PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

PSDB em transe, Moro, o tribunal da Ucrânia e a questão: "3ª via para quê"?

Eduardo Leite, Arthur Virgílio e João Doria nas prévias do PSDB: a união que se vê na foto não é nem um retrato na parede. Prévias são um fiasco de modos distintos e combinados - Divulgação
Eduardo Leite, Arthur Virgílio e João Doria nas prévias do PSDB: a união que se vê na foto não é nem um retrato na parede. Prévias são um fiasco de modos distintos e combinados Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/11/2021 08h15

Noto que aqueles que torcem pela emergência de um nome que encarne a "terceira via" — seja lá o que isso signifique — têm algumas certezas que pautam as suas ações e discursos. Uma delas: "Assim que a disputa começar para valer, Lula vai se enrolar nas acusações que os adversários farão contra o PT" A outra: "Jair Bolsonaro vai desidratar ainda mais, e o eleitorado conservador buscará uma alternativa para tentar derrotar o ex-presidente".

Essas duas teses estão na raiz de uma armadilha da qual nenhum candidato a candidato da terceira via conseguiu sair até agora: o convite para votar num nome "nem-nem". Pensemos a respeito de ambas.

O LULOPETISMO
O que há a dizer contra Lula e contra o PT que ainda não tenha sido dito e já precificado pelo eleitorado? Uma presidente filiada à legenda foi impichada, e o próprio Lula amargou 580 dias na cadeia. Se condenações decididas pela Justiça são argumentos políticos, os livramentos também são. Mas há mais.

Em outubro do ano que vem, o PT terá completado seis anos longe da Presidência da República. Tempo suficiente para que se faça um convite ao eleitorado, muito especialmente ao mais pobre: "Nesse período, depois da queda do PT, a sua vida melhorou ou piorou?" Entendo que as pesquisas que hoje dão uma larga vantagem a Lula registram a resposta a essa pergunta.

Também à esquerda, note-se, há os que não se ocupam da eficiência do governante. Há os que votam no PT, pouco importando a qualidade da gestão havida ou prometida. E um grupo ainda maior fica com Lula e pronto. Não aceitaria outro nome. A vantagem que o petista tem hoje, no entanto, vai além da adesão ideológica ou ligada ao carisma do líder. Basta ver as escolhas dos muito pobres, dos pobres e dos quase remediados. Convenham: será difícil jogar nas costas dos petistas a responsabilidade pela inflação, pelo desemprego, pelo baixo crescimento...

O BOLSONARISMO
A força de coesão do eleitorado de Bolsonaro é principalmente ideológica. Exceção feita a alguns estratos de parcela da elite realmente beneficiados pelo governo -- e existem --, duvido que alguém referende o nome do atual presidente porque tenha sido efetivamente beneficiado pela qualidade de sua gestão.

Posso achar detestável, mas é fato que milhões de brasileiros se identificam com a sua guerra ao mundo contemporâneo e aos valores civilizatórios. Pensam — e é um mal das democracias em toda parte — que os males do mundo decorrem do que entendem ser degradação dos costumes e das pautas ditas comunistas. No Brasil, isso se traduz em aversão ao ambientalismo e aos direitos dos indígenas, dos quilombolas, dos sem-teto, dos sem-terra...

Que tamanho tem esse eleitorado? É muito provável que o reacionarismo doidivanas mobilize algo em torno de 15%. Com as adesões circunstanciais a Bolsonaro em razão de seu apoio a pautas ligadas a alguns segmentos profissionais, não é fácil fazer o presidente cair abaixo dos 20%.

MAS O QUE QUER A TERCEIRA VIA?
Tento evidenciar, e não tenho a esperança de que os candidatos a candidatos concordarão, que, quando se faz a pregação "nem Lula nem Bolsonaro", o que se consegue é ganhar a adesão de quem já é... "nem-nem". Faz-se um esforço de reiteração, não de ampliação do eleitorado. E ainda: inexiste um único modo de ser nem uma coisa nem outra. Como se tenta construir um nome a partir de exclusões, dificilmente um único candidato conseguiria ser a soma desses modos.

De resto, convenham: não consigo ver Ciro Gomes abrir mão de sua postulação para endossar qualquer dos nomes que estão à sua direita. Ainda que ele o fizesse, não creio que o seu eleitorado o seguiria. Hoje, poucos apostariam que haverá um só nome — ou dois — para disputar este lugar que é pura construção mental: "nem Lula nem Bolsonaro".

Ademais, os erros vão se acumulando.

DESASTRE TUCANO
Certamente há outra palavra para designar aquilo a que se assistiu neste domingo nas prévias do PSDB. Todos eles têm de ser sinônimos de "vexame". Os efeitos positivos de uma eventual campanha antecipada se perderam. O processo tem sido contraproducente. Partidos nunca são blocos monolíticos, é certo, e os tucanos têm lá as suas divergências. Mas o que se viu é um risco de fratura.

