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A pedido do MP, polícia irá investigar mais 21 homicídios em UTI em Curitiba

Virginia Helena Soares de Souza, médica chefe da UTI do hospital Evangélico de Curitiba (PR), foi presa no dia 19 de fevereiro - Henry Milléo/Gazeta do Povo/Futura Press
Virginia Helena Soares de Souza, médica chefe da UTI do hospital Evangélico de Curitiba (PR), foi presa no dia 19 de fevereiro Imagem: Henry Milléo/Gazeta do Povo/Futura Press

Rafael Moro Martins

Do UOL, em Curitiba

11/03/2013 18h02

A Polícia do Paraná irá investigar mais 21 mortes de pacientes da UTI (unidade de terapia intensiva) geral do Hospital Evangélico, o segundo maior de Curitiba. Segundo o MPE (Ministério Público Estadual), os procedimentos adotados pela equipe médica “levantam muita suspeita” de que houve “antecipação de óbitos”.

“Em todos, há registro da aplicação de Pavulon [um medicamento que age como bloqueador neuromuscular], sem justificativa médica, seguido de morte. Mediante um pedido de autorização penal de retirada da ação, esses prontuários darão origem a um novo inquérito”, informou o promotor Marco Antonio Teixeira, coordenador do Centro Operacional das Promotorias de Justiça da Saúde Pública do MPE (Ministério Público Estadual).

O MPE ofereceu nesta segunda-feira (11) à Justiça denúncia contra quatro médicos, três enfermeiros e um fisioterapeuta por sete homicídios duplamente qualificados e formação de quadrilha.

Os denunciados são a médica Virginia Helena Soares de Souza, diretora da UTI geral do Evangélico desde 2006 (por sete homicídios), os médicos Anderson de Freitas (dois homicídios), Edison Anselmo da Silva Junior e Maria Israela Cortez Boccato e as enfermeiras Laís da Rosa Groff e Patrícia Cristina de Gouveia Ribeiro (um homicídio cada).

Todos eles, além do enfermeiro Claudinei Machado Nunes e da fisioterapeuta Carmencita Emília Minozzo, também deverão responder por formação de quadrilha.

Morte por asfixia

Segundo o MPE, os denunciados "prescreviam medicamentos bloqueadores neuromusculares normalmente empregados em medicina intensiva para otimização de ventilação artificial, conjugados com fármacos anestésicos, sedativos e analgésicos, procedendo-se [a seguir] ao rebaixamento nos parâmetros respiratórios dos pacientes-vítimas então dependentes de ventilação mecânica, fazendo-os morrer por asfixia".

Um médico com experiência em medicina intensiva ouvido pelo UOL, que falou sob a condição de ter identidade mantida em sigilo, explicou que medicamentos como o Pavulon impedem paralisam os músculos responsáveis pela respiração, entre outros. Por isso, são usados em situações em que a respiração voluntária do paciente atrapalhe a ventilação artificial. Porém, sua administração deve ser conjugada com o uso do respirador.

“Nos casos objeto da denúncia, ainda que de modo geral não houvesse indicação terapêutica do Pavulon, ele foi prescrito pelo médico, ministrado por enfermeiros, e em seguida os parâmetros do respirador eram reduzidos de forma que o paciente morresse de asfixia. Em comum, a aplicação [do Pavulon] era registrada no prontuário e pouco depois o paciente morria”, disse a promotora Fernanda Nagl Garcez, da Promotoria de Proteção à Saúde Pública de Curitiba.

 

“Requeremos ao juiz que os 21 prontuários que seguem o modus operandi [que o MP vê existir nos sete casos de homicídio que denunciou] sejam remetidos ao Nucrisa [núcelo da polícia que apura os casos de morte na UTI] para novos inquéritos. Essas e outras mortes por homicídio não estão descartadas. Haverá novas investigações sobre possíveis novas mortes na sindicância [aberta pelas secretarias municipal e estadual da Saúde e pelo SUS (Sistema Único de Saúde)] e em novos inquéritos policiais”, disse Fernanda.

Com novas investigações no horizonte, o MPE não descarta que outros profissionais sejam indiciados por homicídios cometidos na UTI do Evangélico. “Pedimos hoje [segunda] que cópia do inquérito seja remetida à polícia e que a investigação continue. É possível que façamos o aditamento desta ou o oferecimento de novas denúncias”, explicou Teixeira.

Pode ser o caso da médica Krissia Wallbach, que também atuou no Evangélico e foi indiciada por homicídio qualificado no inquérito policial, mas não é denunciada pelo MPE.

O motivo

Apesar das denúncias e da suspeita de novos homicídios, o MPE ainda não sabe ao certo qual a motivação dos possíveis homicídios na UTI do Evangélico. “[Por ora, a] Motivação é pura e simplesmente o que está nos áudios: fazer 'girar' e 'desentulhar' a UTI”, disse Teixeira.

“Não conseguimos chegar a conclusão alguma sobre [uma possível] vantagem financeira [para os médicos envolvidos]. Solicitamos uma sindicância e uma avaliação da Secretaria Municipal da Saúde quanto à forma de pagamento dos médicos. [Pode haver] outras circunstâncias e motivações, mas no momento não temos elementos técnicos para dizer”, afirmou.

“Muito antes da eclosão dessa situação, o MPE já acompanha, em outro procedimento, o dia a dia dos problemas administrativos do Evangélico. [Mas] Não há relação entre um e outro caso, neste momento”, acrescentou. O hospital passa, há alguns anos, por problemas financeiros, e já enfrentou algumas paralisações de funcionários por conta de atrasos nos salários.

“Mas a motivação da denúncia não é só [a provável intenção] de girar, desentulhar a UTI. Há a torpeza [do alegado crime], algo repugnante, que é o fato de se decidir que um paciente iria morrer. É um exercício de onipotência, é brincar de Deus”, disse Teixeira.

Por conta disso, e da ausência de possibilidade de defesa por parte dos pacientes, os homicídios são duplamenta qualificados. A pena, para cada um deles, parte de 12 anos de prisão, afora o crime de formação de quadrilha.

O caso segue para o TJ/PR (Tribunal de Justiça do Paraná), que irá distribuí-lo a uma das duas varas do Tribunal do Júri de Curitiba. A Justiça terá cinco dias para decidir se recebe ou não a denúncia feita pelo MPE.

Também caberá ao Poder Judiciário decidir se trata-se de caso a ser julgado por júri popular.

“No nosso entendimento, e com as provas que existem, são bastante fortes as chances de que a sociedade é que vai julgar essas pessoas”, falou Paulo Sérgio Markowicz de Lima, promotor do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça do Júri.