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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gabinete do Ódio no Palácio atuou com milícias digitais em favor do crime

Tércio Arnaud, assessor de Bolsoanro que comanda o chamado "Gabinete do Ódio". Quer dizer... Quem comanda mesmo é Carlucho - Reprodução
Tércio Arnaud, assessor de Bolsoanro que comanda o chamado "Gabinete do Ódio". Quer dizer... Quem comanda mesmo é Carlucho Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

11/02/2022 07h06

É do balacobaco.

Em relatório parcial enviado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, a delegada Denisse Ribeiro, da PF, afirma que uma milícia digital que atua com o propósito de desestabilizar a democracia usa a estrutura do chamado "Gabinete do Ódio", instalado no Palácio do Planalto. O tal "gabinete" é composto por Tércio Thomaz — que coordena os, digamos, "trabalhos" —, José Matheus Salles Gomes e Mateus Diniz. O trio trabalha sob o comando de Carlos Bolsonaro, o dito filho "Zero Dois" do presidente da República, que também é vereador no Rio, onde nunca está. O documento enviado a Moraes junta alguns depoimentos, inclusive o do general Augusto Heleno, que comanda o GSI (Gabinete da Segurança Institucional). Há ao menos duas afirmações assombrosas do general, como se verá.

A delegada entra em licença-maternidade no dia 14, razão por que apresenta esse relatório parcial.

Denisse conduziu dois inquéritos: esse, das milícias, e o das "fake news" contra o Supremo, aberto de ofício por Dias Toffoli, então presidente do tribunal, no dia 14 de março de 2019. O primeiro foi instaurado no dia 16 de julho do ano passado e tem origem num outro, o dos "atos antidemocráticos". Nesse caso, a iniciativa partira de Augusto Aras, procurador-geral da República, em abril de 2020. No fim de junho do ano passado, no entanto, a PGR concluiu que a PF não conseguira delimitar a investigação e pediu seu arquivamento. Moraes, é claro!, assim procedeu, mas determinou que um braço da apuração tivesse continuidade: justamente a das tais milícias.

Escreve a delegada em seu relatório:
O estado atual da investigação traz um conjunto de elementos que indicam um modo de agir bem delineado e coerente, o qual mantém hígida a referida hipótese. Identifica-se a atuação de uma estrutura que opera especialmente por meio de um autodenominado "gabinete do ódio": um grupo que produz conteúdos e/ou promove postagens em redes sociais atacando pessoas (alvos) - os "espantalhos" escolhidos - previamente eleitas pelos integrantes da organização, difundindo-as por múltiplos canais de comunicação, em atuação similar à já descrita outrora pela Polícia Federal, consistente no amplo emprego de vários canais da rede mundial de computadores, especialmente as redes sociais, com eliminação de intermediários, com as seguintes características:
a) em "alto volume" e por multicanais, implicando em variedade e grande quantidade de fontes;
b) de maneira rápida, contínua e repetitiva, focada na formação de uma primeira impressão duradoura no receptor, a qual gera familiaridade com a informação e, consequentemente, sua aceitação;
c) sem compromisso com a verdade; e
d) sem compromisso com a consistência do discurso ao longo do tempo (i.e., uma nova difusão pode contrariar absolutamente a anterior sem que isso gere perda de credibilidade do emissor).
Observa-se também que, além de promover ataque aos veículos tradicionais de difusão de informação (jornais, rádio, TV etc.) e de estimular a polarização e o acirramento do debate, a organização utiliza essa estrutura para atacar de forma anônima diversas pessoas (antagonistas políticos, ministros do STF, integrantes do próprio governo, dissidentes etc.), tudo com o objetivo de pavimentar o caminho para alcance dos objetivos traçados (ganhos ideológicos, político-partidários e financeiros)
.

Chamo a atenção para o fato, que já verificamos muitas vezes, de que as "verdades" da turma são mutáveis. Havendo uma nova orientação, atualiza-se a versão, que será defendida com igual entusiasmo. E o gado sempre fiel!

MÉTODO
O grupo tem um método de trabalho. Escreve a delegada:

"O modo de agir pode ser sintetizado em quatro processos: a) a eleição, que é a indicação ou a deliberação sobre qual pessoa será alvo das ações; b) a preparação, consistente na elaboração do conteúdo e na separação de tarefas entre os envolvidos, englobando também os múltiplos canais que serão empregados para promover a amplificação do discurso; c) o ataque em si, consistente nas diversas postagens com conteúdo ofensivo, inverídico e/ou deturpado, formulado por várias fontes, por diversos canais e intensificado pela transmissão/retransmissão a integrantes do grupo que possuem muitos seguidores/apoiadores nas redes sociais, potencializando a difusão da notícia; d) a reverberação, que nada mais é do que a multiplicação cruzada das postagens por novas retransmissões, complementadas ou não com novos elementos agregados, inclusive realizada por autoridades públicas e/ou pelos meios de comunicação tradicionais.

A delegada deixa claro também que a atuação é consistente com o que se costuma chamar organização criminosa: é um grupo estável, regular, com funções definidas. Leiam:
As informações contidas nestes 02 (dois) volumes dos autos principais (aproximadamente setecentas folhas) e nas mais de 730 (setecentas e trinta) páginas dos relatórios de análise contidos no RE nº 2022.0006759, que segue em autos apartados, exigem que cada evento descrito seja interpretado no contexto maior em que se insere, pois muitos dos fatos noticiados, caso extraídos e isolados, dissipam a ideia de uma ação arranjada ou mesmo não caracterizam um crime em si. Lidos em conjunto, entretanto, as diversas comunicações entre os integrantes da organização, o cruzamento de dados adquiridos mediante quebra de sigilo legal, as oitivas e os documentos obtidos permitem identificar a estrutura montada, os papéis de seus membros e os objetivos buscados, os quais são até aqui indicadores de uma atuação orquestrada, que pratica os fatos descritos com o propósito de difundir os ataques e/ou desinformação, criando ou deturpando os dados para obter vantagens para o próprio grupo ideológico e auferir lucros diretos ou indiretos por canais diversos. Para além de uma relação de causa e consequência e de suas repercussões criminais, o que distingue as condutas sob apuração da mera manifestação de opinião é o nítido propósito de manipular a audiência distorcendo dados, levando o público a erro e induzindo-o a aceitar como verdade aquilo que não possui lastro na realidade. Reforça essa afirmação a existência de informações indicadoras do uso de contas inautênticas automatizadas em massa (robots) para potencializar o alcance das mensagens difundidas (vide relatórios de análise nº 001/2022 e 010/2021 - IPL 2021.0052061)

O relatório deixa claro que as tais milícias digitais, em associação com o gabinete do ódio, atuaram para disseminar mentiras espalhadas pelo próprio presidente da República. E o grupo que o assessora é parte do que leva todo o jeito de ser uma organização criminosa.

Deltan Dallagnol, que ajudou a eleger Bolsonaro, não se vê tentado a fazer um "PowerPoint"?