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Reinaldo Azevedo

Plenário aprova Aras. Lembro: sem CPI, Saúde seguiria como Casa de Horrores

O protocolo de uma picaretagem com a marca do Ministério da Saúde: quando crimes como esse serão punidos? Onde estava a PGR? - Reprodução
O protocolo de uma picaretagem com a marca do Ministério da Saúde: quando crimes como esse serão punidos? Onde estava a PGR? Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/08/2021 22h10

O plenário do Senado aprovou a recondução de Augusto Aras ao comando da Procuradoria Geral da República — na verdade, do Ministério Público da União — por 55 votos a 10. Há dois anos, o placar foi mais entusiasmado a seu favor: 68 a 10.

Era o esperado.

Já disse aqui quase tudo que considero que havia a ser dito. Se Aras colaborou, sim, para desmobilizar a Lava Jato, mãe do aparelho fascistoide que resultou em Jair Bolsonaro — e, pois, fez muito bem nesse particular —, não é menos verdade que o considero omisso no enfrentamento dos crimes cometidos pelo presidente. E, por isso, se eu votasse, teria dito "não" à recondução.

"Ah, mas Bolsonaro sempre poderia incidir numa escolha ainda pior". Não tenho razões para duvidar disso.

Ocorre que olho o desempenho da PGR no que concerne aos ataques de Bolsonaro aos valores mais comezinhos da civilização e da ciência e, por óbvio, não tenho como anuir com aquilo.

Uma evidência basta: não fosse a CPI da Covid-19, nada saberíamos das insanidades criminosas que se praticavam no Ministério da Saúde: da desídia na compra de vacinas que existem à arquitetura criminosa para comprar as que não existem, tudo ficaria escondido.

O comitê criado na PGR para acompanhar o combate à Covid ameaçou se tornar uma nova Lava Jato, mas aí mirando os governadores, como se a responsabilidade primordial por coordenar os esforços de combate à doença não fosse do governo federal.

Não vou cair nas tramas do moralismo babaca: "Ah, políticos votaram em Aras em busca da impunidade". É mesmo? E aqueles que reconduziram Rodrigo Janot? Buscavam o quê? O punitivismo que afundou a República? Recebeu 59 votos. Eu, por exemplo, em lugar de Dilma Rousseff, nem teria feito a indicação para a recondução. Mas ela o fez.

A menos que alguém articule, de fato, a derrubada de um nome, organizando partidos, conclamando a que atuem como ordem unida, a aprovação acontece mesmo. Não foi das mais entusiasmadas, mas se deu. Vamos ver como se comportará o procurador-geral quando chegar às suas mãos o relatório da CPI.

Terá ele, ao menos, a curiosidade que todos temos de investigar os muitos silêncios que garantiram a não-autoincriminação? Por certo, não se autoincriminariam por crimes cometidos por terceiros, não é mesmo, ou que lhes fossem atribuídos, do nada, pelos membros da comissão.