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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro muda tática e expropria "vacina de Doria", que vira "do Brasil"

O presidente Jair Bolsonaro (esq.) agora tenta expropriar a vacina daquela que tem como seu principal adversário hoje: o governador João Doria (dir.) - Marcos Correa/PR; Roberto Casimiro/Agência O Globo
O presidente Jair Bolsonaro (esq.) agora tenta expropriar a vacina daquela que tem como seu principal adversário hoje: o governador João Doria (dir.) Imagem: Marcos Correa/PR; Roberto Casimiro/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/10/2020 06h23

Não levará assim tanto tempo, tudo indica que não faltará vacinas ao Brasil, de etiquetas variadas. O que falta é juízo. Vamos ver. O presidente Jair Bolsonaro decidiu optar pelo pragmatismo malandro. Até a semana passada, o Ministério da Saúde hostilizava claramente a vacina produzida numa parceria entre o Instituto Butantan e a chinesa Sinovac. Na quarta, dia 14, o general Eduardo Pazuello, titular da pasta e militar da ativa, chegou a anunciar um cronograma de vacinação que simplesmente ignorava a droga que está sendo desenvolvida em São Paulo.

A grita dos secretários de Saúde dos Estados foi geral. Tudo indica que a chamada CoronaVac é segura, e é possível que fique pronta antes daquela desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. O governo do Brasil integra consórcio para receber o produto. A esta altura, não é segredo para ninguém que existe uma espécie de competição entre o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o presidente pela primazia de chegar primeiro a um imunizante eficaz contra o coronavírus.

De repente, vem o cavalo de pau. Eis que Pazuello anunciou nesta terça um convênio entre o governo federal e o Estado de São Paulo para a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, a um custo anunciado de R$ 1,9 bilhão. Segundo fontes do governo do Estado, informa a Folha, o custo é de R$ 2,6 bilhões.

Pazuello resolveu vocalizar a expropriação político-intelectual da vacina. Feito o acordo, tonitruou:
"A vacina do Butantan será vacina do Brasil. O Butantan já é o grande fabricante de vacinas para o Ministério da Saúde, produz 75% das vacinas que nós compramos."

Pronto! Tem início agora o esforço para retirar de Doria a escolha, convenham, estratégica de pôr o Estado mais rico da federação a serviço do desenvolvimento de uma vacina. É claro que foi uma opção politicamente arriscada. Em caso de insucesso da empreitada, o custo político seria alto.

Ao perceber que tudo caminha bem com a vacina, então ela não é nem de São Paulo nem de Doria. O governo federal passou a chamá-la de "vacina do Brasil".

A ala moderada do governo e os militares deixaram claro a Bolsonaro que seria insustentável haver vacinação em massa no Estado de São Paulo, em descompasso com o resto do Brasil. Da mesma sorte, considerou-se que seria um escândalo de dimensões planetárias o governo federal tentar sabotar o imunizante por questões políticas.

Então se escolheu o caminho da expropriação política da CoronaVac. Eis o Bolsonaro que acaba sendo pragmático por necessidade, não por boniteza. Mas o obscurantista persiste ao insistir na vacinação não obrigatória.