PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quaest: Lula ainda pode levar no 1º; escândalos não tiram voto de Bolsonaro

Reprodução/Genial-Quaest
Imagem: Reprodução/Genial-Quaest
só para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/07/2022 07h01

Foram divulgados há poucos os números da pesquisa Genial-Quaest. Se a eleição fosse hoje, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia vencer a disputa no primeiro turno. As alterações em relação à pesquisa do mês passado situam-se na margem de erro, que é de dois pontos. Num eventual segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente bateria o atual por 53% a 34% — há um mês, 54% a 32%. O petista venceria Ciro Gomes (PDT) por 52% a 25%, números idênticos ao levantamento de junho, e Simone Tebet (MDB) por 55% a 20% (antes, 56% a 20%). Foram feitas duas mil entrevistas presenciais entre os dias 29 de junho e 2 de junho.

PRIMEIRO TURNO
No cenário cheio, com 12 candidatos, Lula oscilou de 46% para 45%, e Bolsonaro de 30% para 31%. Ciro variou de 7% para 6%, e André Janones (Avante) conservou os 2%. Simone Tebet foi de 1% para 2%, e Pablo Marçal (Pros) manteve seu 1%. Os demais candidatos não chegaram a somar 1%. Os indecisos continuam a ser 6%. E o contingente de brancos, nulos e ou de pessoas que declaram que não vão votar é agora de 6% -- antes, 7%. Há um mês, os adversários se Lula somavam 41 pontos, contra seus 46. Agora, têm 42 contra 45. Conserva-se, dentro da margem de erro, a possibilidade de vitória no primeiro turno.

num segundo cenário em que disputassem apenas Lula, Bolsonaro, Ciro, Janones e Simone — composição não testada no mês anterior, os números são, respectivamente, 45%, 31%, 7%, 3% e 3%. Os opositores de Lula somariam 44% contra seus 45%, conservando-se a possibilidade da vitória na primeira jornada.

Sem Janones, o petista vai a 47%, Bolsonaro conserva seus 31%, Ciro fica com 8%, e Simone, com 3%. Nesse caso, a vitória do petista no primeiro turno seria praticamente certa: 47% a 42%.

NÚMEROS SEGUEM RUINS, MAS...
Os números são péssimos para Bolsonaro, mas logo seus hortelões começarão a plantar nas colunas de notas que a virada já começou. Afinal, entre a pesquisa anterior, com campo realizado entre 2 e 6 de junho, e esta, entre 29 e 2, o governo foi colhido por duas péssimas notícias: as prisões preventivas, no dia 22, dos pastores Milton Ribeiro, Gilmar Santos e Arilton Moura, e o escândalo de assédio sexual e moral na Caixa Econômica Federal, que veio a público no dia 28, e resultou na demissão de Pedro Guimarães, presidente do banco. Apesar disso, Bolsonaro não piorou e até se pode especular que possa ter ganhado alguns votinhos.

Mais: a PEC do Desespero — que apelidei, à moda Narcisa Tamborindeguy, de "Ai, que medo do Lula!" — ainda não foi aprovada, e os efeitos da redução de impostos sobre combustíveis são ainda discretos. Assim, verão os dados com otimismo, apostando que os benefícios levarão votos para o presidente.

PISO E TETO
Se a "virada não começou", como os bolsonaristas certamente vão comemorar, é bem provável que Bolsonaro tenha atingido um piso. Convenham: cabe indagar o que mais poderia acontecer para que sua candidatura derretesse. Seu eleitorado se mostra fiel e resiliente. Na pesquisa espontânea, diga-se, ele passou de 20% para 24% -- é bem verdade que havia oscilado de 22% para 20% na anterior. Agora, Lula varia de 32% para 31%. A diferença entre eles é de 8% nessa sondagem e era de 12% no mês passado. Mas já chegou a ser de 6% em abril e maio.

A pesquisa Genial-Quaest começou a ser feita em julho do ano passado. Está na sua 13ª edição. Naquele mês, Bolsonaro aparecia com 28% das intenções de voto. Agora, tem 31%. Viveu seus piores dias em novembro, quando chegou a 21%. Com a desistência de Sergio Moro, recuperou parte do eleitorado que era seu e mudou de patamar.

