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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dumb & Dumber evidenciam que gravação foi um arranjo desastrado. Só isso!

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Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

13/04/2021 07h28

Jair Bolsonaro e Jorge Kajuru são bufões patéticos. É claro que a conversa de Dumb & Dumber foi um arranjo, o que eles, a um só tempo, admitem e negam. Nem chegam a fazer um jogo deliberado para confundir. É burro demais. Confundem porque essa é sua natureza. O presidente, não é de hoje, só entende a linguagem da ameaça. E o outro estava desesperado, querendo um afago do "chefe" tentando parar de apanhar nas redes. Os bolsonaristas deviam achar Kajuru, assim, uma espécie de Cícero dos trópicos. Passava por inteligente e corajoso. Naquele meio, dá para entender. Aí foi entrar com aquele recurso...

Não dá para saber se mais gente participou do pastelão sonoro. Que foi armação, bem, ambos admitem. Vamos ver. Kajuru diz que o presidente sabia que estava sendo gravado e que a conversa seria tornada pública. O "Mito" tentou negar. Naquela conversa noturna com aquele bando de Schopenhauers que se juntam às portas do Alvorada, admitiu:
"Qual interesse eu teria em combinar ele me gravar? Foi ele que ligou pra mim. Em nenhum momento ele falou 'Estou gravando aqui'. Fiquei surpreendido no dia seguinte. Ele ligou de novo para mim [dizendo]: 'Estou fazendo uns cortes, não sei o que lá'. Fiquei na minha. Manda ele divulgar essa outra ligação".

Nem precisa. Fazer uns cortes em quê? Nem importa saber se, durante a conversa, sabia ou não estar sendo gravado. Tenho a convicção de que sim. Mas é irrelevante. O importante é isto: admite que soube previamente de que a conversa iria a público e não fez nada para impedir. Logo, queria que o ouvissem tentando desmoralizar a CPI e fazendo ameaças veladas ao Supremo.

Quanto a Kajuru, dizer o quê? Queria deixar claro a seu mercado:
- não quero mais aquela CPI que assinei; quero outra;
- estou com o presidente e também quero avançar sobre governadores e prefeitos;
- quero ser o inimigo nº 1 de alguns ministros do Supremo e estou fazendo um favor.

Ao Globo, Kajuru diz que Bolsonaro sabia de tudo. Disse:
"É claro que ele sabia. Ele falou tudo aquilo sabendo que eu estava gravando. É evidente! Tanto é que ele quis aproveitar aquela conversa para fazer os desabafos dele. Ele aproveitou aquele momento. Foi uma conversa republicana, mas uma conversa que parecia para ele ser importantíssima. Tipo assim: 'Estou conversando com um doido que vai vazar essa conversa. Ele aproveitou a conversa para passar recado para o STF, para pedir impeachment de ministro".

Sim, um doido.

Ocorre que Kajuru não está se dando conta de que ele também conspirou contra dois Poderes da República ao manter aquele diálogo. Um senador se articulava com o chefe do Executivo para tentar inviabilizar uma CPI nos moldes em que foi requerida e para atingir ministros do Supremo.

Flávio Bolsonaro afirmou que vai recorrer ao Conselho de Ética. Continua tudo com cara de jogo de cena porque parte do efeito positivo, vá lá, Bolsonaro conseguiu: o tal Eduardo Girão (Podemos-CE) fez seu requerimento para a CPI contra governadores e prefeitos. Será mesmo que o presidente ganha alguma coisa com isso?

Sim, foi uma encenação. Mas o resultado acabou não sendo bom para Dumb & Dumber.

Kajuru deveria ser cassado. Não por ter divulgado a conversa com Bolsonaro porque, soubesse ele ou não, não se trata de crime. Mas porque conspirou contra dois Poderes.

O Cidadania o convidou a sair do partido e emitiu uma nota em defesa da CPI e do estado de direito. Bem, ele nem deveria ter entrado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL