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Dono de "banheiros do papa" em Guaratiba diz que bairro ficou esquecido

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

27/07/2015 06h00

Entre o bairro de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, que ansiava por receber a visita do papa Francisco em julho de 2013, e a Guaratiba de hoje, não é possível ver muita diferença. De novidade, diz o marmoreiro Rodrigo Silva, apenas um trecho de asfalto que corre em paralelo ao longo terreno baldio preparado por meses para receber a vigília da Jornada Mundial da Juventude e abandonado um dia antes do evento, depois que uma semana de chuvas transformou o que deveria ser um local aterrado em um lamaçal.

À época, assim como no filme uruguaio "O Banheiro do Papa" (2007), que conta a história de um contrabandista que gastou todas as suas economias na construção de um banheiro para receber os peregrinos que passariam pelo pequeno vilarejo de Melo, na fronteira do país com o Brasil, por conta da visita do papa João Paulo 2º, ele gastou cerca de R$ 10 mil para construir 12 toaletes ao lado da sua casa, localizada em frente ao Campus Fidei.

“Onde ele [o papa] passa, ele deixa história. Ia fluir mais dinheiro, o bairro ia ser lembrado”, diz, ao falar de como imaginava o futuro do local. A Jornada prometia levar cerca de 2 milhões de pessoas a Guaratiba, bairro pobre e quase rural localizado a cerca de 60 quilômetros do centro da cidade, e chegou a ser comparada pela prefeitura à organização de duas festas de Ano-Novo e um Natal. “Ia ser um ponto histórico, ficou esquecido”, resume.

Sem papa, conta, se viu obrigado a desfazer os banheiros. Conseguiu vender parte das peças; outras, teve que descartar. Os pedreiros, não teve jeito. Precisou pagar independentemente da vigília e o prejuízo ainda o acompanhou por meses depois do evento. Tampouco terminou a casa, que constrói aos poucos em seu tempo livre, como planejava.

Ele lembra que evitou até ver as notícias sobre a visita do papa à cidade na televisão, mas que ficou chateado mesmo com a postura da prefeitura que, passados dois anos do evento, pouco fez pelo bairro. “Achei descaso. Se a população não tivesse abraçado [a Jornada], não teria o evento. Não tinha infraestrutura.”

Além dele, outros moradores, como a dona do restaurante Hi Deu Certo, Leila Santos de Oliveira, também investiram no evento. Leila, que tinha 3.000 quentinhas encomendadas e se viu obrigada a doar 800 frangos depois que o cancelamento da vigília foi confirmado, faz coro a Rodrigo. “Era um evento mundial. Todo mundo ia ganhar dinheiro, tudo ia melhorar”, diz. “Ficou do mesmo jeito. Aqui só tem lixo, criança e cachorro”.

Cotidiano