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Cotidiano

Prevenir a violência contra povos indígenas "é impossível", diz ministro da Justiça sobre campanha de ONG

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

24/04/2012 15h50

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, atribuiu à “imensidão do território brasileiro” a dificuldade de se combater a violência e as situações de risco contra povos indígenas em conflito com fazendeiros ou madeireiros no país e disse que “é impossível” para o governo prevenir esses casos.

As afirmações de Cardozo foram feitas nesta terça-feira (24), em São Paulo, ao ser indagado sobre uma campanha internacional que será lançada amanhã pela ONG Survival International contra as ameaças relatadas à entidade pela tribo amazônica Awá. O ministro foi o convidado de honra de uma feira internacional de segurança privada.

O objetivo da campanha é atrair a atenção do Brasil de outros países às ameaças que os Awás --que vivem na região entre Pará, Tocantins e Maranhão e têm pouco contato com culturas externas --vêm sofrendo nos últimos tempos pela ação de pistoleiros, madeireiros e fazendeiros. A iniciativa será apresentada pelo ator britânico Colin Firth em um vídeo, no qual ele pedirá ao governo brasileiro para que tome medidas para proteger a tribo.

Para o ministro, o conflito com os Awás não é o único. “Infelizmente temos muita violência em relação aos povos indígenas, e numa tal dimensão que é impossível, a qualquer governo, poder prevenir situações da forma como elas se colocam”, disse.

“Temos muitos conflitos, mas temos a operação Defesa da Vida [que combate a violência no campo], com Polícias Federal, Rodoviária Federal e Força Nacional, em apoio a vários Estados do Norte do Brasil, só que o território brasileiro é imenso”, continuou.

Sobre a campanha da ONG, Cardozo sugeriu que ela seja “mais de conscientização, mais de mobilização da sociedade”, já que, segundo ele, “o governo já está mobilizado e consciente dos problemas e fazendo aquilo que é possível”. Nas duas tentativas feitas pela reportagem, contudo, o ministro não especificou quais ações pontuais estariam sendo implementadas em defesa dos Awás.

“Não é só o caso dos Awás, mas também de índios no Mato Grosso; temos o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul... É o Brasil inteiro que tem situações de conflito de terra. E quando se tem um processo de demarcação de terra indígena, as pessoas reagem de forma errada, violenta, só que temos feito o possível para combater isso”, concluiu.

Denúncias

De acordo com a Survival International, foram os próprios Awá que pediram para a ONG ajudar a divulgar a sua situação e pressionar as autoridades a agir de forma rápida.

Em um relato à organização, Pire’i Ma’a, integrante da tribo, afirmou que os fazendeiros “estão derrubando madeira e vão destruir tudo. Macacos, antas, os animais estão todos fugindo e não sei como vamos comer”. Os Awá são nômades e vivem da caça de animais. “Esta terra é minha, é nossa. Eles podem voltar para a cidade, mas nós vivemos na floresta. Eles vão matar tudo e nós vamos ficar com fome, assim como nossas crianças”, contou.

Em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal decidiu investigar a denúncia de que uma criança indígena Awá foi queimada viva por um madeireiro no interior do Maranhão. A Fundação Nacional do Índio declarou à época que se tratava de um “boato”.

Procurada desde ontem (23) pelo UOL, a Funai ainda não se pronunciou a respeito da campanha e das denúncias envolvendo os índios Awá.

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