"Mobilização nacional foi advertência para Temer e Congresso", diz veterano de greves

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Roberto Sungi/Futura Press/Estadão Conteúdo

    Região do largo da Batata durante a greve geral desta sexta-feira

    Região do largo da Batata durante a greve geral desta sexta-feira

Na véspera da greve geral realizada nesta sexta-feira (28) em várias cidades brasileiras, sob o comando das principais entidades e centrais sindicais do país, o sindicalista Gilmar Carneiro, 63, tinha a expectativa de ver mobilização parecida com a de grandes greves nacionais que ele ajudou a liderar nos anos 1980, em São Paulo.

Hoje, ele afirma, convicto: "Esta foi a melhor greve de todas na história do Brasil, quantitativamente e qualitativamente".

Bancário há 44 anos, Carneiro tem uma longa experiência no sindicalismo trabalhista e pode ser considerado um veterano em greves. É um dos fundadores do PT (Partido dos Trabalhadores) e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e foi presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, entre outras posições que já ocupou em organizações sindicais. Formado em administração de empresas pela FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas), atualmente é assessor da presidência da CUT.

A greve geral deste 28 de abril, convocada em rejeição às reformas previdenciária e trabalhista que o governo Michel Temer (PMDB) quer colocar em ação, é comparada pelo sindicalista a alguns movimentos populares dos quais participou, mas com alcance bem maior.

Divulgação
O sindicalista Gilmar Carneiro, um dos fundadores da CUT
"Sob o ponto de vista quantitativo, dá uns 35 milhões, 40 milhões de pessoas. Na greve de 1989, contra o Plano Verão, ela se concentrou mais em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, mais no Sudeste. Qualitativamente, essa greve de hoje teve adesão desde o Amapá até o Rio Grande do Sul, ela pegou todos os Estados, e isso é raro", ele avalia, uma vez que essa adesão não aconteceu com tanta frequência nas últimas décadas.

Carneiro cita, por exemplo, as greves de categorias, como a de 1985, com bancários de todo o país, mas que não envolviam outros grupos de trabalhadores.

"Quando nós fizemos em 1983 contra a ditadura, contra os pacotes econômicos do Delfim Netto [ministro da Fazenda e da Agricultura no regime militar], eram paralisações nos centros industriais e nas grandes cidades do Sudeste, ou da Bahia para baixo", diz.

Reprodução/Cedoc CUT
Cartaz da CUT convoca greve geral em 1989
Naquele ano, a greve geral foi organizada pela Comissão Nacional Pró-CUT. Mas a Central Única dos Trabalhadores só seria oficialmente fundada poucos meses depois, em agosto.

Em todo o país, cerca de 3 milhões de trabalhadores pararam no mês de julho: metalúrgicos, bancários, metroviários, comerciários, servidores públicos e outros, com passeatas e piquetes. O movimento sofreu forte repressão policial e chegou a resultar em intervenção nos sindicatos.

"Em São Paulo, o sindicato dos bancários ficou 20 meses sob intervenção do Ministério do Trabalho", recorda Carneiro.

Folhapress
Ato da CUT em São Paulo convoca trabalhadores para greve geral em 1983

"Pulsar nacional"

Voltando para 2017, o sindicalista enfatiza a manifestação em esfera nacional que ocorreu no dia 15 de março, "mas era só da CUT, e essa greve de hoje tem adesões de todas as centrais sindicais, em todo o Brasil. Não é uma greve trabalhista, é uma greve dos brasileiros. Uma advertência ao governo e ao Congresso Nacional de que o Brasil não está aceitando a reforma da Previdência como eles estão fazendo, não está aceitando a reforma trabalhista do jeito que eles estão fazendo".

Emporium Brasilis
Operários realizam primeira greve geral no Brasil em 1917, em São Paulo

Há quase cem anos, em junho de 1917, o Brasil registrava sua primeira greve geral, na cidade de São Paulo. Funcionários de uma fábrica têxtil paralisaram as atividades por 30 dias para reivindicar aumento de salários e redução na jornada de trabalho, entre outros.

A inspiração anarquista trazida por italianos e espanhóis foi marcante, como afirma Carneiro, mas mesmo aquela primeira greve ocorreu em caráter local.

"Você atingir desde o Amapá até o Rio Grande do Sul significa que tem um pulsar nacional. E quem deu esse caráter nacional ao Brasil, a partir de 1960 para cá, foi a televisão, foi o rádio. Agora tem a questão da internet, das redes sociais."

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