Traficantes divulgam vídeos de tortura para ostentar poder, diz promotora

Flávio Costa e Paula Bianchi

Do UOL, em São Paulo e no Rio

  • Reprodução/UOL

    Mulheres têm cabeças raspadas por traficantes no Rio de Janeiro

    Mulheres têm cabeças raspadas por traficantes no Rio de Janeiro

Foram os próprios traficantes que divulgaram em redes sociais os dois vídeos nos quais eles torturam e raspam os cabelos de mulheres no Rio de Janeiro e em Feira de Santana (BA). "Eles fazem isso por diversos motivos, mas principalmente para ostentar poder e ameaçar as outras mulheres das comunidades que eles dominam", afirma a promotora de Justiça Lívia Santanna Vaz, coordenadora do Gedem-MPBA (Grupo de Atuação Especial em Defesa da Mulher do Ministério Público da Bahia).

Em áreas dominadas pelo crime organizado, traficantes estabelecem as leis e as respectivas penas para quem as infringe. As punições incluem tortura e humilhação pública de mulheres, cujas cabeças e sobrancelhas são raspadas contra a vontade delas. "Essa divulgação não vai atingir apenas as comunidades dominadas, mas as outras comunidades que estejam sob o domínio das facções rivais", acrescenta a promotora.

Namorar pessoas de comunidades inimigas, se envolver em brigas, passar informações sobre atividades dos traficantes à polícia, dever para a "boca de fumo" são alguns dos "motivos" passíveis deste tipo de tortura por parte dos traficantes.

Divulgação/MP-BA
A promotora Lívia Vaz atua em casos de proteção à mulher vítima de violência na Bahia
Os traficantes costumam divulgar nas redes sociais, além de vídeos de torturas, imagens do arsenal que possuem para intimidar a polícia e membros de facções rivais. "Eles têm certeza da impunidade, por isso muitas vezes não se incomodam que seus rostos apareceram nos vídeos e fotos", afirma, sob a condição de sigilo, um investigador da Polícia Civil baiana, com mais de 30 anos de experiência. "Recebo diariamente vídeos assim no meu celular."

Cabeças raspadas

No caso do vídeo do Rio de Janeiro, três mulheres são espancadas e têm seus cabelos cortados por traficantes do Comando Vermelho, que comanda o crime na favela da Ladeira dos Tabajaras, na zona sul da cidade. Elas são acusadas de passarem informações à polícia. As três vítimas estão escondidas e não voltaram a prestar depoimento na delegacia que investiga o caso. "Ela está muito abalada", diz um morador da favela, que conhece uma delas, e conversou com a reportagem sob a condição de anonimato.

Já no caso do ocorrido em Feira de Santana, a mulher estava grávida e teve seus cabelos cortados contra sua vontade no meio da rua, por ter uma relação conjugal com um traficante rival da facção Catiara, uma das quatro maiores da Bahia. "Eles têm poder de vida e morte sobre essas pessoas e exacerbam de forma ainda mais violenta o machismo já existente na sociedade", afirma a socióloga Marta Tavares, coordenadora do Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia.

As Secretarias da Segurança Pública da Bahia e do Rio de Janeiro informaram que abriram investigação para identificar os traficantes que aparecem nos dois vídeos.

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