PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mourão como colunista progressista da imprensa? Imaginem os reaças nem-nem!

Hamilton Mourão, vice-presidente da República: seu mau pensamento ainda anda melhor do que o de muitos colunistas da outrora "grande imprensa" - Alan Santos/PR
Hamilton Mourão, vice-presidente da República: seu mau pensamento ainda anda melhor do que o de muitos colunistas da outrora "grande imprensa" Imagem: Alan Santos/PR
só para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

02/05/2022 17h01

O general Hamilton Mourão, vice-presidente da República e provável candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, gosta de posar, assim, de a face mais terna do autoritarismo em curso no Brasil. Diz barbaridades e as ameniza depois, num esforço para normalizar o absurdo, tentando tranquilizar o interlocutor, como a dizer: "Ah, fiquem tranquilos! Não é assim tão grave!".

O general resolveu refletir sobre os atos golpistas promovidos pelo presidente no domingo. Afirmou o seguinte:
"Liberdade de expressão. Tem gente que quer isso, mas a imensa maioria do povo não quer".

Assim, para o general, a defesa do fechamento do Supremo, do golpe militar, do desrespeito às decisões judiciais, de uma reedição do AI-5 -- esse conjunto está no "Pacote Silveira" --, tudo isso com o patrocínio da Presidência, é coisa normal. Mera manifestação da "liberdade de expressão". Logo, deve-se compreender que as pessoas têm de ser livres para tentar destruir a própria democracia... Como há algum risco de assustar o interlocutor, então Mourão assopra:
"Tem gente que quer isso, mas a imensa maioria do povo não quer".

As Polianas que hoje se prestam a ser bordadeiras do golpismo dizem: "Tá vendo? É um democrata!".

Pois é... E se, um dia, os armados acharem que "a imensa maioria do povo quer" o golpe? Isso não se mede por pesquisa de opinião. A agitação contra as instituições é um trabalho cujos frutos não se colhem, necessariamente, no curto prazo.

NÃO SURPREENDE
Não me espanta, em absoluto, que o general diga tais coisas. Estupefaciente é que haja jornalistas e colunistas, supostamente comprometidos com a democracia, a repetir essas porcarias. A barbárie bolsonariana começou a ser tratada com "um dos lados" aceitáveis da vida pública brasileira.

A defesa do golpe está sendo chamada de "manifestação em favor da liberdade de expressão" sem as aspas, próprias de uma fala atribuída à alguém ou que pretendem inverter o sentido de uma palavra ou frase. E isso acontece em textos que deveriam ser apenas informativos.

Façamos um exercício ligeiro. Imaginem alguém que se elegesse presidente da República e passasse, no Palácio do Planalto, a pregar a luta armada. Epa! Já temos esse presidente. É Bolsonaro. A defesa que ele faz da posse e do porte de armas nada tem a ver com autodefesa. Ele deixa claro tratar-se de uma postulação de caráter político. Então vou pedir mais precisão do devaneio.

Imaginem um presidente da República que, no Palácio, pregasse a luta armada em favor de uma revolução popular — precondição, poderia dizer esse líder imaginário, para que tivéssemos a "verdadeira liberdade". Bem, de um golpe de Estado ao impeachment, tudo seria possível. E, com absoluta certeza, não haveria colunista que se atrevesse a defendê-lo, não é mesmo? Afinal, estar-se-ia agredindo uma penca de disposições constitucionais.

Bolsonaro não agride? Faz sentido considerar seu golpismo "um dos lados" das postulações políticas legítimas ou, sejamos claros, o "outro lado" de Lula? É indecente que se coloquem, num prato da balança, erros, inconsistências e incoerências do líder petista e, no outro, a militância disruptiva do atual presidente, como se fossem ruindades equivalentes.

Perda de critério. Perda de parâmetro. Perda de vergonha.

No fim da década de 70, a esquerda que aprendeu com as experiências históricas chegou à formulação da "democracia como valor universal". Ou por outra: sem ela, jamais se chegaria a uma experiência de governo popular — ou, ao menos, atento às necessidades dos mais pobres.

A crise de valores é de tal sorte que a imprensa brasileira abriga hoje vozes, a título de garantir a pluralidade, que já não entendem a democracia como um valor universal. Consideram-se aceitáveis postulações e práticas que, se bem sucedidas, nos mandariam a todos para a cadeia.

Convenham: dada a degeneração, Mourão fica mesmo parecendo um democrata.

Mais um pouco, já pode ser contratado como "colunista progressista". Imaginem o padrão dos reaças nem-nem.