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Reinaldo Azevedo

Lula, FHC e uma tal política. Ou: centro, antifascismo e falsa polarização

FHC e Lula depois de almoço ocorrido na casa de Nelson Jobim, ex-ministro do STF. Não é parceria eleitoral. Estão juntos na defesa da democracia - Ricardo Stuckert/Divulgação
FHC e Lula depois de almoço ocorrido na casa de Nelson Jobim, ex-ministro do STF. Não é parceria eleitoral. Estão juntos na defesa da democracia Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

23/08/2021 22h20

Estamos todos tão ocupados em noticiar os arreganhos de golpistas e em combater suas delinquências que, quando diante de atos que são eminentemente políticos, temos uma certa reação de estranhamento: "Nossa! Ele fez e falou isso mesmo?" Que tempos infelizes estes! Tratarei aqui de encontros políticos que o ex-presidente Lula anda a manter no Nordeste. E também de uma falha gritante que cometem todos os pré-candidatos a se consolidar como uma "terceira via". Uma observação à margem antes que continue: em defesa da democracia, não pode haver jornalismo neutro ou isento, a menos que se tome por isenção e neutralidade a... defesa da democracia! Golpismo não é "outro lado". Golpismo é crime. Adiante.

ANDANÇAS DE LULA
Lula, provável candidato do PT à presidência, já esteve com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, que é do PSB. A campanha eleitoral em Recife, em 2020, opôs os primos Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB), que venceu a disputa. O confronto não foi nada edificante. O PSB tem hoje uma heterogeneidade que preocupa os defensores de uma legenda mais alinhada com a centro-esquerda. Houve, por exemplo, 11 deputados que se posicionaram em favor do voto impresso. Lula se encarregou pessoalmente de tentar amparar as arestas. Quer o partido em seu palanque. Em política, conversas buscam fazer com que as tais arestas sejam menores do que as convergências.

A proximidade de PT e PSB não é surpreendente. Eduardo Campos, que morreu tragicamente num acidente aéreo, postulou a Presidência em 2014, vaga depois assumida por Marina Silva, mas há um histórico de parcerias entre as legendas. O que, hoje, está, vamos dizer, um tanto "fora da caixinha" é o encontro que Lula manteve com o senador Tasso Jereissati (CE), um dos pré-presidenciáveis do PSDB. O tucano não tocou no assunto depois. Nas suas redes sociais, o petista escreveu o seguinte:
"Democracia no centro da discussão. Os democratas desse país têm a responsabilidade e o desafio de resgatar a civilidade na política brasileira pelo bem do Brasil".

Lula também esteve com um outro antigo parceiro do PT: o senador Cid Gomes (PDT-CE), irmão do presidenciável Ciro Gomes, que não anda a dizer coisas não muito lisonjeiras sobre o petista e seu partido. Certamente a conversa não se deu às costas de Ciro. E não se cuida aqui de anunciar uma possível união futura etc. Mas fica subentendido que forças distintas da política se irmanam, ao menos por agora, numa constatação: existe um mal essencial na política que é a tentação disruptiva e fascistoide. E ele tem de ser afastado. Por mais que esse "coro dos contrários" seja composto de vozes muito distintas.

À Folha, Cid disse a coisa certa. E parece ter ouvido, igualmente, a ponderação sensata:
"Ele [Lula] manifestou a sua preocupação, que é a mesma que eu tenho, com os arroubos de Bolsonaro na direção de ataques à democracia. E falou da necessidade de ações suprapartidárias para se contrapor a isso".

Mas e a postulação de Ciro, com críticas duras ao petismo? Cid afirmou:
"Ele [Lula] disse que compreende a posição do Ciro. Chegou até a dizer que, se fosse Ciro que estivesse à frente nas pesquisas, ele [Lula] é que estaria criticando".

Ninguém que conheça Lula duvida de que pode, sim, ter falado precisamente isso ao interlocutor. Neste momento, para recorrer a uma metáfora que andou frequentando o vocabulário de candidatos a candidato do centro, está mais em busca de construir pontes do que de erguer muros.

FHC
Numa entrevista ao Correio Braziliense, publicada nesta segunda, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que já declarou apoio à candidatura do tucano João Doria, afirmou que pode votar em Lula no segundo turno se seu candidato não estiver no embate final:
"No momento, eu penso que a [reeleição] de Lula é menos traumática para o Brasil, de forma direta. Isso não quer dizer que eu não queira uma via pelo PSDB. Claro que eu desejo! Mas uma coisa é você desejar e trabalhar neste sentido, e outra coisa é analisar a realidade. Assim, por ora, entre Lula e Bolsonaro, acredito que o Lula seja melhor".

Eis FHC, que é presidente de honra do PSDB, a prejudicar os tucanos mais uma vez? Essa indagação seria de uma estupidez supina. O que ele evidencia é apenas compromisso com a democracia e apreço pelos fatos. Hoje — e não quer dizer que fique assim —, o segundo turno seria mesmo disputado entre Lula e Bolsonaro. A depender de quanto o presidente estique a corda e invista na violência — e na hipótese de os demais postulantes seguirem no caminho da fragmentação —, não se poderia descartar nem mesmo uma vitória do petista no primeiro turno. Mas o ponto aqui é outro.

