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Amigos de Eloá afirmam que Lindemberg ameaçava jovem de morte durante o cárcere

Débora Melo

Do UOL, em Santo André (SP)

13/02/2012 17h48Atualizada em 13/02/2012 19h40

Os amigos de Eloá Pimentel que também foram feitos refém em 2008 pelo ex-namorado dela Lindemberg Alves prestaram depoimento durante o julgamento do caso nesta segunda-feira (13) e confirmaram que o réu ameaçava a jovem o tempo todo. Eloá foi morta ao fim de um cárcere de cerca de cem horas, em Santo André (Grande SP).

"Ele dizia que ia fazer uma besteira", disse Victor Lopes de Campos respondendo às perguntas da promotora Daniela Hashimoto. Já Iago Oliveira afirma que: "Ele ameaçava a Eloá a toda hora, e dizia que ela não ia sair viva de lá: ou ele ia matar todo mundo e se matar, ou matar a Eloá e se matar". Segundo ele, Eloá pediu desculpas aos amigos diversas vezes pela situação.

Ainda de acordo com Iago, Lindemberg perguntava "como ia ficar a cara dele lá fora já que ele entrou com um objetivo" e não poderia sair como se nada tivesse acontecido.

O amigo da vítima relatou que ainda sofre traumas por causa do cárcere. "Não consigo ficar em ambiente fechado e abafado, de onde eu não possa sair a hora que eu quiser", disse. "Fiz tratamento psicológico para me curar do trauma."

O julgamento começou hoje no Fórum de Santo André, no ABC Paulista, e pode durar entre três e quatro dias. Antes de Victor e Iago, quem falou foi Nayara Rodrigues, também feita refém, que confirmou a informação de ameaças à Eloá. Durante o cárcere privado, Nayara chegou a ser libertada, mas acabou retornando ao cativeiro. O réu foi retirado da sala a pedido da testemunha, mas retornou ao local durante o depoimento de Victor.

"Lindemberg agrediu várias vezes a Eloá enquanto nos mantinha reféns", disse Nayara. Para a jovem, o acusado queria se livrar dela para ficar sozinho com Eloá. “Quando eu voltei ao apartamento, ela estava bastante machucada. (...) Eloá dizia o tempo todo que sabia que ia morrer”, declarou Nayara, que foi ferida por um tiro no rosto quando a polícia invadiu o local.

A jovem afirmou que ouviu três disparos antes da entrada da polícia no apartamento --o que comprova a tese da acusação, de que os tiros partiram do réu e não da polícia.

A amiga de Eloá também falou sobre o comportamento do ex-namorado da vítima. “Lindemberg passou a perseguir a Eloá depois que eles terminaram o namoro”, completou. Já sobre o comportamento do réu durante o cárcere, ela afirmou que Lindemberg dava risada e se vangloriava pela repercussão do caso na mídia. "Na televisão só passava isso [relatos do caso]", disse Nayara.

Durante este primeiro depoimento, o réu foi tirado da sala a pedido das testemunhas. Nayara terminou de falar por volta das 17h.

O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano, que participou da ação de resgate), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena pode ser superior a cem anos de prisão --Lindemberg está preso desde 2008.

O julgamento

O julgamento começou nesta segunda-feira, com o sorteio dos jurados --de um grupo de 25 pessoas, sete foram sorteadas para compor o júri: seis homens e uma mulher.

Depois da escolha dos jurados, serão chamadas as testemunhas convocadas pelo Ministério Público e, na sequência, as testemunhas da defesa. Após os depoimentos, o réu, então, será interrogado –Lindemberg, que até agora se recusou a falar, poderá permanecer calado. Após essa etapa, os debates são abertos, com uma hora e meia para a acusação e uma hora e meia para a defesa (além da réplica e da tréplica). 

No começo do primeiro dia de julgamento foram exibidas reportagens de diversas emissoras de televisão, incluindo uma entrevista com o réu e trechos das negociações com a polícia.

Durante esse período inicial, Lindemberg manteve o olhar sempre fixo para frente –onde ficam os jurados, que assistiam aos vídeos– e as mãos juntas entre as pernas, sem esboçar nenhuma reação. Lindemberg chegou ao fórum por volta das 8h15. “Ele está calmo, mas ao mesmo tempo nervoso”, disse a advogada do réu, Ana Lúcia Assad. “Espero que os jurados venham desarmados, prontos para receber a versão do menino. Ele é um bom rapaz.”

De acordo com a advogada, o acusado vai falar pela primeira vez sobre o caso. "Dessa vez ele vai falar, Lindemberg vai expor a versão dele dos fatos", comentou. A linha da defesa é que a imprensa –que realizou entrevistas com o réu durante o período do cárcere– e a polícia também contribuíram para a tragédia.

Já a promotora Daniela Hashimoto irá sustentar que Lindemberg é um jovem agressivo e possessivo, e que premeditou o assassinato de Eloá. Para a promotora, Lindemberg só não cometeu o crime assim que chegou à casa porque queria explicações dela sobre o motivo do fim do relacionamento.

No começo do julgamento, a juíza Milena Dias aceitou um pedido da defesa e autorizou a inclusão da mãe e do irmão mais novo da jovem como testemunhas. A promotora Daniela Hashimoto se manifestou contrária ao pedido Assad chegou a ameaçar deixar o plenário caso a mãe de Eloá não fosse relacionada como testemunha.

Com as alterações, Ana Cristina Pimentel, mãe de Eloá, será ouvida no lugar do perito Nelson Gonçalves. O irmão mais novo da vítima, Everton Douglas, que também era amigo de Lindemberg, será ouvido no lugar da jornalista Ana Paula Neves. Os jornalistas Sonia Abrão, Roberto Cabrini e Gotino, e o perito Ricardo Molina –todos chamados a depor– foram dispensados.

Ao todo, serão ouvidas 15 testemunhas. As testemunhas de acusação convocadas pelo Ministério Público são Nayara Rodrigues, Vitor Lopes de Campos e Iago Vilela de Oliveira –amigos de Eloá que estavam no apartamento dela quando Lindemberg o invadiu–, Ronickson Pimentel, irmão mais velho da vítima, e o sargento Atos Valeriano, que participou da negociação para libertação das reféns.

As testemunhas da defesa são: a mãe e o irmão mais novo de Eloá, Marcos Antonio Cabello (advogado que participou das negociações), Rodrigo Hidalgo, Márcio Campos, Dairse Aparecida Pereira Lopes, Hélio Rodrigues Ramacciotti, Sergio Luditza, Adriano Giovanini e Paulo Sergio Squiavo.

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.

Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.

Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.

Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.

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