Reinaldo Azevedo

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Opinião

Dê-se crédito à 'porra-louquice' de Macron: acordou a França contra a RN

Jordan Bardella, o "potro" de Marine Le Pen, já estava escoiceando o alambrado e dando relinchos viris para correr na pista, exibindo seu puro-sangue mestiço — italiano e argelino — como candidato a primeiro-ministro de um partido neofascista, xenófobo e contra imigrantes. E, no entanto, ainda não foi desta vez que a legenda herdeira da República (nazistoide) de Vichy chegará ao poder. Que o dia não chegue. E me obrigo a lançar de cara uma questão aqui: terá o ex-banqueiro Emmanuel Macron enxergado mais longe do que todo mundo? Fez um cálculo e uma aposta que a ninguém ocorreu? Eu mesmo o critiquei duramente, a exemplo de todas as pessoas sensatas que conheço.

Vamos ver. Das 577 cadeiras da Assembleia, as esquerdas capturaram 182. O centro e a centro-direita capitaneados por Macron ficaram com 168, e a Reunião Nacional, a grande vencedora da eleição para o Parlamento Europeu e do primeiro turno, somou 143, ficando em terceiro lugar. Tem hoje 89 deputados. Cresceu bastante.

O mundo inteiro se espantou quando Macron dissolveu a Assembleia e convocou eleições na sequência da disputa para o Parlamento Europeu. Enfrentando oposição severa das esquerdas e pressionado pelo desempenho do Reunião Nacional, parece que o presidente pressentiu movimentos de instabilidade permanente até o fim de seu mandato, em 2027.

A dissolução da Assembleia, vejam que coisa!, serviu claramente como um chamamento. E não estou aqui a adivinhar motivações porque há os fatos. Já chego lá. Um movimento foi a união das esquerdas. E o outro se se deu no segundo turno, aí com a chamada "Frente Republicana", que uniu esquerdistas e centristas numa estratégia para isolar a extrema direita.

Na França, a exemplo do Reino Unido, há o sistema distrital puro. Os deputados são eleitos em votações majoritárias nos distritos. Quem obtiver maioria absoluta, consagra-se no primeiro turno. Ou então disputa o segundo desde que obtenha um mínimo de 12%. Ocupa uma cadeira na Assembleia o mais votado.

As esquerdas e centro/centro-direita de Macron fizeram um acordo eleitoral. Pelo menos 220 candidatos desses dois grupos retiraram suas respectivas candidaturas para impedir que o mais votado fosse um nome do Reunião Nacional. A estratégia resultou vitoriosa. Decepcionado, o "potro" chamou a tática de "aliança da desonra", acusando Macron de entregar o país nas mãos da extrema esquerda. Compreendo. Para quem já havia encomendado o terno, deve ter sido uma decepção e tanto.

Convenham: a "porra-louquice" de Macron acordou parte da França para o risco. Sim, a extrema-direita cresceu, a exemplo do que se vê mundo afora. Mas é como se Macron tivesse alertado: "Ou a Frente Republicana entra novo em ação, ou eles chegam lá". Por enquanto, não chegaram. Para quem falava em fazer até 289 cadeiras, as 143 parecem mixas, ainda que representem um crescimento expressivo.

E AGORA?
Afastado o perigo maior, os problemas estão apenas no começo. A esquerda, que obteve mais votos, mas longe da maioria, reivindica o governo. Será de que modo? A chamada Quinta República já assistiu três vezes ao chamado regime de coabitação: o presidente de um partido com um primeiro-ministro de legenda adversária. Aconteceu com Francois Mitterrand, do Partido Socialista, entre 1986 e 1988, tendo o gaullista Jacques Chirac como primeiro-ministro, e depois entre 1993 e 1995, com o neogaullista Edouard Balladur. Entre 1995 e 2002, foi a vez de Chirac, aí na Presidência, ter de conviver com o socialista Lionel Jospin.

Vamos ver. A França demonstrou que pode se mobilizar contra o risco representado pela extrema-direita. Se Macron e o futuro governo conseguirem pacificar o país, bem... Os neofascistas continuam a ser uma ameaça. Marina Le Pen diz que houve apenas um adiamento da chegada da RN ao poder. Ela é candidata à Presidência em 2027.

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Que a França vá à luta de novo. O movimento de Macron demonstrou duas coisas:
- a extrema-direita é realmente um perigo;
- ainda é possível vencê-la.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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