Política nem sempre atende ao império da lógica, eu sei. Mas eu sou lógico — umas das razões, entre muitas, por que jamais me dedicaria a tal atividade. E a lógica me diz que o PSDB deveria ter por epíteto "O Partido da Vacina". Em vez disso... Ocorre que essa minha consideração implicaria, por óbvio, uma escolha que excluiria a disputa interna. Os tucanos estão desperdiçando o seu maior ativo. "Ah, mas o João Doria, com seu estilo..." Bem, caras e caros, isso é lá com os tucanos. E já escrevi que, nesse confronto, eu sou partidário dos advérbios.

O embate, por ora, só empolga os que assumiram um lado na guerra interna. O prejuízo, em certa medida, acaba debitado na conta da, se me permitem, "tese terceira via". Por quê? Porque, é evidente!, isso tudo é irrelevante para Lula, do PT — que colhe os louros de um muitíssimo bem-sucedido giro pela Europa —, e também para Bolsonaro. As razões estão acima elencadas.

Ou alguém conseguiria me convencer, ou a qualquer outro, que a zorra deste domingo é atraente mesmo para o eleitor "nem-nem"? E para o eleitorado, então, que já escolheu Lula ou Bolsonaro, mas poderia mudar? Dado o que se viu, cabe indagar: "Por que fariam isso?" Todos os postulantes à Presidência, noto, deveriam fazer essa pergunta.

MORO E O TRIBUNAL DA UCRÂNIA
A direita e a extrema direita arrependidas, que votaram em Bolsonaro e se sentem traídas -- em alguns casos, porque o atual presidente não foi reacionário o bastante --, tentam fazer de Sergio Moro "o cara" que, num primeiro momento, vai tirar o atual mandatário do segundo turno e, depois, empreender a guerra santa contra Lula.

Vamos ver o que apontarão as pesquisas. O ex-juiz e ex-ministro teve na imprensa profissional um ciclo de notícias positivas que não contemplou nenhum dos pré-candidatos. Compareceu ao debate com a pauta do lavajatismo, a que acrescentou a criação de um tribunal de exceção. Para julgar corruptos, claro!

Fez tal proposta em seu discurso de filiação ao Podemos e também em artigo a uma revista digital. Como o mundo democrático desconhece a estrovenga, resolveu dar como exemplo bem-sucedido nada menos do que o governo da Ucrânia, um amálgama de extremistas de direita e nacionalistas a que não faltam nem correntes identificadas com o neonazismo. O fato de que Vladimir Putin os hostilize não os torna bons.

Moro busca desbancar Bolsonaro fisgando extremistas de direita com a dita pauta anticorrupção e com o ódio à política — aquele mesmo que elegeu o seu ex-chefe —, mas não se sente à vontade para defender todo o decálogo dos reacionários porque perderia a simpatia de setores engajados da imprensa. Convém lembrar que, para atrair a bozolândia, é preciso mais do que ódio à política institucional. Também é necessário hostilizar, de garrucha na cinta, a comunidade LGBTQIA+, quilombolas, indígenas, feministas...

CONCLUINDO
Não tenho a certeza que vejo por aí de que Bolsonaro desidratará a ponto de não disputar o segundo turno. E também não acho que será fácil tentar reviver o calor das acusações que pesaram contra o PT. Partir dessas premissas não deixa de ser, a seu modo, fazer política na condição de refém disso que mal chamam "polarização".

"E Ciro, Reinaldo?"

Sim, ele até poderia ser o "tertius" na disputa. Mas, para tanto, setores da direita teriam de concordar com a sua leitura do que considera os desatinos da economia — e seus postulados macroeconômicos não são assim tão distintos dos do PT.

Ocorre que "as direitas" não concordam. Não é segredo para ninguém que muitos ditos "conservadores" avaliam que seria mais fácil negociar com Lula do que com Ciro.

Vi, neste domingo, o PSDB se engalfinhando e, na prática, fazendo pouco caso daquele que poderia ser um de deus maiores ativos: a vacina.

Constato que Moro tenta se comportar, de novo, como sequestrador da política — papel que tem desempenhado desde 2014. Afinal, não custa lembrar que, ao atuar fora das regras do jogo, o agora pré-candidato do Podemos foi, sim, personagem da derrocada de Lula, mas também de sua ressurreição. Se tivesse se comportado como juiz, não como político, talvez o petista não tivesse ido para a cadeia — já que foi condenado sem provas —, mas cabe especular: estaria liderando as pesquisas?

Nem Lula nem Bolsonaro? De volta à pergunta: "Por que os eleitores fariam isso?"