Violência no Rio

Letras de funk são espelho de sociedade machista e erotizada, diz MC carioca

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Reprodução/Vincent Rosenblatt

    Em 2014, o fotógrafo francês Vincent Rosenblatt fez a série "Rio Baile Funk! Favela Rap (2005-2014)", na qual retratava a sensualidade das festas

    Em 2014, o fotógrafo francês Vincent Rosenblatt fez a série "Rio Baile Funk! Favela Rap (2005-2014)", na qual retratava a sensualidade das festas

Comum nas favelas cariocas, os "proibidões" são músicas de funk cujas letras fazem apologia ao crime organizado e têm forte apelo sexual, exaltando práticas como estupro e pedofilia. Na semana passada, vídeo divulgado nas redes sociais mostrou uma jovem de 16 anos, nua e desacordada, após ter sido vítima de estupro coletivo. À frente do corpo dela, Raí de Souza, 22, afirma que "mais de 30 engravidou" (sic). Para a Polícia Civil do Rio de Janeiro, a frase é um indício de que adolescente foi abusada por mais de 30 homens. O suspeito, porém, afirma que se tratava tão somente de um funk proibidão.

A reportagem do UOL ouviu o líder da Apafunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk), MC Leonardo, um dos principais personagens do movimento em defesa da cultura do funk carioca. De acordo com ele, relacionar qualquer música com a ocorrência de um estupro coletivo é uma forma de "covardia".

Por outro lado, ele ressalta que muitas letras de funk são, sim, machistas e erotizadas, mas apenas porque refletem uma sociedade que propaga os mesmos valores e o ambiente no qual os jovens das comunidades estão inseridos.

"O funk é machista? É. O funk é homofóbico? É. O funk é sensual e erótico? É. O funk não vem de Marte. O funk nasce dentro dessa sociedade, que é machista, patriarcal, erótica, enfim. O funk não é um espelho da sociedade, e sim o reflexo da sociedade."

Quando as pessoas dizem que o funk é culpado, elas não querem discutir a sociedade. Deveria ser o contrário. Deveriam discutir a sociedade através do funk, pois o funk está cumprindo um papel muito importante.

Leonardo afirma que o funk é um "termômetro" que "está mostrando toda a falta de vocabulário" da juventude e a forma como ela enxerga questões como criminalidade, sexo e o respeito aos direitos das mulheres no interior das comunidades.

"Agora, dizer que o funk faz com que as pessoas cometam crimes, usem drogas, se prostituam ou cometam crimes sexuais é uma grande covardia que se faz. E isso vale para o funk e para qualquer outra cultura."

Problema estaria na proibição

O funkeiro disse ainda que a proibição e a repressão aos bailes funk fez com que essa cultura fosse enraizada nos espaços onde há controle do crime organizado. Com isso, houve uma mudança no perfil das letras, e as músicas que antes pediam paz --como no auge dos bailes da década de 90-- passaram a exaltar formas de violência. Isso inclui a redução da imagem da mulher a objeto sexual.

"Quando o Estado proíbe os bailes, estejam eles na favela ou não, esses bailes vão parar na boca de fumo. Na boca de fumo, essa molecada vai pegar o microfone e vai sentir a realidade dela. Por mais maneiro e artista que o moleque seja, ele só vai se sentir em um estado de vivência que vai fazer com que ele escreva sobre sexo, armamento, contra a polícia... Esse é o ambiente que ele está vivendo."

Divulgação
MC Leonardo é líder da Apafunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk)
Na visão do líder da Apafunk, a evolução da cultura do funk depende de uma política de Estado. "A única maneira é abrir o baile em toda a cidade. Fazer com que o moleque não se sinta refém de um palco em cima de caixas de cerveja e uma boca de fumo. É a única maneira", disse. "A gente tem o exemplo do começo da década de 90, quando os bailes eram nos clubes. Ali existiam concursos de rap e os festivais de galera, cada um concorria com o seu rap."

"Naquela época, existia o problema do enfrentamento de galeras e gangues dentro dos bailes, mas o próprio funk se encarregou de resolver isso. Os festivais de galera tiveram as etapas de rap, e nessas etapas se começou a pedir paz, o que abriu para os bailes um espaço nunca antes visto na cidade. O funk não entrava nas grandes casas de show, como Scala, Metropolitan, Rio Sampa, Canecão. Isso tudo começou em meados de 95 por causa das letras que pediam paz para o Rio de Janeiro", completou.

Leonardo diz acreditar diz que a regulamentação por parte do poder público dará um "novo ambiente" ao funk.

"O baile foi parar na favela porque ele foi proibido no asfalto. Quando você colocar o baile funk de volta no cenário do Rio de Janeiro, que é o que a molecada está querendo assistir, você dá um novo ambiente. E somente esse novo ambiente vai fazer com que a galera tenha uma linha poética e uma veia de inspiração diferente do que ela está tendo", declarou.

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