Presos recebem remédios das famílias, diz médica com 2 décadas de trabalho em cadeias

Depoimento a Flávio Costa e Paula Bianchi

Do UOL, em São Paulo e no Rio

  • Agência Brasil

RESUMO: Com a experiência de duas décadas de trabalho nas prisões do Rio de Janeiro, a médica do relato abaixo, que conversou sob a condição de sigilo, descreve as dificuldades encontradas para tratar de seus pacientes --alguns dos mais de 50 mil presos do Estado. Faltam remédios e a estrutura necessária, afirma. "A saúde prisional não é uma prioridade do Estado. Os servidores estão desmotivados", conta.

"A principal função do médico na prisão é ouvir"

Sou médica do sistema penitenciário do Rio de Janeiro há duas décadas. Meu dia típico é chegar de manhã ao presídio e fazer uma lista de atendimento. A gente bota uma caixa do lado de fora do ambulatório para que os presos coloquem seu nome e digam que tipo de consultas precisam, se é de clínico geral ou de dentista, por exemplo.

Eu atendo em torno de 25 pacientes por dia, são casos de dores de cabeça, asma, bronquite, gripe. Muitos presos vão ao ambulatório apenas para saber como estão as coisas. Várias consultas são apenas para checar a pressão arterial e eles aproveitam e perguntam para saber como eu estou. Drauzio Varella está certo ao dizer que a principal função de um médico na prisão é ouvir.

Muitos presos querem contar sua história. Os médicos de hoje não costumam ouvir seus pacientes

O paciente fala tudo para você. Se você mantiver os olhos e ouvidos atentos, você saberá o que está se passando. Muitas vezes, você não precisa fazer mil exames para detectar a doença.

João Miguel Jr./TV Globo
"Drauzio Varella tem razão. Médico tem que saber ouvir"

Muitas vezes, eles não conseguem dormir nas prisões. Os presos falam: "Ah, doutora, estou com um nó no peito, na garganta", e aí você pergunta: "Por acaso, seu advogado disse que você vai sair em tal data"?, e eles respondem afirmativamente. E então eu digo: "Perto de ir embora é pior do que quando chega". Pois, quando um preso chega [à cadeia], ele sabe mais ou menos por quanto tempo vai ficar. E a contagem regressiva para a saída é muito angustiante. E eu falo assim para eles: "Pare de ouvir advogado. Eles não são juízes, eles não podem dizer que dia você vai sair". Este ouvir é muito importante, realmente. Primeiro para saber tratar o paciente e segundo para ajudar o preso a enfrentar o encarceramento. 

"É difícil trabalhar porque falta muita coisa"

Ultimamente é muito comum faltar medicamentos, coisas que a gente tinha em abundância no passado.

Faço muita prescrição para a família trazer medicamento

Falta muita coisa ou então [a administração pública] manda em uma quantidade muito pequena, que não dura uma semana. Fica muito difícil trabalhar. Nós temos duas nutricionistas para todo o sistema prisional do Estado do Rio de Janeiro. Eram três e uma morreu. Médicos não devem ser mais do que 80 profissionais. Todo presídio tem um espaço ambulatorial e o certo é uma equipe completa de saúde em cada unidade [são 58 unidades no Rio], mas muitas prisões não têm médico.

Beto Macário/UOL
Médica: "A saúde prisional não é uma prioridade do Estado"

"Somos poucos para dar conta de tanta gente"

Se eu disser meu salário, vocês caem duros: meu salário líquido é de R$ 2.700. Um inspetor penitenciário, cuja carreira é de nível médio, começa ganhando R$ 4.500. Acho ótimo que eles ganhem esse valor. Mas mostra como são as coisas: o que importa é a segurança, a saúde fica em segundo plano. A saúde prisional não é uma prioridade do Estado.

Presos reclamam da falta de atendimento médico nas cadeias

Nos anos 1990, eram 15 mil presos atendidos por cerca de mil servidores da saúde. Atualmente são mais de 50 mil presos e somos mais ou menos 550 servidores da saúde, se é que temos isso tudo. Quer dizer, 550 servidores de 14 categorias é muito pouco para dar conta da saúde de tanta gente.

Os servidores da saúde estão completamente desmotivados.

As pessoas se esquecem de que o preso vai voltar para a sociedade e que portanto é preciso cuidar da saúde desse indivíduo

"Superlotação e estrutura favorecem surgimento de doenças"

A superlotação, a situação de confinamento e a estrutura arquitetônica dos presídios favorecem o surgimento de doenças. Ultimamente, há muitos registros de escabiose, que é um tipo de sarna. Se um preso fica em um ambiente com muita gente junto, ele vai passar para todo mundo.

E as doenças de pele, a depender da evolução do quadro clínico, podem levar à morte mesmo

O preso que tem escabiose começa a se coçar, o local que ele coça começa a desenvolver um abcesso e, se não receber tratamento adequado com antibióticos, pode haver um desenvolvimento de uma infecção mais grave. A tuberculose também é uma doença bastante comum.

