Neonazismo: brasileiros formam rede com estrangeiros

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    Integrante de grupo neonazista detido no Rio Grande do Sul

    Integrante de grupo neonazista detido no Rio Grande do Sul

Grupos organizados que difundem ideias neonazistas e racistas no Brasil estão trocando experiências e conteúdos com grupos similares dos Estados Unidos, da Europa e da Argentina. O objetivo é fortalecer e multiplicar as atividades em solo brasileiro (que incluem ativismo digital, encontros nas ruas e possíveis ataques com o uso da violência), atrair novos adeptos e aumentar sua força política.

Muitos desses grupos são ramificações de denominações tradicionais estrangeiras, algumas delas com participação nos confrontos raciais violentos de Charlottesville, na Virgínia (EUA), no último dia 12 de agosto.

Essa movimentação foi identificada pelas polícias civis de Porto Alegre e de São Paulo e por especialistas que monitoram esses grupos e o fluxo de informações de cunho intolerante na internet. Embora as polícias avaliem a situação hoje, no Brasil, como de relativa calma e sem ações violentas, como registradas há alguns anos, mantêm monitoramento constante por meio de equipes especiais.

Este monitoramento inclui a troca de mensagens via internet por integrantes desses grupos e a consolidação de banco de dados sobre eles. No Rio Grande do Sul, o trabalho preventivo contra crimes de ódio é realizado pelo 1º DP (Distrito Policial) de Porto Alegre, sob o comando do delegado Paulo César Jardim. Em São Paulo, a Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) mantém serviço de inteligência sobre intolerância, comandado pela delegada-titular Daniela Blanco e pelo investigador-chefe Nelson Collino Jr. 

Divulgação/Decradi
Armas e material de apologia ao nazismo apreendidos em São Paulo

As investigações recentes mostram que grupos do Rio Grande do Sul, com foco na capital, têm mantido comunicação continuada com neonazistas europeus, da Ucrânia e da Itália, e também sul-americanos, da Argentina. Esses contatos estão sendo feitos de forma remota, via internet, e ainda não permitem dizer que ações conjuntas de ódio no Brasil estão sendo planejadas, segundo a polícia. A preocupação, no entanto, existe.

No começo deste ano, em São Paulo, integrantes do grupo skinhead neonazista Kombat Rac gravaram vídeo de sua ação contra judeus, colando cartazes antissemitas em postes do centro da cidade.

Ricardo Wolffenbüttel/Folhapress
Artefatos para atos de violência, apreendidos em Caxias do Sul (RS)

A região Sul do país historicamente é terreno para o surgimento e a ação de neonazistas, em parte devido à influência da imigração de cidadãos da Alemanha, onde o nazismo vicejou, e da Itália, berço do fascismo.

Os neonazistas retomam as ideias defendidas por Adolf Hitler acerca da pretendida supremacia da raça ariana (branca) sobre todas as demais. Entre os seguidores brasileiros, este ideal justificaria a perseguição violenta e a morte de judeus, negros, homossexuais, nordestinos, pessoas com deficiência física, refugiados e moradores de rua, entre outros grupos. 

Embora não esteja necessariamente ligado ao neonazismo, o número de boletins de ocorrência registrados na Decradi mostra salto no nível de intolerância no último ano na cidade de São Paulo: um aumento de 48% em 2016 sobre 2015, de 164 ocorrências para 243. Mais de 100 desses registros foram por causa de denúncias de preconceito de raça, cor, etnia e procedência nacional (estrangeiros), que cresceram 61% de um ano para o outro. A Decradi atende apenas casos de delitos na cidade de São Paulo.

Os inquéritos abertos na Decradi também subiram em 2016: 139 contra 125 em 2015, alta de 11%. As investigações se originaram sobretudo de raça, cor, etnia e procedência nacional (64% do total). Segundo Daniela Blanco, negros e nordestinos são os principais alvos da intolerância na capital paulista.

No primeiro semestre de 2017, são 108 boletins de ocorrência inscritos e 57 inquéritos abertos na Decradi.

