Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Após confronto entre facções, comunidade no Rio relata temor: 'Todo dia tem tiro'

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Fabiano Rocha/Extra/Agência O Globo

    Cordovil, zona norte do Rio, onde facções fizeram confronto no início do mês

    Cordovil, zona norte do Rio, onde facções fizeram confronto no início do mês

Após os ataques que terminaram com 11 veículos incendiados em Cordovil, na zona norte do Rio, moradores da região têm adotado uma espécie de toque de recolher. Dormir na casa de amigos em outros bairros, evitar circular pelas ruas ou sair com objetos de menor valor são ações que passaram a fazer parte da rotina de quem vive na região. 

O bairro que fica a 22 km do centro do Rio, às margens da avenida Brasil, sofre principalmente com confrontos entre traficantes que disputam o ponto de venda de drogas da comunidade Cidade Alta. No último dia 5, criminosos de uma facção rival organizaram uma invasão que resultou em quatro horas de tiroteio. A PM precisou fazer uma operação para pôr fim ao confronto que terminou com 45 presos e inúmeras armas e munições de origem internacional apreendidas. 

Moradores relatam que trocas de tiros são frequentes. A dona de casa Jaqueline Oliveira conta que se sente acuada. "Cordovil está jogado às traças. Eu não me sinto segura", diz, enquanto fala que seu filho e os amigos já foram assaltados enquanto conversavam na rua. "Tenho tanto medo que saio de casa sem nada de valor. À noite, prefiro não sair, pois todo dia tem tiro."

Francisco Almeida, que vive há 20 anos na região, afirma que o número de viciados em drogas é impressionante. "É uma cena de pavor. Em plena luz do dia, um viciado te aborda. É pior que assalto, pois você não sabe o que o drogado pode fazer com você. No caso do assalto, levam celular, relógio e carteira e vão embora. Do viciado a gente não sabe o que esperar. Ele está fora de si."

Eles também analisam que o bairro vem se deteriorando com o passar dos anos. Os números de violência do ISP (Instituto de Segurança Pública) referendam essa impressão da comunidade.

Somente no mês de março, Cordovil e adjacências contabilizaram 102 roubos de veículo, ou mais de três por dia. O número é quase o dobro do registrado há cinco anos, quando 52 ocorrências desta natureza foram registradas. 

No mesmo período, segundo o levantamento, o roubo de cargas subiu de 19 para 28, quase alcançando a média de um por dia. Assaltos no transporte coletivo e roubos de celular aumentaram quatro e cinco vezes, respectivamente.

Cléber Júnior/Extra/Agência O Globo
Ônibus é queimado durante ação orquestrada por traficantes de drogas em Cordovil
Moradores também dizem que os problemas em serviços públicos aumentam a sensação de abandono do Estado.

"A qualidade da água daqui não é a mesma da que chega lá na praia [zona sul da cidade]. Até para fazer um sacolé aqui para vender é difícil, porque o gosto da água não é o mesmo, não", diz Jaqueline Oliveira. "Tudo é muito difícil por aqui. Coleta de lixo é insuficiente. Não temos acesso à saúde, lazer. UPA (Unidade de Pronto Atendimento) só indo para Penha ou Irajá. Até contratar TV a cabo é difícil. Nem todas atendem nossa região. Os moradores de Cordovil estão abandonados, ninguém olha pela gente", desabafa ela.

Cordovil ocupa a 98ª posição no ranking de desenvolvimento humano do Rio de um total de 126 bairros. A esperança de vida ao nascer na região é de apenas 68 anos --12 a menos que no bairro da Gávea, na zona sul, por exemplo. O índice é composto a partir de dados de expectativa de vida, educação e renda.

Moradores dizem temer novas represálias

Após terem sido surpreendidos pela violência de traficantes no início do mês, a comunidade ainda está com medo.

As quatro horas de tiroteio terminaram com 11 veículos incendiados, em represália à operação da Polícia Militar para pôr fim ao confronto e ajudar a tirar a atenção da fuga dos criminosos.

Uma professora que está há 36 anos em Cordovil e que não quis se identificar diz que a população teme episódios similares na região. "Meus vizinhos comentam que esperam uma represália de traficantes rivais. Uma ação surpresa. Quando vejo que vou voltar muito tarde, tento dormir na casa de alguém em outro bairro para não ficar circulando aqui. Ando com muito medo. Achamos que a qualquer hora bandidos vão invadir a Cidade Alta."

A opinião não é compartilhada pelo especialista em segurança pública Paulo Storani. Ele avalia que a facção que tentou invadir a comunidade precisa de tempo para se organizar.

"O prejuízo foi muito grande. Agora, eles devem programar roubos de cargas, explosões de caixas eletrônicos, ações de onde eles consigam recuperar mais rápido o dinheiro perdido."

Storani, que é capitão do Bope, explica que a região é estratégica. "O local é muito favorável ao tráfico porque está num ponto perto de rodovias, de vias expressas e de fácil acesso a outras comunidades. A proximidade com a Baía de Guanabara também facilita a atuação de criminosos. É também por onde chegam armas e drogas", explica. "A região já teve formato de bairro, mas agora se transformou em um local degradado, violento, onde o Estado não consegue atuar."

Divulgação/PMERJ
Fuzis apreendidos durante operação na favela Cidade Alta, em Cordovil (RJ)
Armas apreendidas foram avaliadas em R$ 2 milhões

Ao todo, 45 pessoas foram presas na operação policial que ocorreu na Cidade Alta. Também foram apreendidos 33 fuzis, quatro pistolas e 11 granadas. Um dos modelos de fuzis recolhido pela polícia é o AR-10, o mais moderno usado hoje pelas equipes de elite da polícia do Rio.

Pelos cálculos da polícia, o armamento está avaliado em torno de R$ 2 milhões. 

Segundo o delegado Fabricio Oliveira, da Delegacia Especializada em Armas, um fuzil no mercado negro é vendido entre R$ 50 mil e R$ 70 mil. O delegado defende investimentos na polícia investigativa para coibir a entrada deste armamento no país.

"Existem muitos caminhos até a chegada destas armas no Rio. A gente sabe que entram armas por portos, estradas e até aeroportos. É um esquema que envolve até pessoas que deveriam coibir o tráfico de armas. Não tem como patrulhar e fiscalizar todos os pontos do país, nenhum lugar do mundo consegue fazer isso, por isso é importante investimentos na investigação para poder mapear melhor as portas de entrada e principalmente as pessoas envolvidas." 

De acordo com a PM, a comunidade estava sob o domínio do Comando Vermelho, mas o chefe da facção mudou para o lado do TCP (Terceiro Comando Puro).

"A tentativa de invasão conseguiu recrutar bandidos de pelo menos sete favelas diferentes, inclusive fora da capital. O que mais prejudicou os bandidos foi o desconhecimento sobre o terreno", destaca Paulo Storani.

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