Wilson Dias/Agência Brasil
Presos possuem maior vulnerabilidade a infecções, aponta o Ministério da Saúde

"Falta de hospitais é marco do desmonte"

Muitas vezes, você consegue marcar uma consulta para um preso na rede pública convencional daqui a um mês, dois, quiçá mais. A consulta tem dias e horários marcados. Mas a escolta não aparece ou aparece no fim do dia para buscar os presos. Ou então a escolta ficam com os presos rodando pela cidade o dia inteiro e chegam atrasados ao hospital. Depois dizem que o médico não estava. [Levar até o atendimento] não é prioridade.

Nós tínhamos sete hospitais penitenciários em funcionamento. O Hospital Central que ficava na rua Frei Caneca tinha todas as especialidades. O hospital fazia cirurgia de praticamente tudo: hérnia, ortopédica, poucos eram os casos que precisava levar para a rede pública convencional. Os mais graves eram tratados no Hospital Souza Aguiar, onde o preso ficava sob custódia, mas o pós-operatório era feito no Central. Era um hospital que dava suporte para todo o sistema penitenciário do Rio de Janeiro. O que foi feito com ele? Foi demolido. Para mim isso foi um marco do desmonte do sistema de saúde prisional. Outro exemplo é o do hospital Niterói, voltado para tratamento da Aids, que era uma referência. O que foi feito com ele? O edifício agora é uma delegacia.

"Jovens e com experiência de cadeia"

A gente sabe que a população carcerária em média é jovem, menos de 35 anos, mas isso está se intensificando muito.

Estão entrando presos cada vez mais jovens

Tem gente de 18 anos que aparenta ter 15, 16 anos. Meninos cada vez mais novos, e muitos já com aquela experiência prisional... Aqueles presos que são do crime mesmo a gente conta nos dedos. A grande maioria está lá por falta de opção, porque não teve uma família para orientar, um pai, uma mãe... Acabam se perdendo, achando que aquele caminho era o mais fácil, e nunca é. Sempre pergunto: "Você estudou até que ano?". E eles costumam responder: "Ah, estudei até a quarta, estudei até a quinta série. Acabei tendo outras amizades, desisti de ir para escola, me levaram para o mau caminho". E eu pergunto: "Não escutou a sua mãe?". "Ah, minha mãe falava, eu não ouvia", costumam responder.

"Fiquei afastada porque a situação ficou esquisita"

Há muitos anos, tive um caso de um preso atendido à noite no hospital alegando dor no peito. Fez exame, eletrocardiograma e não tinha nada. No dia seguinte, ele veio ao meu ambulatório pedindo para ser encaminhado para fora. "Eu tô mal, eu tô mal", ele dizia. Olhei os exames, estavam todos bem. Falei que não ia encaminhar e pedi para ele voltar lá para dentro.

A cadeia começou a "balançar", os presos começaram a gritar: "O colega vai morrer se senhora não encaminhar". Outro preso, que estava no ambulatório também, me mostrou uma gilete. Chamei o chefe de segurança e fui embora da unidade. Parei o atendimento. Estava parecendo uma situação de fuga armada. Mas falei: "Com meu carimbo não". Saí da unidade aquele dia e disse aos guardas que, se quisessem, levassem ele ao hospital, mas sem a minha autorização. Fiquei afastada por uma semana porque a coisa lá ficou esquisita. Mas depois voltou ao normal.

"Vai para a escola"

Nós temos pessoas presas que não sabem o dia em que nasceram. Você pergunta, e eles não conseguem responder o dia, mês e ano em que nasceram. Ele sabe se é "de maior" ou "de menor", mas não sabe a data. A gente ainda encontra muitos presos que são analfabetos. Então a gente incentiva a estudarem na prisão. "Vai para escola", é o que eu sempre digo.

Outro lado

A Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro) afirma, em nota, que as doenças que mais incidem no sistema prisional do Estado são escabiose, tuberculose e hanseníase. "Para conter a proliferação é realizado um inquérito de saúde quando o interno ingressa na unidade prisional. Caso alguma doença seja detectada, a Seap conta com tratamentos especializados."

"Informamos que há um convênio com o Ministério da Saúde para tratamento dessas doenças, que obedece a um padrão nacional. Além disso, mais medicamentos estão sendo adquiridos conforme acordos em audiência com a 1ª Vara de Fazenda Pública, Promotoria e Defensoria Pública", diz a nota.

Em outra mensagem, a Seap informa contar "com cinco hospitais penitenciários, sendo dois psiquiátricos, um sanatório, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), a primeira instalada dentro do sistema penitenciário, e o Hospital Dr. Hamilton Agostinho Vieira de Castro".

Os hospitais não têm capacidade divulgada, pois não computam vagas, afirma a secretaria. O antigo hospital central penitenciário Fábio Soares Maciel "foi desativado pela Justiça", encerra o comunicado oficial.

Em 2016, presos de Pedrinhas (MA) denunciaram sujeira

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