Um mês após massacre, camponeses retornam a fazenda no Pará: "Voltamos para lutar"

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Mario Campagnani/Justiça Global

    Camponeses remontaram acampamento na fazenda do Pará onde ocorreu o massacre

    Camponeses remontaram acampamento na fazenda do Pará onde ocorreu o massacre

Um mês após o massacre que teve 10 trabalhadores rurais mortos pela polícia na Fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D'Arco (PA), alguns camponeses já voltaram a ocupar terras do local, mesmo ainda à espera do resultado das investigações do crime. Já outros trabalhadores seguem escondidos, seja por temerem novos ataques, seja por trauma.

A ação policial ocorreu no dia 24 de maio, quando policiais foram cumprir mandados judiciais no acampamento referentes à investigação do assassinato de um segurança da fazenda dias antes. Eles teriam sido acompanhados por seguranças da fazenda. Os policiais dizem que foram recebidos à bala e reagiram. O caso teve repercussão internacional.

Parte das terras da fazenda, de 5.694 hectares, foram ocupadas pelos trabalhadores em novembro de 2013, quando pediram a desapropriação.

Entidades acompanham

O caso está sendo monitorado por diversas instituições nacionais e internacionais. A coordenadora-geral da ONG Justiça Global, Sandra Carvalho, afirma que a entidade está com um emissário no local que tem relatado o medo das pessoas na região.

"O clima na região ainda é muito tenso. Mas também de coragem das pessoas para lutar por suas terras e pela responsabilização pelo massacre", disse.

Há cerca de dez dias, alguns camponeses decidiram voltar ao local e remontar barracas. Geodete Oliveira dos Santos --que teve sete familiares mortos-- é uma das que voltou ao local. "Acredito que estou honrando a história da minha família. Eles estavam lutando por um pedaço de terra, então nada mais do que justo estar aqui. Voltamos para lutar mais", conta.

Escondidos

Segundo a Justiça Globla, hoje há 15 sobreviventes do massacre escondidos por medo de serem intimidados ou mortos. Ao todo, 151 famílias são registradas pela associação de trabalhadores e reivindicam o uso da terra. Após o massacre, muitas teriam deixado a lista e perdido contato, com medo de retaliações.

Entre os trabalhadores, além dos escondidos, há os que decidiram não retornar ao novo acampamento por causa das mortes. A fuga, no caso, também é por trauma. "Não retornei, não me sinto bem ainda. Estou muito abalada com tudo, fiquei viúva", conta Francisca da Glória Batista, que perdeu o marido na ação policial.

Ela reclama da falta de informações oficiais das investigações. "Eu estou só trocando informações com familiares, mas para alguém informar algo da Justiça", afirma.

Ireno Sampaio de Oliveira, que perdeu o filho de 20 anos, também reclama do silêncio oficial. "Ninguém explica nada para nós, não tem nada pra dizer o que está acontecendo à gente", conta.

A única informação que diz ter tido até o momento foi a forma como seu filho foi morto. "Ele levou dois tiros à queima roupa. Além disso, eles foram espancados", completa.

Mario Campagnani/Justiça Global
24.jun.2017 - Familiares de vítimas e trabalhadores rurais fizeram ato na cidade de Redenção

Neste sábado (24), familiares das vítimas e trabalhadores rurais realizaram um ato em memória e protesto na cidade de Redenção, onde houve caminhada até a porta da Polícia Federal.

Em um manifesto apresentado, eles pediram o destino das terras da fazenda para reforma agrária, a punição dos envolvidos no massacre e o pagamento de indenização às famílias dos mortos.

Primeiras conclusões

Nesses primeiros dias pós-massacre, a grande novidade das investigações foi a apresentação, na semana passada, dos laudos de necropsia, nos coletes e veículos usados na ação, além de informações relativas a danos ao patrimônio. Eles apontaram, entre outras coisas, que nenhum dos coletes ou carro da polícia teria sido atingido por disparos.

Os investigadores estaduais também já sabem que nove das dez vítimas foram atingidas por disparos duplos na região do tórax. Testemunhas alegaram que os policiais chegaram para matar e não anunciaram qualquer decisão judicial.

As informações enfraqueceram a tese apresentada por policiais civis e militares que participaram da operação de cumprimento de mandados que eles foram recebidos à bala e houve confronto. Todos continuam afastados das funções desde o dia 26.

Ainda é esperado o laudo balístico das 53 armas apreendidas, que é aguardado para o início de agosto.

Mais 30 dias para investigação

Em nota enviada ao UOL neste sábado (24), a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social disse que, até o momento, cerca de 50 pessoas já foram ouvidas. A pasta informou ainda que o delegado Aurélio Paiva, responsável pelo inquérito, solicitou à Justiça a prorrogação do prazo de conclusão dos trabalhos por mais 30 dias.

O comunicado diz que a Polícia Civil pediu a reconstituição da operação. "Contudo, a área foi reocupada na semana passada por pessoas vinculadas aos invasores que estavam acampados na propriedade rural, o que impossibilita, no momento, a reprodução simulada dos fatos. Um boletim de ocorrência sobre a reocupação já foi registrado na Delegacia de Conflitos Agrários de Redenção, porém, a Polícia Civil só poderá retirar os invasores por meio de mandado de reintegração de posse."

O crime também é investigado pelo MP (Ministério Público) estadual. Três promotores foram designados para o caso, que tem várias frentes de atuação. "Os promotores estão apurando desde a fase pretérita ao crime, ou seja, desde a análise das motivações das mortes, até a questão fundiária na região", disse o procurador-geral Gilberto Martins.

Em nota, o MP informou que os promotores "já trabalham com a hipótese de ter havido uma execução das pessoas que ocupavam a fazenda". 

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