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"Temos cérebro, além de peito", diz primeira brasileira no Femen no Dia da Mulher

Sara Winter, líder do Femen Brasil - Fernando Lessa/Divulgação
Sara Winter, líder do Femen Brasil Imagem: Fernando Lessa/Divulgação

Lígia Hipólito

Do BOL, em São Paulo

08/03/2013 12h07

Em entrevista exclusiva ao BOL, Sara Winter, 20, líder do Femen Brasil, movimento feminista que há quase um ano chama atenção do país com protestos de topless, conta que já foi prostituta na adolescência, fala sobre as dificuldades do ativismo com nudez  e ressalta a importância do Dia Internacional da Mulher (8 de Março): “É uma grande conquista para o movimento feminista. Comemoramos com muita alegria, como o nosso feriado”.

Com 15 mulheres no ativismo, o Femen Brasil, explica Sara, tem uma atuação que vai além das aparições com os seios de fora: “As militantes precisam dedicar sete horas semanais a trabalhos como criação de conteúdo para o site e redes sociais. É uma forma de mostrar que elas têm cérebro, além de peito”.  

As famosas manifestações de topless confrontam o turismo sexual, a exploração sexual de adultos e crianças, a homofobia e a violência doméstica; essa última bandeira Sara levanta com uma motivação pessoal. A jovem conta que sofreu calada às agressões de um namorado quando tinha 18 anos.

“Não reagi nem denunciei porque não sabia o que fazer, foram duas vezes. Hoje, várias meninas mandam mensagens para o Femen contando alguns acontecimentos do tipo. Nós temos advogados que trabalham conosco como voluntários, prestamos assistência jurídica para orientar sobre o que deve ser feito, e também prestamos uma assistência psicológica para ensinar sobre o feminismo – para a mulher não se vitimizar. O mais importante nesse tipo de situação é fazer o B.O., exame de corpo de delito, denunciar, procurar um advogado, procurar grupos de apoio.”

Aos 19, Sara resolveu se articular para criar uma célula do Femen no Brasil: “Fiquei sabendo que o movimento existia na Ucrânia desde 2008, e pensei:  'Se tem lá, podemos fazer aqui também'. Era minha forma de levar esclarecimento até a população mais simples. Se o feminismo tivesse chegado até a mim antes, eu nunca teria passado por uma situação de violência”.

Os primeiros contatos com as ativistas ucranianas foram feitos pelo Facebook. Após conversas por chat e telefone, Sara foi convidada para participar da Eurocopa (em 2012) para protestar contra a rede de prostituição que se formava em torno do evento esportivo. “Nossa preocupação surgiu porque em volta dos estádios havia vários bordéis, que o próprio governo havia criado para receber os turistas sexuais.”  Orientada pela veterana Alexandra Shevchenko, a jovem mostrou os seios para o mundo pela primeira vez. “Estava me tornando uma célula do Femen”, conta.

Por que o topless?

Apesar da militância populista, Sara deixa claro que o Femen não tem políticas pré-definidas. Os seios à mostra, símbolo do movimento, servem como arma de combate.

“Nossa ideologia é o sextremismo, uma forma de oposição ao machismo. E a nudez é usada pela sociedade patriarcal desde sempre, a mulher nua ou não vende todo tipo de produto. Já que somos mulheres, ao invés de vender produtos, vendemos ideias sociais. Como todo mundo gosta de olhar o corpo de uma mulher, usamos o nosso corpo para passar uma mensagem escrita no peito, um protesto”, explica.

Prostituição

Antes mesmo de completar maioridade, Sara entrou para o mundo da prostituição. Hoje, ela relata a experiência e luta para combater esse tipo de trabalho por acreditar que não se trata de uma escolha.

“Eu tinha 17 anos e me prostituí por dinheiro para pagar a faculdade (Sara cursava Relações Internacionais) – foram 10 meses. Acho que eu tenho facilidade para abordar esse assunto por ter tido experiência de causa. O Femen, internacionalmente, entende que a prostituição não é uma escolha. A prostituição é um trabalho temporário, ninguém nasce e fala: 'Quero ser prostituta quando crescer'. Por isso, acreditamos que a prostituição não pode jamais ser considerada uma escolha, ela é uma consequência de um sistema extremamente falido. E eu fui vítima desse sistema”, lembra.

O machismo no funk carioca

Sara Winter acredita que o machismo declarado do funk carioca encontra resposta à altura nas letras de Valesca Popozuda. “Ela faz um funk feminista, coloca a mulher num papel de protagonista”, avalia. “Mesmo abordando o sexo de maneira explícita, Valesca se coloca numa posição sexual de vantagem. Portanto, muitas letras são feministas, sim, pois vão de confronto ao funk que subestima a mulher. É uma forma positiva de manifestação porque ela trata a mulher com empoderamento do próprio corpo. O homem não é mais o dominante no sexo. Pela primeira vez, ela insere a mulher nesse contexto. É uma conquista! O que não anula a luta do movimento feminista sobre esse tipo de questão, apenas complementa.”

Simpatia ao facismo

Antes mesmo de ser um embrião do Femen, Sara foi simpatizante de Plínio Salgado (líder da AIB - Ação Integralista Brasileira), que tem uma linha considerada facista, e também se comunicava com outros movimentos neonazistas.

A jovem lembra dessa fase de sua vida e assume que foi um engano ideológico: “Eu me interessava muito por política e  me comunicava via internet com muita gente do Sul do país, que se declarava skinhead. Por isso, acabei ligada a esse tipo de coisa. Mas nunca tive um movimento físico nesse sentido, nem militância, era só simpatizante. Depois, quando eu fiz 17 anos e fui estudar Relações Internacionais, eu entendi que não eram coisas boas. Passei a compreender as linhas políticas: direita e esquerda etc. E fui me desapegando de todas essas ideias. Passei a ler Marx, Voltaire, Russell. Fazia parte das disciplinas de política, sociologia e antropologia na faculdade. Quando comecei a ter contato com essas outras obras, eu percebi que eu preferia as ideias libertárias porque me cativavam mais. Hoje, sou totalmente avessa às ideias com as quais antes eu simpatizava”.

Governo Dilma e aborto

Sara não poupa palavras para avaliar criticamente o governo Dilma. “Acho que ter uma mulher no poder supremo no Brasil é como uma ilusão, porque quando a Dilma tomou posse a primeira coisa que ela fez foi engavetar todos os nossos direitos reprodutivos – não falando e não discutindo sobre aborto, por exemplo. Acredito que ela negligencia totalmente essa questão”.

A ativista ressalta que o Femen é a favor do aborto em todo e qualquer caso: “Eu gostaria muito que o Brasil seguisse o exemplo do Uruguai tornando o aborto uma prática legal para todas as mulheres. Em primeiro lugar, a criança precisa ser desejada. Temos vários problemas de saúde pública por conta da criminalização do aborto, milhares de mulheres morrem. E é uma situação que não vai acabar nunca, então resolveria se as mulheres pudessem fazer isso com segurança e não em clínicas clandestinas de açougueiros e mercenários e, novamente, é algo que é negligenciado no Brasil por conta de questões religiosas”.