"Falam de ódio de forma prazerosa"

O Brasil já chegou a ter um partido nazista oficial, o Partido Nazista Brasileiro, fundado em 1928, em Santa Catarina, que prestava contas ao partido-sede na Alemanha. A difusão das ideias nazistas por aqui também tem origem no pós-Segunda Guerra Mundial (1939-45), quando nazistas alemães, derrotados no conflito, buscaram abrigo clandestino no país. Muitos desses nazistas vieram para cá com nomes falsos e foram empregados em fábricas da região do ABC paulista. Uma outra grande leva de nazistas teve como destino a Argentina.

"Os neonazistas daqui acham que é possível uma separação racial de Santa Catarina para baixo. São de uma ideologia do ódio. Falam de ódio de forma prazerosa. Escrevem no próprio corpo: 'I hate your face' [Odeio seu rosto, em inglês]", diz o delegado do 1º DP de Porto Alegre. "Alguns são extremamente inteligentes e estudados. Estamos num jogo de inteligência, combatendo uma ideologia."

"A gente monitora essas pessoas. Afinal, a partir do momento em que ela externa esse tipo de ideologia, pode, sim, querer praticar algum crime", justifica a delegada Blanco, da Decradi.

A legislação brasileira define que crime de racismo é ofender e discriminar toda uma coletividade ou grupo de indivíduos --por exemplo a coletividade dos judeus e dos negros. O racismo é crime imprescritível (não se extingue com o tempo) e inafiançável (não pode recorrer a pagamento para não cumprir a pena) e pode render ao condenado multa e prisão por até cinco anos.

Rede internacional e interiorização

A antropóloga e pesquisadora Adriana Dias, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que acompanha o ativismo online de grupos de intolerância do Brasil e do exterior desde 2002, confirma os vínculos internacionais de neonazistas no Brasil e frisa que muitos são braços de grupos com forte presença nos Estados Unidos e na Europa, entre eles, Combat 18 (O 1 identificado com a primeira letra do alfabeto, A, e o 8, com a oitava, H, formando a sigla AH, em referência às iniciais de Adolf Hitler) e Kombat Rac (de Rock Against Communism, ou rock contra o comunismo, no inglês, em oposição a grupos de rock contra o capitalismo).

"Grande parte dos grupos que atuaram em Charlottesville também está presente aqui. Aqui, a gente só não tem grupos de Ku Klux Klan [sociedade inicialmente secreta, surgida no século 19, nos Estados Unidos, para perseguir negros, contra o fim da escravidão, ainda hoje operante no país]", identifica Dias. "Acontece também de muita gente daqui participar de grupos lá [nos Estados Unidos] para trazer material para os grupos daqui."

Reuters
Marcha em Charlottesville reúne grupos de intolerância, incluindo neonazistas

Dias diz que houve um crescimento exponencial, acima de 8%, no número de downloads, em serviços de compartilhamento na internet, de conteúdo neonazista em português, inglês e espanhol, desde a campanha presidencial do republicano Donald Trump. Conforme os dados levantados por ela, o Brasil teria hoje 250 mil pessoas que consomem material nazista com regularidade e entre 25 mil e 30 mil pessoas em grupos organizados.

Outro dado que preocupa, diz a especialista, é a capilarização do interesse por conteúdo neonazista no país, antes basicamente concentrado na região Sul e no Estado de São Paulo e em menor proporção no Rio de Janeiro e no Distrito Federal. "Hoje temos isso no Sudeste e também em todo o Centro-Oeste. Baixa-se hoje muito material neonazista em Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Brasília. Ou seja, se espalhou."

Quanto às características dos grupos neonazistas que atuam no Brasil, Dias identifica 11 tipos, com perfis como antinordestino, antigay, anti-imigrante e de negação do Holocausto (perseguição e exterminação em massa de judeus durante a Segunda Guerra Mundial).

