PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro cresce um pouco; Lula poderia vencer no 1º; 3ª via ainda sem via

Reprodução/Quaest
Imagem: Reprodução/Quaest
só para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

16/03/2022 08h53Atualizada em 16/03/2022 14h55

Foram divulgados nesta quarta os números da pesquisa Genial/Quaest de março. O que eles dizem no seu conjunto se estiverem certos?
- Tudo indica que está em curso um discreto crescimento de Jair Bolsonaro (PL);
- a "terceira via" continua a ser uma miragem;
- Lula (PT) poderia vencer a disputa no primeiro turno.

A Quaest entrevistou duas mil pessoas entre os dias 10 e 13 deste mês. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Vamos ver.

VOTO ESPONTÂNEO
Lula e Bolsonaro continuam a ser os únicos a ter números expressivos no voto espontâneo, que é considerado aquele realmente consolidado. A distância entre eles é grande, mas caiu um pouco em relação a fevereiro. O petista oscilou de 28% para 27%, e o atual presidente cresceu de 16% para 19%. A diferença caiu de 12 pontos para 8. Juntos, os demais candidatos têm apenas 3% das citações.

VOTO ESTIMULADO
A pesquisa testou três cenários de primeiro turno. Apenas o primeiro deles pode ser comparado com a pesquisa anterior porque os mesmos nomes foram testados. Vejam abaixo. Os índices que estão entre parênteses dizem respeito a fevereiro:

- Lula: 44% (45%)
- Bolsonaro: 26% (23%)
- Sergio Moro (Podemos): 7% (7%)
- Ciro Gomes (PDT): 7% (7%)
- João Doria (PSDB): 2% (2%)
- André Janones (Avante): 2% (2%)
- Simone Tebet (MDB): 1% (1%)
- Felipe Dávila (Novo): 0% (0%)
- Branco/Nulo/Não vota: 6% (8%)
- Indeciso: 5% (5%)

Os demais candidatos somariam 45%, contra 44% de Lula. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, é claro que o petista poderia vencer no primeiro turno.

Há uma segunda simulação em que entra o nome de Eduardo Leite, que pode deixar o PSDB para concorrer pelo PSD. Eis os dados:

- Lula: 45%
- Bolsonaro: 25%
- Ciro Gomes: 7%
- Sergio Moro: 6%
- João Doria: 2%
- André Janones: 2%
- Simone Tebet: 1%
- Felipe Dávila: 0%
- Eduardo Leite (PSD): 1%
- Branco/Nulo/Não vota: 6%
- Indeciso: 4%

Nesse caso, a soma dos demais postulantes é de 44%, um ponto percentual abaixo da marca de Lula. Também na margem de erro e com vitória possível na primeira jornada.

Há um terceiro cenário, com menos candidatos. Ciro Gomes se manteria na disputa, e o único postulante da chamada "terceira via" seria Eduardo Leite, que está migrando para o PSD.

- Lula: 48%
- Bolsonaro: 28%
- Ciro Gomes: 8%
- Eduardo Leite: 3%
- Branco/Nulo/Não vota: 8%
- Indeciso: 4%

Nessa hipótese — muito pouco provável, já que não traz nem Doria nem Moro —, a vitória de Lula ainda no primeiro turno seria certa.

VOTO ÚTIL NO PRIMEIRO TURNO
Atenção! A pesquisa indagou se aqueles que não votam nem em Lula nem em Bolsonaro poderiam escolher o nome do petista para liquidar a eleição já no primeiro turno: nada menos de 34% disseram que "sim" -- o que, tudo o mais constante, reforça a possibilidade de eleição de Lula em uma única votação.

Poderiam fazer essa escolha 34% dos eleitores de Ciro, 22% dos de Doria, 21% dos de Moro e 38% dos demais.

O levantamento também quis saber se o "grupo nem-nem" poderia migrar para Bolsonaro para liquidar de cara a fatura. O contingente, obviamente, é bem menor: apenas 23%. Seriam 32% dos eleitores de Moro, 16% dos de Ciro, 14% dos de Doria e 23% no caso dos demais.

A RENDA
Bolsonaro, como se verá, pode ter melhorado um tiquinho. Continua a tomar uma sova de Lula entre os mais pobres, com discreto encurtamento da distância -- os números entre parênteses se referem a fevereiro:
Entre os que ganham até 2 Mínimos
- Lula: 54% (55%)
- Bolsonaro: 19% (16%)
- Ciro: 5% (5%)
- Moro: 5% (5%)
- Doria: 2% (2%)
- Janones: 3% (2%)
- Leite: 1%
- Simone: 1%

Entre os que ganham de 2 a 5 mínimos
- Lula: 42% (44%)
- Bolsonaro: 26% (25%)
- Ciro: 7% (7%)
- Moro: 7% (7%)
- Doria: 2% (2%)
- Janones: 2% (2%)
- Leite: 1%
- Simone: 1% (1)
- Dávila: 1%

Entre os que ganham mais de 5 mínimos
- Lula: 37% (32%)
- Bolsonaro: 32% (31%)
- Ciro: 8% (10%)
- Moro: 6% (9%)
- Doria: 3% (3%)
- Janones: 2% (1%)
- Leite: 3%
- Simone: 1% (1%)
Algumas observações importantes sobre a renda: 70% do eleitorado brasileiro ganham até dois salários mínimos, e 90% recebem até R$ 3,5 mil. Observem que Bolsonaro cresce um pouquinho no estrato mais pobre, mas a distância em relação a Lula é ainda brutal.

