Violência no Rio

Bebê baleado antes de nascer completa 1 mês: "Quero pegá-lo no colo", diz mãe

Giovani Lettiere

Colaboração para o UOL, em Duque de Caxias

  • Giovani Lettiere

    28.jul.2017 - Claudineia na porta do hospital em Caxias após visitar o filho Arthur

    28.jul.2017 - Claudineia na porta do hospital em Caxias após visitar o filho Arthur

Os últimos 30 dias não têm sido fáceis para Claudineia dos Santos Melo, 28, vítima de uma bala perdida que atravessou seu útero e atingiu o filho, Arthur, ainda na barriga da mãe, na Favela do Lixão, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, em 30 de junho. O menino, que veio ao mundo em uma cesárea de emergência e, desde então, se recupera na UTI neonatal do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, completa um mês de vida neste domingo (30).

O estado de saúde dele, informou a direção do centro médico na sexta-feira (27), é grave. Com a lesão, a criança perdeu o movimento das pernas --quadro que, segundo os médicos, tem chance de ser revertido.

Por conta da tragédia, a tesoureira de supermercado raramente sorri. Mas a ela não falta esperança. Basta falar do bebê para a mãe ganhar, imediatamente, um brilho nos olhos. "Arthur está bem, melhorando a cada dia e reagindo muito bem à cirurgia", contou na sexta-feira (28) ao UOL durante visita ao filho, submetido a uma operação de descompressão da medula no dia 4 de julho.

Desde que teve alta médica, no dia 6, Claudineia vai ao hospital todos os dias ver o bebê. Ela permanece na UTI por volta de 1 hora e meia, sempre ao lado do marido, o conferente de frigorífico Klebson Cosme da Silva, 27.

"Toco nele, sinto meu filho. Não posso pegar no colo, já que ele fica na incubadora. Ainda não pude amamentar. Eu tirei leite para ele algumas vezes com alimentação via sonda", explica ela, que comemora pequenos progressos do menino.

Arthur já sente que eu sou a mãe dele. Sinto o meu filho também. Eu converso com ele e Arthur fica esperto. Fico bastante tempo conversando com ele, falo: 'Aqui é a mamãe, estou aqui torcendo por você e vai dar tudo certo'

Claudineia dos Santos Melo, mãe de Arthur

A evolução de Arthur é grande. "Os médicos me falam que a recuperação dele está boa. Meu filho engordou. Nasceu com pouco menos que 3 kg e já está com 3,350 kg", festeja ela, que está com o quartinho do menino todo pronto à sua espera, com muitas roupinhas e produtos de higiene do bebê no guarda-roupa branco.

"Espero levá-lo para casa o mais rápido possível, mas ainda não há previsão de alta", conforma-se Claudineia, que controla a ansiedade rezando. "Eu oro muito. Não sigo uma religião, mas às vezes vou na igreja evangélica, na Assembleia de Deus."

Arquivo Pessoal
Enxoval do bebê Arthur o aguarda em casa

A força para atravessar o momento difícil vem de Deus e da família. "Vem de Deus a minha força. Do menino Jesus. Tenho ainda o apoio da minha família. É muito importante e está me ajudando muito. Meu marido está sempre comigo. Esses 30 dias têm sido muito difíceis para mim, mas tenho rezado muito para passar e tenho fé que vai melhorar", acredita Claudineia.

Ela também tem certeza de que seu filho vai conseguir andar, apesar da possibilidade de Arthur ficar paraplégico por conta da bala ter atingido a região cervical e a medula. Os médicos estão otimistas que este quadro possa ser revertido.

"Estou muito confiante que que meu filho vá andar. Tenho muita esperança de que tudo vai dar certo. Não trabalho com a hipótese de que meu filho não vá andar. De forma alguma", sentencia.

Assim que foi baleada na Favela do Lixão, a primeira reação dela --hoje totalmente recuperada e sem tomar sequer medicação mais-- foi pensar no filho.

"Nunca pensei que poderia acontecer uma coisa dessas comigo e com meu filho. Mas em nenhum momento achei que eu fosse morrer. Não achei mesmo. No momento do tiro pensei logo nele. Eu temi muito pela vida dele. Graças a Deus ele está vivo", diz Claudineia, que voltou a morar na comunidade, depois de passar alguns dias na casa do primo, o segurança Wagner de Melo, no bairro Lagunas, centro de Caxias.

"No momento, não penso em me mudar de lá não", disse Claudineia, interrompida pelo marido neste momento da entrevista. "A situação lá no Lixão é a mesma. Nem podemos comentar muito pois somos moradores", limitou-se a dizer Klebson sobre a guerra de traficantes na região (houve um protesto de moradores no dia em que ela foi baleada e um ônibus chegou a ser incendiado).

A assessoria da Polícia Civil do Rio informou ao UOL que as "investigações estão em andamento" pela 59ª DP (Duque de Caxias).

Reprodução

Apesar de não pensar em deixar o Lixão no momento, Claudineia admite que pensa com frequência em voltar a morar em João Pessoa, na Paraíba, onde nasceu.

"Moro há cinco anos em Duque de Caxias. Penso sempre em voltar para lá [Paraíba], mas ainda não deu. Meu marido é da Paraíba também, de Campina Grande, mas nos conhecemos aqui em Caxias e estamos juntos há dois anos", disse a tesoureira, que conta com a ajuda da mãe, Dona Rita, 62, para superar o momento difícil.

"Minha mãe veio de lá para ficar comigo, assim como uma sobrinha. Elas estão na minha casa me ajudando muito. Tenho cinco irmãos, mas ninguém teve como vir", afirma ela, que só tem um sonho neste momento: "Quero que meu filho saia do hospital, que eu possa pegá-lo no colo e levá-lo para casa".

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