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Macarrão aponta Bruno como mandante do sumiço de Eliza; júri será retomado nesta tarde

Carlos Eduardo Cherem, Guilherme Balza e Rayder Bragon

Do UOL, em Contagem (MG)

22/11/2012 02h17Atualizada em 22/11/2012 19h42

O réu Luiz Henrique Romão, o Macarrão, responsabilizou o goleiro Bruno Souza pelo desaparecimento de Eliza Samudio em depoimento na madrugada desta quinta-feira (22) no Tribunal do Júri de Contagem (região metropolitana de Belo Horizonte). O acusado foi interrogado por mais de cinco horas. O júri será retomado nesta tarde, com o interrogatório da ré Fernanda de Castro, ex-amante de Bruno.

Segundo Macarrão, em 10 de junho de 2010, Bruno pediu para que ele levasse a vítima do sítio em Esmeraldas (MG) para um ponto em frente à Toca da Raposa, centro de treinamento do Cruzeiro na Pampulha, em Belo Horizonte. Lá, uma pessoa estaria esperando por Eliza para matá-la.

O caso Bruno em fotos
O caso Bruno em fotos
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O réu afirmou sentir um "clima estranho" quando Bruno lhe pediu para que levasse Eliza, em sua Ecosport. “Eu disse ‘cara, me conta que o tá acontecendo’”, relata Macarrão. “”Qualquer coisa que acontecer todo mundo vai me culpar”, teria afirmado ao amigo.

Segundo Macarrão, Bruno respondeu, batendo no peito. “Larga de ser bundão, é comigo. Aqui é o Bruno." O acusado diz que tentou argumentar, mas Bruno não o ouviu. “Eu disse: ‘não nasci para isso, não’”. Na sequência, ele teria aceitado levar Eliza por ser subordinado a Bruno.

“Tô indo sim, como seu funcionário, mas quero que você saiba que você está acabando com a sua carreira”, relatou Macarrão.

Questionado pela juíza Marixa Fabiane se "pressentia" que Bruno estava pedindo para levar Eliza com o objetivo de matá-la, Macarrão respondeu que sim.

Macarrão foi acompanhado por Jorge Rosa, primo de Bruno, menor de 18 anos, à época dos fatos. Ele disse que, ao chegar no local combinado, Eliza saiu do carro voluntariamente. De um Pálio preto, que os esperava no local, saiu uma pessoa, que teria conduzido Eliza.

O réu afirma que não viu o que aconteceu depois, pois saiu do lugar rápido, por estar assustado, com medo.

Indagado por Marixa sobre como convenceu Eliza a entrar no carro e sair voluntariamente, ele disse que foi Bruno quem tratou disso com ela, prometendo que Macarrão iria levá-la até um apartamento que o goleiro havia comprado para ela.

Segundo o interrogado, depois de deixar Eliza, eles voltaram para o sítio, onde chegaram por volta de 22h. Lá, diz ele, todos estavam tranquilos, exceto ele, que estava apavorado.

