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Os reaças de Bolsonaro lhe tiram o que lhe dão. Deveríamos lhes ser gratos?

Bolsonaro fala com seus apoiadores no cercadinho. O que eles querem dele? O discurso reacionário! E ele nao se faz de regoado - Reprodução
Bolsonaro fala com seus apoiadores no cercadinho. O que eles querem dele? O discurso reacionário! E ele nao se faz de regoado Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

28/01/2022 07h12

Ninguém com um tanto de informação tinha o direito de duvidar de que o governo de Jair Bolsonaro seria marcado por uma soma de exotismos, esquisitices e idiossincrasias. Afinal de contas, haveria de espelhar a mentalidade do líder, que teve uma trajetória de quase 30 anos na Câmara marcada pela irrelevância.

A primeira dificuldade já surgiu na montagem da equipe. Bolsonaro não conhecia ninguém porque ninguém o levava a sério. Tinha, vá lá, dois âncoras: Paulo Guedes e Sergio Moro. O primeiro cuidaria da área econômica, e o outro responderia pela moral de propaganda — como se já não fosse imoral o bastante saltar da 13ª Vara Federal de Curitiba para o Ministério da Justiça...

Os sensatos esperavam muita coisa ruim do casamento anunciado por Guedes entre "liberais e conservadores". Até porque os falsos liberais eram só picaretas, e os falsos conservadores, reacionários asquerosos. Deu no que deu.

Guedes se transformou num agente imobiliário especializado em vender terrenos na Lua; Moro foi chutado do governo porque juntou a incompetência à ambição de tomar o lugar do próprio Bolsonaro, e este se deixou cercar de extremistas ainda mais idiotas do que ele próprio e achou que era uma boa ideia dar início a movimentos de rua de apelo escancaradamente golpista — inicialmente, note-se, com o apoio dos moristas.

Mas aí veio a pandemia, e a ruindade degenerou em loucura, que é o estágio em que estamos agora. A doença deu a Bolsonaro a chance de desenvolver a sua obsessão contra a vacina — em consonância, sim, com a extrema direita mundo afora. Mas ele é o único governante do Planeta que segue com a militância antivacina.

"Ora, Reinaldo, é o governo federal que comanda a vacinação". Assim é por imposição de uma institucionalidade que o ogro herdou e contra a qual, diga-se, luta até agora. O Ministério da Saúde acaba de fazer uma leitura estúpida da lei para excluir a vacina contra a covid da imunização obrigatória das crianças, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente. Diretriz da pasta sugere que pais busquem prescrição médica para vacinar seus filhos. Queiroga ainda não revogou o documento criminoso que afirma, com todas as letras, que a hidroxicloroquina é efetiva no combate à covid-19, mas não as vacinas.

Em meio a sucessivos recordes de contaminação, que governo sugeriria aos pais que fossem a unidades públicas de saúde, levando suas crianças, em busca de uma prescrição para a vacina? A resposta poderia ser esta: um governo infanticida.

Temos, como país, de rever muita coisa, inclusive na esfera legal. Um governante ou agente público qualquer podem mesmo criar obstáculos à vacinação sem que sejam imediatamente contidos, pagando por seu crime? A liberdade religiosa abriga a sabotagem à imunização? Aceita-se o banditismo em nome de Deus?

PAVOROSO, MAS ATENDE À CLIENTELA
Tudo isso é, sim, pavoroso e seduz, felizmente, a minoria. Mas, ainda assim, trata-se de uma minoria bastante expressiva.

Parece haver algo de estúpido quando se diz que Bolsonaro sabota a vacina por populismo. O marciano haveria de indagar se um populista não é aquele que oferece aparentes facilidades ao povo, sem olhar para as contas, inflamando-lhe as paixões e oferecendo-lhe felicidades de curto prazo que cobram um preço altíssimo depois. Sim, meu caro marciano, o populismo poderia ser assim definido.

O de Bolsonaro é de uma outra espécie. Quando se lançou de peito aberto na pregação negacionista, vocalizando teorias conspiratórias sobre o "vírus chinês", certamente imaginava que a pandemia teria curta duração. À medida que suas teses foram sendo desmoralizadas pelos fatos, teve de dobrar a aposta em rodadas sucessivas, mantendo mobilizado seu eleitorado fiel, que se alimenta da sua loucura e lhe fornece, igualmente, a ração diária de sandice.

Não venham me dizer que alguém, em algum momento, anteviu que algo assim poderia acontecer. Bolsonaro é o populista da parcela minoritária fiel a seus postulados e que, tudo indica, não está disposta a mudar de ideia. E é uma gente muito aguerrida. Se o presidente começasse a defender a vacinação em massa e cedesse aos postulados da ciência, poderia ser abandonado por parcelas consideráveis de seus admiradores.

COLOQUEMOS A ELEIÇÃO NO JOGO
Nesta quarta, foram divulgados números da pesquisa Ipespe. Com 44% dos votos nos dois cenários testados, Lula poderia vencer a eleição no primeiro turno. Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 24% ou 26%. Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT) empatam em 8%, na simulação em que João Doria (PSDB) tem 2%. Na outra, sem o ex-juiz, Doria fica com 4%, e Ciro vai a 9%.

Não! Os números não são bons para o presidente. No segundo turno, Lula venceria a todos, e Bolsonaro perderia para todos. A avaliação sobre o seu governo também bate recordes negativos.

Com o discurso que tem, o presidente parece caminhar para uma derrota. Tenho cá para mim que, se não tivesse se lançado na cruzada antivacina lá nos primórdios, surfando no auxílio emergencial, talvez a realidade fosse outra. Não dá para contar a história que não houve. Mas dá para contar, com espanto, a que há.

Fazendo e falando as barbaridades que faz e fala, Bolsonaro tem quase um terço do eleitorado no primeiro turno, muito à frente do terceiro lugar. Moro é igualmente um reacionário — em certos aspectos, mais do que o presidente. Mas não pode fazer o discurso antivacina. Doria, que ajudou a imunizar o Brasil tanto com a CoronaVac como forçando o governo a se mobilizar, aparece com 2% ou 4%.

O que quer o eleitorado de Bolsonaro? Um candidato da direita democrática, conservador, que é eficaz na gestão, que não dá mole para as esquerdas? Huuummm... Poderia ser Doria, não é? Ah, mas ele é o cara da vacina. Tampouco serve Moro. Não que este valente esteja empenhado em defender a imunização... Costuma ficar longe do assunto. De toda sorte, não tem como falar contra a ciência — ou perde apoios importantes na mídia.

Fiquem certos: Bolsonaro vai radicalizar o discurso antivacina. Se passasse a ser um discípulo da ciência, correria o risco de ser trocado porque estaria traindo os seus fiéis. Os seus devotos servem para lhe dar o segundo turno — se Lula não vencer no primeiro —, mas lhe tiram a eleição.

Ocorreu-me aqui: será que devemos ser gratos a eles?...

Veja também comentário do colunista sobre o tema no Youtube.