Comerciante é acusado de injúria racial contra criança em Bauru

Eduardo Schiavoni

Colaboração para o UOL, em Ribeirão Preto

Os pais de um menino de três anos de idade denunciaram nesta quinta-feira (21) um comerciante de Bauru (a 340 km de São Paulo) por injúria racial - foi assim que o caso foi registrado em um distrito policial. O casal acusa o feirante Pedro Lino, 60, de chamar o garoto de "macaquinho". O caso ocorreu na sexta-feira (15), mas foi registrado seis dias depois. Em entrevista ao UOL, Lino disse não se lembrar do fato. A Polícia Civil informou que deve ouvi-lo em breve.

Segundo Daniela Mello da Silva, mãe da criança, que é negra, ela e o marido, Ludnilson da Silva, que é branco, foram até a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) de Bauru por volta das 10h30 para tentar conseguir a doação de alimentos quando o filho se aproximou de uma das barracas. O menino pediu uma banana ao comerciante Pedro Lino.

"Ele estava com fome e adora banana. Chegou até a barraca e pediu. Foi aqui que o feirante pegou uma banana e perguntou para ele, rindo, se o macaquinho queria banana", diz Daniela.

Ao perceber a ofensa, Daniela se aproximou com o marido e tentou falar com o comerciante. "Eu perguntei o que ele tinha dito, e ele repetiu. Repetiu três vezes, na nossa cara", conta Silva.

A criança pegou a fruta e saiu do local, acompanhada dos pais. "Não falamos nada, só demos as costas e fomos embora. Foi chocante", relata Daniela, que afirma, ainda, que o filho teve pesadelos e chorou durante a semana toda. "Ele acordava e me chamava, dizia que não era macaco."

Ela informou ainda que demorou para fazer o registro porque não tinha informações sobre o comerciante. "A gente passou a semana inteira tentando achar o nome e o endereço dele, mas só conseguimos na quinta-feira de tarde (21).

Nenhuma lembrança

O comerciante Pedro Lino afirmou ao UOL não se recordar do caso. "Passa gente todo dia pedindo coisa, eu não conheço todos. Mas não me lembro de nada assim."

Ele disse vai ao local ajudar o filho, que trabalha na banca de frutas. " Sou aposentado, mas ajudo."

O comerciante ainda foi procurado pela polícia, mas está esperando pela convocação para decidir se vai buscar um advogado. "Quero ver o vai ser dito e depois vou decidir o que fazer."

Um pouco surpreso com a situação, afirmou que não faz ideia dos motivos da acusação. "Nem sei o que levou eles a dizerem isso, mas não faz parte da minha natureza. Não entendo o ser humano."

Desemprego e dificuldades

Daniela e Ludnilson Silva contam que estão desempregados - ela há mais de um ano, ele há dois meses - e que, por conta da crise, vão sempre ao Ceagesp para tentar conseguir alimentos. "A gente está tentando, mas, como não conseguimos trabalhos e temos três filhos para cuidar, vamos até lá pegar o que a gente consegue de comida. Eles sempre dão o que sobra e o que eles não podem vender", explica a mãe.

Embora já tenha sido alvo de preconceito em outras oportunidades, Daniela disse que foi a primeira vez que o filho sofreu com isso. "Imagine uma criança de três anos, que está conhecendo o mundo, e já é submetida a isso. Preferia que tivesse sido contra mim do que contra ele."

 

 

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