A destacar: entre os que ganham mais de cinco mínimos, Lula abriu uma boa vantagem: do empate em fevereiro (32% a 31%) para cinco pontos favoráveis: 37% a 32%. Nesse grupo, a preferência por Moro caiu de 9% para 6%,

AS REGIÕES
Segundo a pesquisa ao menos, Bolsonaro só teria condições de bater Lula se a eleição fosse disputada apenas no Centro-Oeste. Vejam como se dá a distribuição regional -- números entre parênteses se referem a fevereiro.
Nordeste
- Lula: 60% (61%)
- Bolsonaro: 15% (13%)
- Ciro: 10% (8%)

- Moro: 2% (3%)
- Doria: 2% (2%)
- Janones: 2% (2%)
- Leite: 1%

Norte
- Lula: 43% (40%)
- Bolsonaro: 30% (26%)
- Ciro: 7% (7%)
- Moro: 5% (8%)
- Doria: 2% (3%)
- Janones: 3% (2%)
- Leite: 1%
- Simone: 1% (1%)

Sudeste
- Lula: 42% (40%)
- Bolsonaro: 26% (26%)
- Ciro: 5% (7%)
- Moro: 7% (8%)
- Doria: 2% (3%)
- Janones: 3% (2%)
- Leite: 1%
- Simone: 1% (1%)
- Dávila: 1%

Sul
- Lula: 35% (38%)
- Bolsonaro: 29% (29%)
- Ciro: 5% (5%)

- Moro: 8% (13%)
- Doria: 1% (1%)
- Janones: 1% (1%)

- Leite: 4%
- Simone: 1% (2%)
- Dávila: 1%

Centro-Oeste
- Lula: 29% (32%)
- Bolsonaro: 39% (31%)

- Ciro: 5% (8%)
- Moro: 11% (5%)
- Doria: 2% (2%)
- Janones: 2% (3%)
- Dávila: 1% (2%)

Vamos lá. Destaquei em vermelho alguns números, que merecem consideração.

Nordeste - A situação de Bolsonaro pode ser um pouco menos dramática do que no mês passado, mas a diferença em relação a Lula ainda é de espetaculares 45 pontos. O Nordeste compõe o segundo eleitorado do país. Observe-se que o desempenho de Ciro se move para cima, ainda na margem de erro. Para um político da região, é, no entanto, modesto.

Norte: a diferença entre o ex-presidente e o atual se manteve. Tanto Bolsonaro como Lula podem ter ganhado votos.

Sudeste: Lula pode ter aumentado a sua vantagem em dois pontos percentuais sobre Bolsonaro no maior colégio eleitoral do país. Destaque-se o desempenho ruim de Doria na região que, em tese, poderia ser mais sensível à sua postulação. É governador do Estado com o maior eleitorado: São Paulo. Quando Moro lançou sua pré-candidatura, contava com uma adesão massiva dessa parte do país . Não aconteceu. E seu eleitorado pode ter diminuído.

Sul: Lula cai 3 pontos, e Bolsonaro mantém o seu percentual. Destaquem-se dois números: Eduardo Leite aparece com 4%, e Sergio Moro, um político do Paraná, vai de 13% para apenas 8%. Nada auspicioso para ele.

Centro-Oeste: é a única região em que Bolsonaro aparece à frente de Lula. No mês passado, estavam em empate técnico. Moro cresceu.

SEGUNDO TURNO
Lula continua a vencer com folga todos os possíveis adversários -- números de fevereiro entre parênteses:
- Lula X Bolsonaro: 54% a 32% (54% a 30%)
- Lula X Moro: 53% a 26% (52% a 28%)
- Lula X Ciro: 51% a 23% (51% a 24%)
- Lula X Doria: 56% a 15% (55% a 16%)
- Lula X Leite: 57% a 15% (56% a 14%)

Um recorte da pesquisa: 52% dos eleitores de Ciro no primeiro turno votariam em Lula, e apenas 22% poderiam migrar para Bolsonaro. Entre os que escolhem Moro na primeira etapa, 34% ficariam com o atual presidente, e 26%, com o petista.

PARA ENCERRAR
Observem que, no segundo turno, as oscilações estão dentro da margem de erro. A conversa dos bolsonaristas de que, em abril, Bolsonaro poderia ultrapassar Lula é, por enquanto, mero exercício de vontade. Como destaco de cara, lá no primeiro parágrafo, pode ser que Bolsonaro tenha crescido um pouco.

Ocorre que os tempos não andam nada fáceis na economia. Vejam o descontentamento gerado pelo aumento dos combustíveis. A resposta do governo tem sido, até agora, destrambelhada. Toda a "mexelança" com os impostos pode resultar numa queda muito discreta no preço para a consumidor.

Há, de resto, a inflação renitente. De fevereiro para março, saltou de 35% para 51% os que consideram a economia o principal problema do país. Têm uma avaliação negativa do governo 49% dos entrevistados; a positiva é de 24%. No mês passado, 51% a 22%. Também aí há algum suspiro para o presidente.

A questão é saber como ele vai enfrentar a maré de más notícias na economia. É evidente que Bolsonaro ainda não está derrotado. Seu eleitorado resiste. Mas virar o jogo não é tarefa fácil. Seu consolo é saber que, até agora, a turma da tal "terceira via" está em situação muito pior.