Beira-Mar usou rede de doleiros que lavou R$ 8,5 bi na fronteira com Paraguai, diz MPF

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Fernando Souza/Agência O Dia/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

    O narcotraficante Fernadinho Beira-Mar está preso há 11 anos em presídios federais

    O narcotraficante Fernadinho Beira-Mar está preso há 11 anos em presídios federais

O narcotraficante Luís Fernando da Costa, mais conhecido como Fernandinho Beira-Mar, foi um dos "clientes" de uma rede de doleiros que movimentou R$ 8,5 bilhões durante a última década para criminosos do Brasil e do Paraguai.

A informação é do procurador da República João Vicente Beraldo Romão, responsável por denunciar 34 pessoas no âmbito da Operação Hammer-on, que investiga crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O esquema dos doleiros era dividido em cinco núcleos que atuavam de maneira interdependente nas cidades de Curitiba e Foz do Iguaçu (PR) e tinha participação de agências de câmbio do Paraguai.

"A denúncia indica diversos clientes do esquema, espalhados pelo Brasil todo e envolvidos com as mais variadas práticas criminosas", afirmou Romão, por e-mail. "Exemplificativamente, os investigados nas operações Cavalo de Fogo, Aletria, Pecúlio e Scriptus (esquema do traficante Luís Fernando da Costa, o 'Fernandinho Beira-Mar') valeram-se do esquema."

Operação Hammer-on foi deflagrada em 15 de agosto

"O esquema se configura quando o operador realiza a compensação entre valores que recebe no Brasil e valores que possui no exterior, sem que haja a transgressão física de fronteiras e sem qualquer vinculação aparente entre as operações financeiras nacionais e internacionais. O objetivo final do valor movimentado era a remessa ilegal ao exterior", diz o procurador.

Polícia encontrou bilhetes com ordens de Beira-Mar

Citada pelo procurador, a Operação Scriptus foi deflagrada em dezembro de 2011 pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. A investigação começou um ano antes, após policiais encontrarem, durante a ocupação do complexo de favelas do Alemão, 14 pedaços de papel pautado que continham manuscritos com ordens de Beira-Mar --à época no presídio federal de Campo Grande (MS). 

A partir daí, a polícia descobriu como um dos chefes do Comando Vermelho organizava seu esquema de tráficos de drogas e de armas e como lavava dinheiro oriundo do crime. Somente em uma das contas atribuídas ao narcotraficante havia um saldo de R$ 20 milhões.

Comandar o tráfico de dentro de presídios federais tornou-se um costume para Beira-Mar --ele está preso há 11 anos nas unidades de segurança máxima administradas pelo Departamento Penitenciário Nacional.

Em 2008, ele foi condenado a 29 anos de prisão pelo juiz federal Sergio Moro por comandar uma quadrilha de tráfico de drogas, a partir de sua cela no presídio federal de Catanduvas (PR).

Nove anos depois, Beira-Mar foi flagrado na liderança de mais um esquema idêntico em outra penitenciária federal, a de Porto Velho. Segundo a PF, o grupo comandado por ele movimentou valores superiores a R$ 9 milhões, com ordens recebidas pela troca de bilhetes de dentro do presídio. Ele cumpre pena atualmente no presídio federal de Mossoró (RN).

Investigação ainda está em andamento

Outras duas operações citadas pelo procurador da República --Cavalo de Fogo e Aletria-- referem-se a investigações de esquemas de tráfico de internacional de drogas. Outra, a Pecúlio, refere-se a apuração de crimes de corrupção no âmbito da Prefeitura de Foz do Iguaçu (PR).

Polícia Federal
Dinheiro apreendido pela PF durante a operação Hammer-on, em agosto

Romão pediu à Justiça Federal no Paraná que as provas produzidas pela Hammer-on sejam compartilhadas com outras instâncias judiciais, em forma de dossiês da Polícia Federal e da Receita Federal, para que os clientes dos doleiros sejam punidos. "Todos os usuários do esquema devem ser investigados. A efetividade da persecução penal depende disso."

Ele afirmou que ainda que a investigação sobre a totalidade de clientes dos doleiros ainda não foi concluída e que é provável que surjam traficantes ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao Comando Vermelho.

Procurada pela reportagem, a advogada Paloma Gurgel, que defende Beira-Mar, afirma que a defesa não foi notificada judicialmente sobre qualquer relação entre seu cliente e as pessoas investigadas pela Operação Hammer-on. A advogada nega qualquer vínculo entre Beira-Mar e doleiros que atuam na fronteira do Brasil com Paraguai.

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