Se Bolsonaro atingiu seu piso no primeiro turno, aos petistas talvez caiba a indagação: "Como fazer para furar o que parece ser um teto de Lula?" Essa pergunta é importante não para vencer a eleição, mas para tentar liquidar a fatura no primeiro turno. Ao longo das 13 jornadas, Lula nunca ficou abaixo de 44%, obtendo em novembro a maior pontuação: 48% — sempre considerando o cenário com todos os postulantes da hora. A desistência de Ciro, coisa com a qual ninguém conta, poderia abrir caminho para a vitória no primeiro turno. No levantamento de agora, como se pode notar, a eventual desistência de Janones seria positiva para o petista.

CORTES
Bolsonaro e o Centrão contam com a PEC "Ai, que Medo do Lula" para tentar alavancar a candidatura entre os mais pobres. A situação continua muito ruim para o atual mandatário. Entre os que recebem dois mínimos, Lula oscilou de 57% para 55%, e Bolsonaro, de 22% para 21%. Essa camada constitui 38% da amostra.

No grupo que recebem de dois a cinco mínimos — 40% do total de entrevistados —, há uma mudança considerável: o ex-presidente varia de 46% para 43%, e o atual, de 30% para 34%. A diferença caiu de 16 pontos para 9. Bolsonaro empata tecnicamente com Lula entre os que recebem mais de cinco mínimos (20% da amostra): o petista passa de 37% para 34%, e o atual mandatário, de 36% para 38%. Que peso a redução do preço dos combustíveis, ainda que discreta, pode ter nesse grupo?

A distância que separa Lula de Bolsonaro no Nordeste é gigantesca, mas está menor do que no mês passado, segundo a Quaest. O petista caiu de 68% para 59%, e o presidente cresceu de 15% para 22%. É bem verdade que, no mês anterior, Lula havia crescido seis pontos Na região, e Bolsonaro, caído 6. O Nordeste representa 27% do eleitorado brasileiro.

No Sudeste, que concentra 42,6% dos eleitores, também houve uma alteração importante: Lula lidera por 38% a 33%, mas, no mês passado, vencia por 43% a 33%. No Sul, o ex-presidente aparece com 40%, contra 32% do atual. No Centro-Oeste, teria havido uma mudança radical de cenário: o presidente teria despencado de 44% para 35%, e Lula, disparado de 24% para 39%. Mudança significativa também na Região Norte: o atual mandatário cai de 44% para 32%, e o ex cresce: de 40% para 48%.

Uma das fortalezas de Lula está no voto feminino. Nos dias em que o bolsonarismo afirmou coisas hediondas sobre casos pavorosos envolvendo estupro e aborto e em que vem a público o escândalo de assédio sexual na CEF, teria diminuindo de maneira sensível a diferença entre os dois candidatos mais votados: Lula teria oscilado de 50% para 46%, e Bolsonaro, crescido de 22% para 27%. Diferença enorme, mas menos do que antes.

CAMINHANDO PARA O ENCERRAMENTO
Dados os números, pode-se chegar a algumas conclusões:
- a menos de três meses da eleição, só mesmo um milagre, produzido pelo horário eleitoral, ou um evento formidável, no terreno do imponderável, pode fazer vingar um nome alternativo a Lula e Bolsonaro;

- O governo foi abalado por dois eventos extremamente negativos entre a pesquisa de junho e a deste mês, e Bolsonaro conservou os seus índices, quem sabe com ligeira melhora;

- a PEC sobre o ICMS dos combustíveis e a PEC "Ai, que Medo do Lula" podem não definir a eleição a favor de Bolsonaro, como esperam o Centrão, seus partidários e ele próprio, mas reforçam, obviamente, a posição do presidente no jogo. Não se sabe o tamanho desse reforço.

- Assim que os números forem divulgados, começa a contagem regressiva para o bolsonarismo cantar vitória. O presidente e seus aliados estão convictos de que a maior soma de ilegalidades da história da República em prazo tão curto vai virar o jogo. Os números evidenciam que a tarefa não é assim tão simples.