LULA FALOU PRIMEIRO
Então vamos ver. Na passagem pelo Nordeste -- região em que abre uma vantagem esmagadora sobre Bolsonaro --, Lula conversou com expressões de todas as forças que acredita que podem estar em oposição a Bolsonaro num eventual segundo turno. E também com aqueles que gostaria de ter em sua companhia já no primeiro.

Cuida, por óbvio, de sua candidatura, mas também faz a defesa da democracia — e esta, sim, está hoje sob ameaça. Se não há risco de um golpe, e não creio que haja, existe, sim, a possibilidade de grandes sortilégios. E não faltam irresponsáveis a alimentar e a estimular delírios sangrentos. Lembrem-se de que a invasão do Capitólio deixou um saldo de cinco mortos nos EUA.

O que está dizendo FHC? Entre a democracia e o discurso fascistoide; entre as regras do jogo e a disrupção; entre o confronto político civilizado — já que não é petista — e a lógica da destruição do "outro", ele fica com o jogo democrático. E poderia, pois, votar no PT, embora esteja empenhado em construir a candidatura do seu partido.

Saibam no entanto: o próprio Lula precedeu FHC na fala explícita de que, em 2022, se não estiver no segundo turno — ou, eventualmente, um outro petista —, votará em qualquer um que não seja Bolsonaro.

LENDO DIREITO O JOGO
Sabem o que isso tudo significa? Que ele está lendo direito o jogo. Ainda que essa postura possa não ser unanimidade em seu partido, é o que pensa aquele que, hoje, seria presidente da República. Reconheça-se: nesta jornada, as conversas de Lula estão mais amplas do que jamais foram. E, até agora ao menos, com acerto também, não vaza uma só nota de ressentimento em seu fala.

Então volto ao ponto inicial. A esta altura, claro!, há tontos dizendo: "Olhem como Reinaldo virou petista!" Não! Olhem como Reinaldo continua a defender a política. E vai agora uma afirmação para que me digam "dorista"...

A armadilha em que um candidato do "centro" não pode cair é o discurso "nem-nem". Não se deve postular uma vaga para não ser nem uma coisa nem outra. A arquitetura retórica do "não" causa mais repulsa do que adesão. É preciso apresentar coisas. Nunca entendi por que o PSDB não chamou a si mesmo, de cara, "o partido da vacina", tão logo se aplicou a primeira dose da Coronavac.

O partido foi mais ou menos frio e omisso na defesa do imunizante, mesmo estando Doria sob o bombardeio mentiroso de Bolsonaro e suas milícias. Ainda que o governador tenha errado no trato da questão partidária, ele tem o que oferecer como valor afirmativo: não se trata apenas de não ser nem Bolsonaro nem Lula. Trata-se de ser alguma coisa. O PSDB deveria estar empenhado na construção de seu nome há muito tempo. Em vez disso... Ah, claro! Doria, ele próprio, comete o erro de achar Sergio Moro um democrata exemplar. Mas fica para outra hora.

Há mais — e arremato o último fio. Até agora, não ouvi de nenhum postulante a candidato do centro que, não estando no segundo turno, qualquer nome é preferível a Bolsonaro. Isso ainda não se deu. "Ah, isso seria o mesmo que declarar o voto em Lula..." Não!

Ocorre que não aceito ser traído. Gostaria, sim, de ter uma alternativa do tal "centro". Mas não quero passar o vexame íntimo de dar a ele meu voto no primeiro turno e depois vê-lo a fechar com Bolsonaro num eventual segundo turno ou, pior ainda, a declarar "neutralidade". Neutralidade diante de um fascistoide é coisa de... fascistoide envergonhado — e, pois, com uma forma muito particular de sem-vergonhice.

POLARIZAÇÃO NÃO EXISTE
Lula lidera as pesquisas porque ele e seu partido estão fazendo política -- além, claro, de ser um dos nomões da política brasileira e de muitos milhões terem uma boa memória de seu governo.

Outra consideração para postulantes do centro: parem de falar em "impedir a polarização". Não existe polarização entre Bolsonaro e Lula. Para que houvesse, seria preciso que o fascistoide estivesse a disputar com um porra-louca de extrema esquerda, empenhado em criar as condições para a luta armada rumo ao socialismo.

Lula combina com essa figura? Acho que não! Porras-loucas de extrema esquerda vão conversar com Sarney, com o centrão, com Tasso, com Cid, com FHC e com quem quiser conversar?

O centro pode emplacar um nome — que eu acredito que já exista — quando puder dizer ao eleitor "POR QUE VOTAR NELE EM VEZ DE POR QUE NÃO VOTAR NOS OUTROS" e quando deixar claro que existe a linha do inaceitável, diante do qual se vota no mal menor.

FHC e Lula, dois ex-presidentes, já perceberam a natureza do jogo.