PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula, o fim do PSDB, o golpe, a voz do povo, a voz de Deus e a do diabo

Reprodução
Imagem: Reprodução
só para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

01/06/2022 04h58

Se o ex-presidente Lula declarar, com alguma solenidade ou especial ênfase, que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, isso não só rende título como é possível que a imprensa ouça, por mal compreendido dever de ofício, o "outro lado". Imaginem, então, quando afirma, como fez em evento em São Paulo, na noite desta terça, que "o PSDB acabou, e o PT continua forte". Não descarto, note-se, que a declaração possa até mexer um tanto com os brios tucanos.

A primeira afirmação pode estar sujeita a controvérsias. A segunda, parece-me, dispensa "o outro lado" ou a contestação, a exemplo do teorema de Pitágoras. O PT, depois de tudo, "continua forte". A rigor, é o único partido do país realmente enraizado, que tem base social e militância ativa. Não é questão de gosto, mas questão de fato.

Pode-se até questionar se Lula foi prudente ao fazer tal afirmação, uma vez que é notório — e está certo — que busca o apoio de lideranças tucanas. O PSDB, como existiu um dia, está, sem dúvida, morto. Ou o que dizer de um partido que sacrifica uma candidatura à Presidência da República no esforço de manter o Palácio dos Bandeirantes? Essa avaliação, note-se, nem é minha, mas do deputado Aécio Neves (MG), um dos tucanos que ajudaram a dinamitar postulação de João Doria,

Lula estava num evento promovido por petistas: o lançamento do livro "Querido Lula: Cartas a um Presidente na Prisão". Passou 580 dias encarcerado, condenado por uma sentença que não traz o elemento básico que, no caso, assevera que se cumpriu o devido processo legal: as provas da acusação. Nunca ninguém conseguiu me dizer em quais páginas da obra de Sergio Moro elas estão listadas ou caracterizadas.

Em embargos de declaração, o então juiz deixou grafado para a posteridade: "Este juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram usados para pagamento da vantagem indevida para o ex-Presidente."

Pois é... Mas essa era a denúncia. É estupefaciente que tenha acontecido. De resto, a Alvarez & Marsal, que fazia a recuperação judicial da OAS, asseverava que o tal apartamento pertencia à empreiteira. Moro ignorou. Depois de abandonar a magistratura e o Ministério da Justiça, em sua parceria com Jair Bolsonaro, foi trabalhar na Alvarez & Marsal. Um roteiro assim seria rejeitado pelos Estúdios Globo porque seria considerado inverossímil.

E, no entanto, o PT não acabou, mas o PSDB vive o pior momento de sua história. A vertente social-democrata que o criou perdeu as rédeas do partido faz tempo. Nesses quase quatro anos de descalabros de Bolsonaro, foi de uma fidelidade ao Planalto de fazer inveja ao Centrão — e sem colher os benefícios dos que integram a base de apoio. Muitos diriam, aspirando a alguma honra, que foi mesmo por convicção, não por malícia...

Uma coisa é inegável: o PT resolveu fazer a luta política — e ninguém precisa gostar do partido para reconhecê-lo — para não sucumbir. Lembro sempre que Lula liderava a disputa em 2018 mesmo na cadeia. Fez um candidato quando tirado do jogo e conseguiu disputar o segundo turno. O PSDB foi acumulando a péssima experiência de largar os seus pelo caminho. E a vítima mais recente foi o próprio Doria, que já integrava um partido que não mais carregava a herança social-democrata.

O PT fez da prisão de Lula e da ampla demonização a que foi submetido pelos desmandos da Lava Jato um fator de resistência. O PSDB não conseguiu transformar em ativo político o bom governo que Doria fez em São Paulo e a atuação importante que teve — definitiva, na verdade — em favor da vacinação em massa no país. Um partido que age assim, convenham, acabou. Notem que os motivos da minha concordância com a afirmação de Lula são distintos daqueles que o levaram a fazer essa afirmação. Doria cometeu, sem dúvida, muitos erros. Em nada amenizam o "tucanocídio" que se cometeu ao bombardear a sua candidatura.

"E se Garcia ganha em São Paulo?" Bem, vai se iniciar o "Ciclo Garcia" sobre os escombros daquilo que foi um dia o PSDB. Que acabou.

OUTRA AFIRMAÇÃO
Essa afirmação de Lula, até porque se presta mais à intriga e à picuinha, vai se sobrepor a outra feita pelo presidente no mesmo dia. Muito mais importante. Em entrevista à rádio Bandeirantes, de Porto Alegre, afirmou:
"Obviamente que eu não faço política parado no tempo e no espaço. Eu faço política vivendo o momento que eu estou vivendo. Eu, agora, estou falando com muita gente que participou do golpe [contra] a Dilma. Porque, se eu não conversar, não faz política".

Já afirmei aqui e em toda parte e o faço de novo: o impeachment de Dilma, que apoiei, foi um erro. A presidente foi deposta sem ter cometido crime de responsabilidade. Reexaminando os dados de então e as evidências apresentadas, a pedalada não aconteceu. Tratou-se de uma armadilha contábil. Golpe? O processo passou por toda as instâncias institucionais. Talvez se deva dizer que foi, na origem, um golpe parlamentar que acabou submetido a um processo de institucionalização. A deposição ilegítima foi parte de sortilégios que fizeram um mal imenso ao país e nos empurraram para o abismo em que estamos.

Lula acerta quando diz que não faz política "parado no tempo". Dado o desastre em curso, é preciso conversar com todos os que querem conversar. E a defesa das garantias democráticas tem de ser a linha de corte. E o mesmo recomendo a qualquer outro postulante. Como o petista está na frente, fica-se com a impressão de que só ele pode fazer esse discurso. Não! Qualquer outro postulante deveria abraçar o princípio.

Convenham: há mais de ano venho dizendo que aquela conversa de "nem-nem" era uma tolice que não levaria a lugar nenhum. E que o compromisso essencial haveria de ser com a democracia. Mas sempre se temeu que esse discurso beneficiasse... Lula. Assim, os aspirantes à terceira via e afins preferiram se perder em "nem uma coisa nem outra" e largaram ao petista a defesa das instituições — justamente ele, que foi encarcerado pela ordem legal num momento em que esta foi corrompida pelo ilegalismo.

GOLPE?
No evento em São Paulo, Lula se referiu ainda às reiteradas ameaças de golpe feitas por Bolsonaro e procedeu ao que parece ser uma síntese de um mau tempo:
"Não adianta o Bolsonaro dizer que vai dar golpe, que 'só Deus me tira daqui'. Como eu acredito que a voz do povo é a voz de Deus, a voz do povo vai tirar ele de lá".

E acrescentou:
"Estamos lutando contra gente muito ruim, contra os matadores da Marielle, os milicianos, as pessoas que não têm medo de matar inocente, de fazer com o Genivaldo o que a Polícia Rodoviária fez em Sergipe".

Os opositores de Lula — excetuando-se, claro!, Bolsonaro — têm de começar a sintetizar também a natureza da luta.

E olhem que, à diferença do ex-presidente, eu nem acredito "que a voz do povo é a voz de Deus". Às vezes, o capeta toma conta.

Que o reinado do tinhoso tenha fim.