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Reinaldo Azevedo

Olavo era caricatura; vírus não é guia moral nem quando mata negacionista

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

25/01/2022 07h13

As redes sociais de Olavo de Carvalho anunciaram a sua morte no começo da madrugada. Segundo a informação, o prosélito de extrema direita, que chegou a ser uma das pessoas mais influentes no governo Bolsonaro, morreu no fim da noite de segunda, aos 74 anos, num hospital em Richmond, na Virginia (EUA). No dia 16, a administradora de sua conta no Telegram desmarcou aulas do seu "curso de filosofia" afirmando: "O professor foi diagnosticado com covid e já se recupera."

O coronavírus não existe para dar aula prática de filosofia. Também não é mestre de educação moral e cívica. Tampouco é o braço vingador do Senhor, punindo aqueles que falam asneiras sobre a Covid-19, minimizando seus riscos ou mesmo afirmando, como chegou a fazer Olavo, que a pandemia não existia e que estávamos todos imersos em uma grande farsa.

Não! Ele não morreu em razão das bobagens que disse. Tampouco se pode garantir que o negacionista de propaganda realmente recusou a vacina ou que não tomasse os devidos cuidados. Não sei. Ele havia assumido um lugar no debate público em que já não conseguia exercer o papel essencial do intelectual que tinha a ambição de ser: a independência. Era formulador e funcionário de uma causa.

Suas afirmações obscurantistas sobre vacina, diga-se, antecedem a era da Covid. No dia 17 de julho de 2006, escreveu em sua coluna no "Diário do Comércio":
"Não tenho a menor convicção pessoal sobre as vacinas. Já li provas científicas eloquentes de que são úteis e de que são perniciosas, e me considero humildemente em dúvida até segunda ordem. Alguns dos meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais. (...) O Estado e a burocracia científica que vão para o diabo, que o pai dos dois".

Escolhia um lado. Em 2016 -- e o sarampo já havia ressurgido no Brasil em razão da queda na taxa de vacinação --, escreveu no Twitter:
"O falecido doutor Carlos Armando de Moura Ribeiro dizia explicitamente: "Vacinas ou matam ou endoidam. Nunca dê a um filho seu. Se houver algum problema, venha aqui que eu resolvo".

A morte não vai lhe servir de lição porque ele já não pode aprender mais nada. Também há os que fizeram as escolhas sensatas nessa área e morreram vítimas do vírus. Não se igualam moralmente, é claro! Há discursos que facilitam a multiplicação do patógeno e, pois, a morte de pessoas.

MÁ PERSONAGEM
Conheci Olavo em 1996. Chegamos, como é sabido, a ter uma relação cordial e até bem-humorada, ainda que as discordâncias fossem gigantescas. Nunca fui discípulo ou aluno seu. Na verdade, fui seu editor em duas revistas, o que é coisa muito distinta. Era gentilíssimo comigo.

As coisas azedaram de vez em 2015, quando ele passou a me acusar de estar entre aqueles que queriam evitar, como posso chamar?, o assalto ao Palácio de Inverno pelos reaças. Olavo estava convicto de que o impeachment de Dilma não aconteceria e de que era preciso escolher o caminho da ação direta. Sim, era uma pregação abertamente golpista. Quando apontei a insanidade de tal pensamento, virei um de seus demônios prediletos.

A Internet transformou o escritor marginal que conheci, sempre com dificuldade para pagar as contas, numa bem azeitada máquina de "cursos de filosofia". O meio predispõe ao extremismo irresponsável. Derrotado, obviamente, na tese do impeachment na porrada, abraçou a candidatura Bolsonaro e decidiu ser o seu grilo falante.

Lamento, de verdade, a morte de qualquer pessoa. Também a de Olavo. De resto, é sempre triste quando as pessoas se tornam escravas da personagem que inventaram. Um amigo ainda lembrava nesta semana um pequeno texto daquele que virou o guia da extrema direita golpista. É de novembro de 2014:
"Existem ainda remanescentes de uma velha direita policialesca, irracionalista, machista, moralista (da vida alheia) até a demência, visceralmente antinordestina, às vezes antissemita e sempre supremamente cretina. Essa direita tem de ser EXTINTA antes que se possa oferecer qualquer resistência séria à ditadura petista. Não é por uma questão de imagem. É que andar com maluco faz mal à saúde."

Ainda que se possa discordar sobre a existência de uma "ditadura petista", é inquestionável que havia no país, em 2014, "remanescentes de uma velha direita policialesca, irracionalista, machista, moralista (da vida alheia) até a demência, visceralmente antinordestina, às vezes antissemita e sempre supremamente cretina." Com a ajuda de Olavo, ela se transformou numa legião. Como os demônios.

Olavo morre em decorrência da Covid-19 no momento em que o Ministério da Saúde, por intermédio de um discípulo seu — Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde —, redige um documento em que barra as diretrizes contra o famigerado "Kit Covid". Pior do que isso: sustenta que a hidroxicloroquina funciona, mas as vacinas não!

O Olavo que morreu nesta segunda tinha virado uma caricatura de si mesmo.

Que Deus consiga perdoá-lo.