"O próprio perfil dentro dos grupos é muito diverso. Há desde pessoas de identidade neopagã, católica, protestante, pessoas de posições políticas de extrema-direita, mas muito diversas do que querem no mundo", descreve Dias. "O que elas têm em comum é o ódio ao outro, ao que não seja branco, o culto à masculinidade e a crença numa meritocracia branca, ou seja, que o branco merece e consegue o melhor sempre."

Carina Vitral/Divulgação
Protesto de estudantes contra denúncia de racismo em SP

"O Brasil é um país racista enrustido"

A historiadora e professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Leer-USP (Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo), vê o ressurgimento de manifestações racistas e antissemitas no Brasil como herança do passado colonial brasileiro e influência das ideias e movimentações hoje na Europa e nos Estados Unidos.

"Há um fortalecimento dos grupos neonazistas no Brasil e muitas manifestações de intolerância, agressão e perseguição contra não só os judeus, como também contra os refugiados."

Para Tucci Carneiro, o neonazismo é um fenômeno de intolerância e culto à violência sem fronteiras, que vem sempre à tona nos momentos de crise. "Demonstra que a intolerância tem esse poder de ressurgir das cinzas. Vem com novos nomes ou múltiplas facetas, mas no final estamos falando de uma mesma história, que recomeça."

No caso do Brasil, a historiadora relaciona um fator complicador e facilitador para o recrudescimento do discurso do ódio, que é o racismo histórico, ainda que velado. "O Brasil é um país racista enrustido. As pessoas continuam dizendo que não são racistas, mas ele está à flor da pele. Alguns atingem o auge do fanatismo, apesar de vivermos um falso pluralismo racial."

Cidadão intolerante

O investigador-chefe da Decradi, Collino Jr., afirma que "o Brasil é um país racista envergonhado" e diz que o nível de intolerância do cidadão comum no Brasil subiu, um movimento à parte de grupos organizados. "O intolerante hoje é um pai de família, um trabalhador, um empresário. Quem saiu para bater as panelas na época do impeachment de Dilma Rousseff não era de grupo de intolerância. Porém, alguns grupos se aproveitaram da situação para estar lá no meio. Vejo justamente a situação facilitando a atuação de pessoas e grupos de intolerância."

Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Protesto contra neonazistas um dia depois do confronto em Charlottesville

Para o policial, a situação hoje do Brasil encontra paralelo na história recente dos Estados Unidos. "[O presidente Donald] Trump não foi eleito à toa, já tinha as manifestações e comentários racistas antes da eleição dele. Quer dizer, Trump foi simplesmente o expoente daquilo que já estava acontecendo. E os grupos, Ku Klux Klan, neonazistas, estão se aproveitando disso."

Uma entidade foi formalizada, a Front Nacionalista, unindo dez grupos norte-americanos e outros dois no exterior, nas Filipinas e na Polônia. Para a antropóloga Adriana Dias, a união inédita em décadas é motivo de grande preocupação, porque o discurso racista ganha escala e pode produzir líderes nacionais. Ela diz temer que uma união semelhante possa se repetir no Brasil, onde os grupos atuam também de forma separada. "Se esses movimentos no Brasil acharem que têm uma temática, um assunto, alguma coisa que achem importante para se unir e sair às ruas, pode ser muito perigoso."

Tucci Carneiro frisa que momentos de mudanças e de incertezas, como os de agora, em que os valores estão sendo avaliados ou reavaliados, provoca um vazio nas pessoas. "É aí que o discurso intolerante e racista encontra terreno propício para se proliferar e ir às ruas."

O que fazer para se opor a isso? Na opinião das duas estudiosas, o caminho para combater a difusão dessas ideias é a elaboração de uma lei que tipifique e combata os crimes de ódio e a implementação de políticas de Estado efetivas para a formação de pessoas mais tolerantes.

"A ignorância é um terreno fértil para a divulgação desses ideais não só neonazistas, mas também de todos os discursos de ódio", avalia Tucci Carneiro. "Diversidade é coisa que se ensina na escola e isso é um caminho longo, não tem resposta pronta ou rápida. Diversidade é uma das coisas mais difíceis de ensinar, mas, quando você aprende, aprende", afirma Dias.

 

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