2020 06h59

Se os números da pesquisa CNI-Ibope estiverem certos — e não há razões para acreditar no contrário —, o presidente Jair Bolsonaro pode soltar rojões, embora os dados o atrelem a uma realidade difícil de manter. O que o deixa feliz também o aprisiona. Mais uma vez — e apontei isto quando a sua popularidade começou a crescer após a primeira parcela do auxílio emergencial —, quem pode não estar muito contente é Paulo Guedes, não é? Os índices da pesquisa Ibope são antirreformistas. Mas, como diriam os espanhóis, "no pasa nada". Guedes ficará no governo nem que seja para carregar a mala de Bolsonaro. Aliás, hoje, o presidente é que o considera um verdadeiro... mala.

O mandatário bate seu recorde de aceitação, com números bastante vistosos, apesar da impressionante montanha de mortos por Covid-19, que deve passar hoje a marca das 141 mil vítimas, rumo às 200 mil. O país arde em chamas. Por mais que o governo tente negar, os dados sobre as queimadas são oficiais. Acontece que este é um país rico, sim, claro!, mas com um povo muito pobre. Mais de 67 milhões receberam ao menos uma parcela do auxílio emergencial. Nenhum homem é uma ilha. É correto inferir que o dito-cujo atingiu, no mínimo, 134 milhões de pessoas — estou incluindo um membro da família ao menos que também foi impactado por esse recebimento. E é uma inferência modesta.

Aos dados: consideram o governo ótimo ou bom 40% das pessoas ouvidas. Apenas 29% dizem que ele é ruim ou péssimo. Outros 29% afirmam ser ele regular. A pesquisa Ibope-CNI anterior é bastante antiga, de dezembro do ano passado. Quando esta é levada em conta, a mudança é gigantesca. Há nove meses, a aprovação é que era de 29% — cresceu, portanto, 11 pontos. E a rejeição é que estava nas alturas: 38%, despencando agora nove pontos. Uma mexida de 20 pontos nos humores do povo em favor do presidente, apesar de tudo o que se vê.

Dados segmentados do levantamento ajudam a entender o que não é nenhum milagre, já que este significa uma ocorrência sem causa, sem explicação. E não é difícil entender o que aconteceu.

A popularidade do presidente cresceu mais entre os entrevistados que cursaram até a 8ª série do ensino fundamental, entre os que possuem renda familiar de até um salário mínimo e entre residentes nas periferias das capitais. Pronto! Olha aí o efeito das três parcelas de R$ 600, que depois se tornaram cinco, com o acréscimo provável de outras quatro de R$ 300.

E, ora vejam, nesse caso em particular, pode-se falar de um "paradoxo do auxílio". O PT e as esquerdas vão lutar para que as quatro parcelas finais das nove que serão pagas continuem a ser de R$ 600. O governo insistirá nos R$ 300. Para o presidente, pessoalmente, contas públicas à parte, é um jogo de ganha-ganha. A queda à metade do valor do auxílio não será suficiente para mexer nos índices de aprovação. A sua manutenção contribuirá para vitaminar a reputação de Bolsonaro.

O Nordeste continua a ser a região mais refratária ao presidente: ali, a sua aprovação é menor do que o da média nacional: 33%. Mas cresceu 11 pontos em nove meses. Para registro: a aprovação do governo é de 52% no Sul, 45% no conjunto nas regiões Norte e Centro-Oeste e 38% no Sudeste. Aqui um pequeno dado de preocupação para ele: na área com a maior população, a aceitação está um pouco abaixo da média nacional.

Outros dados da pesquisa dão a pista de que o auxílio direto faz mesmo a diferença. Para vocês terem uma ideia, nada menos de 43% dizem aprovar a política de saúde. Sim, ela é rejeitada por 55%. Mas, ainda assim, uma avaliação positiva acima dos 40% chega a assombrar, dada a escandalosa omissão do governo federal nessa área. Em tempos de pandemia, todo o peso caiu sobre os ombros dos governadores. O comportamento do Ministério da Saúde na era Pazzuello é moralmente doloso. E daí?

Já a política de combate à pobreza divide as opiniões, o que é uma boa notícia: 48% aprovam, e 49% reprovam. A forma de enfrentar o desemprego é vista com maus olhos por 60%, e apenas 37% a consideram eficaz. Sim, o desastre acontecido na área com a chegada da pandemia aparece aí, mas não de modo contundente o bastante para uma maioria reprovar o presidente.

Bolsonaro está com a reeleição garantida? Obviamente, é muito cedo, e o tal auxílio não dura para sempre. Os sinais da retomada da economia não são bons. Mas convém lembrar que Bolsonaro nunca caiu abaixo do patamar de 30% de aprovação mesmo no pior da sua forma.

Ele sobreviveu a todos os desastres que causou durante a pandemia e, nas asas do auxílio emergencial, aquele a que Guedes resistiu, atingiu um recorde de popularidade. A questão é saber se usa essa popularidade para impulsionar reformas ou se tenta mantê-la nas alturas, uma vez que já começou a campanha pela reeleição. Tudo indica que refreará seu ânimo reformista ainda mais. Mas Guedes, o mala, não vai pedir para sair.