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Reinaldo Azevedo

Em um ano, mortes tiveram aumento de 4.533%. Mas Bolsonaro repete discurso

Em primeiro plano, Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Luiz Eduardo Ramos após visita surpresa ao STF, no dia 7 de maio do ano passado. Discurso não mudou. Mas o número de mortos cresceu 4.533% - Pedro Ladeira/Folhapress
Em primeiro plano, Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Luiz Eduardo Ramos após visita surpresa ao STF, no dia 7 de maio do ano passado. Discurso não mudou. Mas o número de mortos cresceu 4.533% Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/05/2021 06h32

No dia 7 de maio do ano passado, Jair Bolsonaro atravessou a Praça dos Três Poderes, em companhia de Paulo Guedes, do general Luiz Eduardo Ramos e de um grupo de empresários para ir falar com Dias Toffoli, que presidia o Supremo. O grupo tinha uma porção de reclamações a fazer contra as medidas de restrição de circulação em curso no país. O chefe do Executivo resolveu impressionar o presidente do tribunal com uma frase de efeito: "Nós temos um bem muito maior até que a própria vida, se me permite falar isso: é a nossa própria liberdade". Total acumulado de mortos por covid-19 até aquele dia: 9.146.

É coisa de pensador que atinge, como escreveu o poeta, os "pélagos profundos" do pensamento. Seria preferível circular por aí, sem qualquer restrição, e acabar morto a se submeter a alguns sacrifícios temporários para continuar vivo. Nessa perspectiva, a verdadeira liberdade está na cessação do direito de viver. É a forma que tomou o individualismo na extrema direita bucaneira que governa o Brasil.

Muito bem! Nesta quarta-feira, Bolsonaro promoveu uma solenidade em homenagem à Semana das Comunicações. Num discurso aloprado, ameaçou baixar um decreto intervindo nos Estados e desafiou o Supremo: que não ousasse contestá-lo. E, mais uma vez, sob o pretexto de defender a liberdade, falou em morte. Afirmou:
"Os militares, quando se tornam praça, juram dar a vida pela Pátria. Os que estiveram nas ruas, nesse 1º de Maio, bem como outros milhões que não puderam ir às ruas, darão sua vida por liberdade".

Está sonhando com uma guerra civil. Total de mortos por covid-19 nesta quarta, um ano depois daquela "Marcha ao Supremo": 414.645. Um aumento de 4.533%.

Bolsonaro não aprende nada nem esquece nada.

É impressionante como ele não consegue associar a liberdade à paz, à alegria, à convivência pacífica. No seu discurso, a perspectiva é sempre sangrenta, de confronto, de enfrentamento. Na sua pregação, nunca se é livre para viver, mas se morre para ser livre ou se é livre para morrer. Isso explica o governo que ele faz.

Por que chamo a atenção para os dois eventos? O caos social com que Bolsonaro acenava há um ano não veio, para sua tristeza e melancolia. Ora, qual é o desejo secreto de um autoritário senão a eclosão de um conflito de grandes proporções para que possa, então, impor a ordem "manu militari"?

Um ano depois, Bolsonaro continua a alimentar o mesmo delírio. Como o país não vive uma rotina de saques e confrontos armados, então se encarrega ele próprio de convocar seus milicianos virtuais a ir às ruas para berrar um "eu autorizo" — no caso, estariam autorizando-o a dar um autogolpe. E que se note: voltou a fazer o discurso estridente quando os Estados estão relaxando as restrições.

DESESPERO E GABINETE DO ÓDIO
O que explica o chilique? É o desespero somado à sua estúpida irresponsabilidade. No mesmo discurso, voltou a atacar a China -- embora tenha negado mais tarde que o tivesse feito, o que é ainda mais espantoso --, acusando o país, ainda que de modo oblíquo, de ter criado o vírus para se impor como potência hegemônica. Estou traduzindo para o português e segundo marcos de economia política aquela bobajada que engrolou.

Cumpre lembrar aqui o depoimento de Luiz Henrique Mandetta à CPI. Deixou claro que Bolsonaro não seguia as recomendações do Ministério da Saúde — e isso está registrado na carta que o então ministro lhe mandou no dia 28 de março. Preferia as orientações do tal "Gabinete do Ódio", aquele grupinho de assessores que se encarrega de insuflar os milicianos digitais.

De onde veio a conversa do "vírus criado pela China"; de um mundo "submetido à guerra química, bacteriológica e radiológica" — seja lá o que a expressão "guerra radiológica" queira dizer —; da "liberdade (de contaminar) ou morte"; da ameaça ao Supremo? Resposta: do Gabinete do Ódio.

Assim que o presidente disparou seus perdigotos de indignidade moral e política, os milicianos digitais se encarregaram de disseminar seus gritos de guerra, afirmando que seu líder estava pronto a atender à reivindicação em favor do golpe que levaram às ruas.

ENTENDERAM?
Há um ano, Bolsonaro não tinha ideia melhor para enfrentar a crise do que ignorar os mortos, pregar a volta à absoluta normalidade -- o que teria efeitos desastrosos -- e tentar intimidar o Supremo, ainda que, então, de maneira um pouco mais mansa.

Já na reta dos 500 mil mortos, seu discurso é rigorosamente o mesmo, só que mais agressivo porque acuado pela CPI.

O deputado Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, emitiu uma nota depois do destampatório do presidente em que põe em dúvida sua sanidade mental, recomendando sua interdição. Não tenho dúvida de que estamos diante de uma questão também clínica. Mas jamais se ignore o fato de que a necropolítica de Bolsonaro é uma escolha consciente. Há muita gente que quer ouvir precisamente o que ele diz. E ele está convicto de que esse discurso o leva para o segundo turno.