VEJA O QUE É APRESENTADO NO JULGAMENTO DOS ACUSADOS

RÉUACUSAÇÃOO QUE DIZ O MPO QUE DIZ A DEFESA
BRUNO *Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado, homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáverMentor e mandante da morte de Eliza, ameaçou-a de morte durante a gravidez. O goleiro determinou que Eliza fosse sequestrada e levada a sua casa, no Rio de Janeiro. Acompanhou o deslocamento de Eliza, já sequestrada e ferida na cabeça após receber coronhadas, para MinasNega a existência do crime. Eliza não foi morta porque não há corpo. Anteriormente, havia reconhecido a morte de Eliza, mas sem a participação, concordância ou o conhecimento do goleiro. A atribuição do crime havia sido dada a Macarrão, insinuando que o ex-braço direito nutria um “amor homossexual” pelo jogador
MACARRÃOResponde pelos crimes de sequestro e cárcere privado, homicídio triplamente qualificado, e ocultação de cadáverTambém ameaçou Eliza durante a gravidez e foi o responsável pelo sequestro da moça no Rio de Janeiro. Foi o motorista do carro, com Eliza e o filho, na viagem para Minas Gerais. Dirigiu o veículo que transportou a moça até a casa de Bola. Amarrou as mãos de Eliza e desferiu chutes nas pernas da moçaNão existem provas materiais do crime de homicídio. Ele declarou que, Para evitar “especulações”, não adianta detalhes da estratégia de defesa a ser adotada
BOLA*Responde pelos crimes de homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáverExecutor de Eliza, estrangulou a jovem dentro de casa, em Vespasiano. Esquartejou o corpo da mulher e atirou uma das mãos a cães rottweiler. Foi incumbido de desaparecer com o corpoNega as acusações e afirma que apresentará “prova cabal” aos jurados, durante o julgamento, da inocência de Bola
DAYANNE *Responde pelos crimes de sequestro e cárcere privado da criançaParticipou da “vigilância” feita sobre Eliza e o filho no sítio do goleiro em Esmeraldas, apontado pela polícia como o cativeiro de Eliza antes de sua morte. Sabia do plano para matar a ex-amante do jogador. Tentou desaparecer com o filho de Eliza, localizado posteriormente pela polícia em Ribeirão das NevesNega que Dayanne soubesse do plano para matar Eliza, ela apenas cuidou da criança depois de um pedido do ex-marido. Sobrevivência do filho de Eliza se deu graças a Dayanne
FERNANDAResponde pelos crimes de sequestro e cárcere privado de Eliza e do filho delaOutra ex-amante de Bruno, auxiliou Macarrão a manter Eliza dentro da casa do goleiro no Rio antes da viagem para Minas. Cuidou do filho de Eliza nesse período e acompanhou Bruno e Macarrão na ida para Minas. Sabia da intenção do grupo de matar ElizaÉ inocente, não sabia de nenhum plano para matar Eliza. Não presenciou um cenário que remetesse ao crime atribuído a ela. A viagem a Minas Gerais com o goleiro havia sido programada um mês antes do crime. Não notou ferimentos em Eliza
  • * Os advogados de Bola abandonaram o julgamento. Como Bola recusou a indicação de um defensor público, ele deverá ser julgado em outro momento. Bruno também adotou a mesma tática e conseguiu adiar o seu julgamento e de sua ex-mulher Dayanne

Fim de amizade com Bruno

“Se tem alguém que acabou com a minha vida, foi ele”, disse Macarrão, chorando muito, referindo-se a Bruno.

“Sei que vou tomar nome de ‘X-9’ (apelido dado a delatores), que vou ser um arquivo vivo, mas minha família tá sofrendo, minha filha tá crescendo, tenho medo de perder tudo o que hoje faz parte da minha vida, que é minha família”, disse.

“Acabou isso tudo. Ninguém vai mais me colocar como um monstro. Eu pedi de coração para ele, conversei como irmão, como homem, para ele não fazer isso, para ele deixar isso pra lá. Todo mundo acha que fui eu, que eu sou um monstro. Sou um cara tranquilo, que trabalhava no Ceasa, como carregador de carinho, e que terminou como conferente. Nunca machuquei ninguém, não sou monstro, não sou traficante”, disse Macarrão, chorando.

Em seguida, perguntado pela magistrada, ele disse temer pela sua vida e de sua família.

O réu ainda pediu desculpas a Wemerson Marques Souza, amigo dele e de Bruno, Elenílson Vítor da Silva, ex-caseiro do sítio do goleiro, Fernanda Castro, ex-amante do atleta, além de Sônia Fátima de Abreu, mãe de Eliza.

“Se a mãe de Eliza ainda estiver aqui [no plenário], quero deixar claro que se eu soubesse onde o corpo dela tá, seria a primeira pessoa a assumir”, disse --ela já tinha ido embora quando ele fez a declaração.

Promotor e advogados perguntam

Questionado pelo promotor Henry Castro, o réu negou que seja homossexual, o que chegou a ser especulado na mídia, e que, mesmo assim, não entregou Bruno. "Eu sempre segurei a onda, apesar de ter sido chamado de homossexual", disse Macarrão.

Macarrão afirma que processa por danos morais o ex-advogado de Bruno Rui Pimenta, que teria afirmado ser o réu homossexual, o que lhe prejudicou no relacionamento com outros detentos do presídio Nelson Hungria. O réu disse ainda que a amizade com Bruno "acabou aqui hoje".

O promotor questionou Macarrão sobre ligações trocadas entre ele e o ex-policial Bola, no dia da suposta morte de Eliza Samudio (10 de junho de 2010). O réu afirma que não manteve contato visual com Bola, apenas conversou com ele, por telefone, sobre a possibilidade de o filho do ex-policial fazer um teste em time de futebol.

Ao longo do interrogatório, o promotor também indagou Macarrão em vários momentos sobre as ligações e torpedos que recebeu de Dayanne ce Souza, ex-mulher de Bruno, e outras pessoas envolvidas no desparecimento de Eliza depois que as investigações começaram.

