Vizinhos de Alcaçuz comemoram "sossego" de um distrito sem crimes

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Nísia Floresta (RN)

  • Beto Macário/UOL

    Vizinhos da penitenciária de Alcaçuz dizem que a região é segura

    Vizinhos da penitenciária de Alcaçuz dizem que a região é segura

"Aqui é muito seguro. Moro há 10 anos e nunca tive problema, nunca vi um assalto sequer." Acredite-se ou não, o pintor Antônio Bispo, 41, tem uma vizinhança que poderia lhe causar muito medo: a penitenciária de Alcaçuz, em Nísia Floresta (25 km de Natal).

A pequena casa de Bispo fica a menos de 50 metros de um dos muros laterais do presídio que foi palco de um massacre com 26 mortes no sábado (14) e é alvo de disputa intensa de facções criminosas. Nesta quinta-feira (19), os presos, que estão soltos desde o motim, voltaram a se enfrentar.

No distrito, moram cerca de 500 pessoas, e apenas uma pequena parte tem ruas asfaltadas.

O local passou a ser ocupado no início dos anos de 1980, quando uma comunidade de produtores rurais foi criada por um projeto de produção de verduras --com a ideia de aproveitar o açude de Alcaçuz, que fica ao lado. Até hoje, muitos moradores ainda se dedicam a plantar culturas como feijão e abóbora.

Enquanto policiais iam e vinham na manhã desta quarta-feira (18), Bispo seguia sua rotina normal na roça. Ali perto, três presos em cima do muro exibiam facões e bandeiras de facções e pediam para ser fotografados.

Beto Macário/UOL
Moradores comemoram a presença da polícia na região

"Tumulto aqui sempre teve, mas nunca ninguém mexeu com a gente. É comum ouvir tiros, gritos, até bombas. Isso é briga entre eles, aqui é sossegado", afirma, citando não ver problema no vai-e-vem de carros de polícia. "É até bom, que dão segurança."

Uma aposentada --que pediu para não ter a identidade revelada-- conta que vive no distrito desde 1988, ou seja, exatamente uma década antes da inauguração do presídio. "Ali era uma duna bem grande, meus filhos brincavam lá sempre. Destruíram tudo para fazer o presídio", conta.

A mulher diz que nunca gostou da ideia de ter presos como vizinhos, mas reconhece que --comparado a outros pontos da cidade-- o local é seguro. "Não é o ideal ter eles [os presos] como vizinhos, vive tendo confusão. Mas não posso esconder que aqui é muito seguro. Lá para cima [outros distritos] só escuto histórias de assaltos, e aqui nunca vi", conta.

Segundo a aposentada, por três vezes presos que escaparam de Alcaçuz usaram sua casa como rota de fuga --a última vez durante a rebelião do último sábado. "Eles vêm, passam pelo quintal, pulam o muro e fogem sem fazer nada. No sábado, eles até derrubaram um balde que tinha lá", diz, sem dar pistas de quantos presos teriam passado por sua casa.

Outra moradora do local, a dona de casa Domingas Bezerra, 45, vive na comunidade com o marido há nove anos e não mudou a rotina com o vai-e-vem de policiais e jornalistas.

Além dela, a filha também mora em outra casa do distrito. "Não vejo problema de morar aqui, é um sossego. Nunca tive problema. Quando eles fogem, vão embora, não ficam por aqui, nem mexem", relata.

Beto Macário/UOL
De quintal de casa, é possível ver presos no telhado da penitenciária de Alcaçuz

Expansão

Segundo o Observatório de Violência Letal Intencional do Rio Grande do Norte, ligado à Universidade Federal Rural do Semiárido, o distrito onde fica Alcaçuz registra os menores índices de violência de Nísia Floresta. Não há, por sinal, relato de crimes no local.

O município foi proporcionalmente o que mais registrou homicídios em 2016 no Rio Grande do Norte: 35, o que dá uma média de 131 para cada 100 mil habitantes. Nove dessas mortes foram na penitenciária.

Para a ONU, a partir de 10 por 100 mil, a violência já é considerada em níveis epidêmicos.

Beto Macário/UOL
Casa fica colada ao muro da penitenciária de Alcaçuz

"A expansão do local ocorreu muito mais após o presídio. Não há um censo ali específico, mas temos indícios de que boa parte desse crescimento foi impulsionado pela chegada de familiares de presos, que passam a viver no local", conta o coordenador do observatório, Ivênio Hermes.

Em conversa com familiares de presos que acompanham a crise, uma mulher afirmou que vive no local. "Eu aluguei uma casa e fico passando uns períodos aqui e outros em Natal. É mais prático ter uma casa", afirma uma mulher de detento ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital).

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