Violência no Rio

Um ano sem Eduardo: minha vida é por justiça, diz mãe de menino morto no Alemão

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

Desde o momento em que viu seu filho de dez anos baleado e morto na porta de sua casa, há um ano, na localidade do Areal, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, Terezinha Maria de Jesus, só pensa em ver condenado e preso quem atirou em Eduardo de Jesus Ferreira. "Minha vida é por justiça", afirma a diarista de 41 anos. O menino levou um tiro de fuzil na cabeça no dia 2 de abril de 2015, durante uma operação de policiais militares da UPP do Alemão.

A morte do garoto provocou uma reviravolta na vida da família de Terezinha, que voltou para o Piauí com dois dos quatro filhos –um já vivia no Estado–, netos e genro. Atualmente, ela se divide entre o Rio e a cidade piauiense de Corrente, onde nasceu e de onde havia saído aos 23 anos.

"Infelizmente não posso dizer que estou morando no Rio por questão de segurança. Venho resolver uns problemas aqui e volto. Fico de lá para cá o tempo todo. Minha vida continua na luta, não vou sossegar enquanto não vir o homem que atirou em meu filho condenado", disse a diarista sobre o policial militar Rafael de Freitas Monteiro Rodrigues, apontado como autor do tiro e que vai a júri popular acusado de homicídio por dolo eventual –quando o autor assume o risco de matar– a partir de 4 de julho, dia da primeira audiência marcada.

"Ele deveria estar preso, não sei por que o Ministério Público não pediu a prisão dele. Mas fiquei feliz em saber que o promotor fez a denúncia e o Tribunal de Justiça aceitou. Era o que eu mais queria", desabafa Terezinha sobre a condição do PM, que responde o processo em liberdade.

A reportagem telefonou várias vezes para o advogado do policial acusado, mas ele não atendeu às ligações. A CPP (Coordenadoria de Polícia Pacificadora) informou que ele está afastado do policiamento nas ruas e que trabalha atualmente em serviços internos. De acordo com o resultado do julgamento, ele pode ser expulso da corporação, afirmou a nota. Ele não se envolveu em outra ocorrência desde a morte do menino, informou a CPP.

A mudança para o Piauí foi uma providência que Terezinha tomou para proteger a família. "Por mim não temo, mas tenho medo pelos meus filhos. Agora que estão lá, não tenho medo, porque se eu tiver que morrer, vou morrer, se tiverem que me matar, vão matar, mas não vou me calar", declara a diarista, que conta com a ajuda da Anistia Internacional e não está em nenhum programa de proteção a testemunhas. "Não aceitaria (ser protegida por algum programa) porque teria que me isolar de tudo e não ia querer, porque tenho que lutar por justiça", afirmou.

Paula Bianchi/UOL
Terezinha de Jesus e José Maria, pais do menino Eduardo, no quintal da família, em Corrente, no Piauí

Terezinha diz que se prepara agora para encarar na audiência o acusado de matar seu filho. "Todo dia peço a Deus para me dar muita força e coragem para ficar cara a cara com ele, para que eu não avance sobre ele", afirma. "Sinto ódio, muito rancor. Ele sendo um policial, por que não abordou meu filho e perguntou o que ele tinha na mão. Mas não perguntou, atirou e aí vem dizer que atirou em legítima defesa", desabafa Terezinha sobre a alegação do policial em depoimento. "Meu filho não estava trocando tiro porque não era bandido, era uma criança de dez anos, que estudava e tinha muito carinho pela família."

Mocotó

Por ser o caçula, Eduardo era o filho mais companheiro da mãe, que assim como muitas outras, carrega no celular fotos do menino. Parte da força que demonstra na fala ela diz vir das imagens do menino.

"Ando com as fotos. Tenho na tela do meu telefone, não tiro. Toda vez que vejo a carinha dele, sinto que ele está pertinho de mim. Não consegui me desfazer das coisas dele, do material da escola, das roupas. Está tudo do mesmo jeito", afirma Terezinha, que tem seus momentos de desolação. "Às vezes entro em desespero, choro, mas me acalmo porque Deus é maior, acredito que está comigo."

O garoto era fã da comida que a mãe fazia, conta Terezinha. Nem lasanha nem bife com batatas fritas. O prato favorito do garoto era mocotó. "Fico triste, em casa eu nem estava cozinhando mais porque ele gostava de tudo o que eu fazia. Adorava mocotó, comia de tudo. Só não gostava de jiló", contou. "Agora não faço mais mocotó."

Marcos de Paula/Estadão Conteúdo
Terezinha discute com policiais durante o protesto realizado no Alemão dois dias após o assassinato

Renovação

Os netos dão novo folego à vida de Terezinha. Um deles, Tiago, de dois anos e meio, deve morar com a avó quando ela voltar para o Piauí, e dois novos chegaram neste ano: Ana Carla e Eduardo. "É outro Eduardo de volta, é até parecido com o meu", diz a avó.

O estado civil de Terezinha também mudou. O marido, José Maria Ferreira, agora é ex. Ano passado, ainda durante as investigações da morte do filho, Terezinha foi para a Europa, a convite da Anistia, acompanhada de Ana Paula de Oliveira, mãe Johnatha de Oliveira Lima, 19, morto durante uma ação de policiais da UPP de Manguinhos, em 2014.

Elas contaram em eventos em 12 cidades de quatro países o que aconteceu aos seus filhos. "Fomos à Holanda, Suíça, Inglaterra e Espanha. As pessoas nunca ouviram histórias como as nossas. Eles choravam quando ouviam. Fomos muito bem recebidas. Fomos abraçadas, o que aqui no Brasil teve muito pouco", desabafa Terezinha, que diz não pensar muito no futuro enquanto não ver o acusado da morte de Eduardo condenado. "Infelizmente agora só penso em justiça. No meu futuro acho que vou cuidar um pouco de mim e viver o resto de minha vida com meus filhos e meus netos."

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