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Cotidiano

Após ataques do PCC em 2006, coronel Ubiratan abria porta de casa com arma em punho, aponta depoimento

Débora Melo

Do UOL, em São Paulo

06/11/2012 16h45Atualizada em 07/11/2012 00h26

O segundo dia do julgamento da advogada Carla Cepollina, 46, acusada de matar seu namorado à época, o coronel da reserva da PM (Polícia Militar) Ubiratan Guimarães, em 2006, começou com a leitura de depoimentos dados em outras fases do processo por testemunhas que faltaram ao júri.

A empregada doméstica de Ubiratan na época do crime, Ana Cristina de Jesus Bonfim, disse, em três depoimentos que deu --dois à polícia e um em juízo--, que tinha a chave do apartamento do coronel, mas, após a série de ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, em maio de 2006, Ubiratan passou a abrir a porta de sua casa pessoalmente, sempre com a arma em punho.

“Antes eu tinha a chave e entrava direto. Quando começaram os ataques do PCC, aquelas coisas, ele que destrancava o trinco, com a arma na mão”, disse em um dos depoimentos lidos nesta terça-feira (6) no segundo dia do júri, no Fórum da Barra Funda (zona oeste da capital).

Após a leitura das peças, por volta das 17h, foi iniciado o interrogatório de Cepollina. A sessão terminou às 22h30, e o julgamento será retomado nesta quarta-feira (7), às 10h, com os debates entre defesa e acusação. Depois, os jurados deverão se reunir para decidir se a ré é culpada ou inocente, e a sentença do juiz deve sair ainda nesta quarta.

Cepollina encerrou seu depoimento reafirmando que não matou o coronel Ubiratan e que não há provas contra ela. "Todo crime deixa um rastro. A acusação não tem nenhuma prova científica contra mim. Eles têm uma história de quinta categoria, que não conseguem provar, apesar dos laudos adulterados e da sacanagem que fizeram comigo."

PCC

Ubiratan foi morto no dia 9 de setembro de 2006 com um tiro no abdome, em seu apartamento, nos Jardins (zona oeste da capital). O coronel ficou conhecido como o comandante da operação de invasão do Carandiru que, em 1992, resultou na morte de 111 presos e ficou conhecida como “Massacre do Carandiru”.

O Ministério Público, porém, descarta a hipótese de que o assassinato tenha sido encomendado pelo crime organizado.

Para a promotoria, Cepollina matou por ciúmes. Ela é acusada de homicídio duplamente qualificado --motivo fútil e com recurso que impossibilitou a defesa da vítima-- e pode pegar de 18 a 20 anos de prisão. O promotor do caso, João Carlos Calsavara, afirmou que a “pena justa” seria de 12 a 20 anos.

Afirmar que a morte do coronel teria sido encomendada por vingança pelo PCC é uma das estratégias da defesa da ré.

Para o delegado Marco Antonio Olivato, que estava à frente do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) quando o crime ocorreu e conduziu as investigações, o fato de o crime ter sido cometido com a arma do próprio Ubiratan --que nunca foi encontrada--, com um tiro no abdome, já é suficiente para descartar a hipótese.

“Aquele não foi um tiro de execução. Tiro de execução é na nuca. E a pessoa que vai cometer um crime desse não vai na sorte de pegar a arma da vítima”, disse Olivato em seu depoimento ontem (5) diante do júri.

Outros depoimentos

Também foram lidos os depoimentos dados, durante a investigação, pela delegada da Polícia Federal Renata Madi, apontada pelo Ministério Público como amante de Ubiratan, e por um dos filhos do coronel, Fabricio Rejtman Guimarães, que tinham sido convocados pela acusação. Da parte da defesa, além do depoimento da empregada doméstica Ana Cristina Bonfim, foi lido o depoimento de Desiree Teixeira Freschet, amiga de Carla Cepollina.

O filho do coronel disse em um dos depoimentos que deu à época que estranhou o fato de Cepollina não ter ido ao apartamento do pai no dia 10 de setembro de 2006, dia em que o corpo foi encontrado por assessores do coronel, que era deputado estadual.

Fabricio afirma que, embora Cepollina e o pai já não namorassem desde março daquele ano --ao contrário do que diz a ré--, eles continuavam amigos: ela trabalhava na campanha do coronel pela reeleição e ainda era a responsável pela organização do apartamento da vítima.

As informações foram confirmadas no depoimento da empregada Ana Cristina, que disse que Cepollina administrava as compras da casa e a saúde de Ubiratan (controle de remédios etc.) e que era comum o coronel ligar para a ré quando não encontrava qualquer coisa no apartamento.

No depoimento que Renata Madi deu à época, a delegada não confirmou que já estivesse namorando Ubiratan, mas se disse apaixonada pelo coronel. Ela afirmou ainda que seu relacionamento sexual com Ubiratan era “superficial, por motivos de saúde”.

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