O promotor também perguntou a Macarrão sobre uma carta revelada pela revista "Veja", em julho deste ano, sobre suposto pedido de Bruno para que ele assumisse a morte de Eliza Samudio. No texto, o pedido foi intitulado de "plano b". Macarrão disse que, apesar de não ter recebido a carta, supôs que se tratava de pedido do goleiro para ele assumir o crime. "Eu não li a carta, mas acredito que seja isso", disse.

Macarrão afirmou que tem medo de Bruno, depois de pergunta do assistente de acusação José Arteiro, mas negou temer Bola.

Réu nega sequestro de Eliza

Macarrão também negou que tenha sequestrado Eliza. Segundo ele, Eliza estava hospedada no Hotel Transamérica, na zona oeste do Rio de Janeiro, porque tinha ido à cidade a pedido de Bruno, para que ele pudesse conhecer o filho Bruninho.

De acordo com o réu, Eliza estava irritada e fez várias ligações para o seu celular no mesmo dia. Ele, então, foi até o hotel para acalmá-la. Macarrão disse que estava acompanhado de Jorge Rosa -- na época, menor, e que confessou à polícia a morte de Eliza.

Ainda de acordo com Macarrão, os dois deixaram o hotel e foram até um restaurante chamado Rosas, que fica próximo ao hotel, para jantar. Lá, encontraram Eliza, que voltou a cobrá-los sobre o dinheiro da pensão, de acordo com o depoente.

Macarrão disse que foi com Eliza até um caixa eletrônico do Bradesco para demonstrar a ela que não havia como sacar R$ 1.500 que ela exigia naquele momento, segundo ele. O réu disse que, na ocasião, conseguiu sacar R$ 800, o que deixou Eliza insatisfeita.

Os três, diz o acusado, entraram na Land Rover de Bruno para levar Eliza de volta ao hotel, mas ela se recusou a voltar para o estabelecimento. “Hora nenhuma eu peguei ela e sequestrei. Ela não queria ir para lá [para o hotel].”

Briga com o menor

No caminho, ela continuou reclamando da falta de dinheiro, o que irritou o menor. Ele, segundo Macarrão, deu uma cotovelada no nariz de Eliza, que provocou o sangramento que manchou o banco do carro.

“Jorge deu uma cotovelada, ele estava no banco do carona”, disse. “Eu disse a ele: ‘viu o que você fez? Essa mulher vai acabar com a vida do Bruno, cara. Amanhã ela tá na imprensa.”

Segundo a acusação, o sangue encontrado pela perícia no carro era fruto de uma coronhada que o menor efetuou na cabeça de Eliza. “Quero deixar bem claro que eu nunca andei armado. Nunca houve essa fantasia de arma.”

Macarrão disse ter comprado um remédio para Eliza e a levado para a casa de Bruno no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. "Mas sem ter sequestrado ela", disse. Em seguida, ele diz ter ligado para Fernanda Castro, ré no mesmo processo, por medo de que o primo do goleiro ficasse sozinho com Eliza na casa.

"Em hora nenhuma eu coloquei a Fernanda para vigiar a Eliza ou tomar conta da criança", disse Macarrão, para complementar: "Meu medo era que o Jorge [primo do goleiro] fizesse algo contra ela [Eliza]".

Viagem para Minas

Macarrão disse ter convidado Fernanda Castro para ir a Minas Gerais para conhecer os jogadores do time 100%, que era bancado por Bruno, em Ribeirão das Neves (MG). Enquanto Macarrão dirigia a Land Rover, Bruno foi em outro veículo. "Nós sempre viajamos com dois carros", disse.

Antes de partir, o reú afirmou ter ouvido do goleiro Bruno que Eliza teria pedido a ele R$ 50 mil. "Ela não confiava na gente, por isso quis viajar com a gente para pegar o dinheiro", afirmou.

Macarrão afirmou que havia R$ 30 mil no sítio de Bruno em Esmeraldas (MG), dinheiro que seria usado para bancar uma viagem do time 100%. “O Bruno se dispôs a dar esse dinheiro para ela.”

No trajeto do Rio de Janeiro a Minas Gerais, diz Macarrão, eles chegaram a dar carona a um policial e Eliza comprou um energético em um posto. “Como uma pessoa sequestrada faz isso?”

Noite no motel

O depoente disse ter pernoitado em um motel onde ele e Jorge (primo do goleiro) sempre normiam, localizado em Contagem (MG). Lá, Bruno teria dito que iria para a casa da avó, em Ribeirão das Neves (MG). Eliza e o bebê teriam dormido em um cômodo no andar de baixo do quarto do motel. "Eu vim em poucas horas do Rio de Janeiro. Nós tomamos umas cinco multas", disse.

Macarrão disse ter sido acordado, no outro dia, por Eliza dizendo que Bruno queria falar com ele, no celular. "O Bruno queria um quarto no hotel. eu liguei para a recepção e pedi o quarto 25", afirmou, não explicando a razão de Bruno ter voltado ao local após afirmar que iria para a casa da avó.

Luiz Henrique Romão disse ter notado a presença de Sérgio Rosa Salles, outro primo de Bruno, no motel. Ele teria ido ao local no carro de Bruno.

Para o acusado, "por controlar" o dinheiro do goleiro, tinha contra si a ira de Salles e de Jorge, dois primos do ex-goleiro. "Eles me chamavam de puxa-saco, ladrão. Eu não andava com o Sérgio, não andava com o Jorge."
Sítio em Esmeraldas (MG)

Macarrão disse ter levado Eliza para ver um jogo do time 100% no sítio em Esmeraldas (SP) porque queria que os amigos conhecessem seu filho. "Bruno apresentou o Bruninho [filho dele com Eliza] para todo mundo ver. Eu deixei a chave do carro com ela", afirmou.

Depois, o réu disse ter se dirigido a um bar na cidade de Ribeirão das Neves para uma confraternização dos jogadores do time 100%. Na sequencia, diz ter ligado para quatro mulheres, com "quem estava acostumado a ficar" para irem ao sítio de Bruno.

As mulheres dormiram no sítio, onde Fernanda Castro teria passado a noite com o jogador. Já Eliza ocupou um quarto contíguo à churrasqueira, descreveu Macarrão, que teria dormido com uma das garotas, segundo o próprio.

O ex-braço direito de Bruno afirmou ter voltado, no domingo, dia 6 de junho, ao Rio de Janeiro para, devolver um dos carros emprestados ao jogador para a viagem a Minas Gerais e para preparar a festa para o time do 100%, que iria para a cidade para participar de um jogo e um churrasco após a partida.

No dia seguinte, Macarrão afirma ter voltado ao sítio de Bruno, onde ficou até quinta-feira, 10 de junho, quando Bruno lhe pediu para levar Eliza até a Toca da Raposa.

Veja como foi cada dia do julgamento

1º diaMarcos Aparecido dos Santos, o Bola, fica sem advogado depois que Ércio Quaresma se recusa a fazer sua defesa preliminar no tempo estabelecido pela juíza. Bola, então, rejeita um defensor público. Com isso, ele tem seu julgamento adiado para data ainda a ser definida
 A juíza dispensa sete jurados que participaram de outro júri de Bola e o absolveram da morte de um carcereiro
 Fernando Diniz, advogado do Luiz Henrique Romão, o Macarrão, também ameaçou abandonar a defesa, mas voltou atrás
 Também nesta segunda-feira foram definidos os sete jurados que decidirão o futuro dos réus. O corpo de jurados ficou definido com seis mulheres e um homem
2º dia O segundo dia do júri do caso Eliza Samudio foi marcado pela substituição de um dos advogados do goleiro Bruno Fernandes e terminou com um momento de intimidade entre o ex-jogador e sua atual namorada Ingrid Oliveira.
  Bruno dispensou o advogado Rui Pimenta, que disse estar surpreso.
 A sessão de hoje foi marcada também pelo choro de Dayanne de Souza, ex-mulher do jogador, e Fernanda de Castro, ex-amante do goleiro, ambas acusadas de participação no desaparecimento de Eliza Samudio.
 Por um pedido da Promotoria, a juíza Marixa Fabiane decidiu desmembrar o julgamento de Dayanne, de modo que o advogado Francisco Simim passasse a defender apenas Bruno neste júri. Com isso, ela será julgada em outra data.
  A juíza Marixa Fabiane aplicou uma multa de R$ 18,7 mil para os três advogados de Bola, que abandonaram o júri.
3º dia Em outro dia tumultuado, o ex-goleiro Bruno conseguiu ter seu julgamento desmembrado. Ele será julgado em 4 de março de 2013.
  Macarrão depõe e incriminou Bruno. Ele disse que o ex-goleiro pediu para ele levar Eliza para um local perto da Toca da Raposa. Lá, ela desceu do carro que ele dirigia e foi colocada em um Pálio preto. Ele, no entanto, não disse textualmente que Eliza está morta.
4º dia No quarto dia do julgamento, só Fernanda Castro, ex-amante de Bruno, prestou depoimento. Ela disse que só soube da morte de Eliza por causa do depoimento de Macarrão, dado na quinta-feira (22), na madrugada.

 

Cotidiano