"Amor bandido", visita íntima e viagens pelo país: a história de um casal de presos no PR

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Di Vasca/UOL

Detida desde o início de julho na carceragem de uma delegacia de polícia em Maringá (436 km a noroeste de Curitiba), a jovem H.R.M., 20, ganhou nos últimos dias o direito de fazer visitas íntimas ao marido, M.A.L.F.J., 34, também preso na cidade. É o fruto de um pedido expresso por ela a um advogado que a atendeu na cadeia, levado à Justiça pela Defensoria Pública do Paraná.

A decisão, proferida por uma juíza da cidade no último dia 9, já foi enviada ao Departamento Penitenciário do Paraná (Depen), que agora cuida dos detalhes burocráticos para que o encontro ocorra. Para isso, será necessário que um carro policial leve H. da delegacia em que está, não muito distante do centro da cidade, e faça o percurso de pouco menos de 12 quilômetros até a Casa de Custódia de Maringá, quase na divisa com o município de Paiçandu.

Por "motivos de segurança", a secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná não informa em que dia o transporte será feito nem qual o custo dele. O Depen, por seu turno, relatou que autorizações do tipo não são incomuns. Já o Tribunal de Justiça do Paraná, questionado a respeito pela reportagem, disse não manter registros de quantas visitas íntimas entre presos já foram permitidas no Estado.

"Quero ver como vão fazer com a escolta [policial]. Às vezes, falta até para audiências, que têm de ser remarcadas", ponderou a advogada constituída por H., Cristiane Aparecida de Miranda.

"Amor bandido" surgiu de telefonema aleatório

H. e M.A. já não eram réus primários quando foram condenados em sentença proferida em maio passado pelo juiz Joaquim Pereira Alves, por 11 crimes de furto cometidos em Maringá. 

A morena, de ensino fundamental incompleto, cabelos longos e, nas imagens que a polícia divulgou dela em ação, sempre bem vestida e maquiada, furtava telefones celulares em balcões de lojas da cidade, o que lhe valeu o apelido, cunhado pela polícia, de Miss 155 (o número do artigo do código penal que designa o crime de "Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel"). 

Os aparelhos eram revendidos por ela e M.A. --um homem mulato e magro, com ensino médio completo-- numa praça no centro de Maringá.

É aí que a história de H. e M.A. tem um ponto comum à de milhares de presos brasileiros: ambos são usuários de crack. "Ia tudo pro traficante", afirmou M.A, em depoimento prestado meses atrás ao juiz Alves, ao qual a reportagem teve acesso. A polícia, por sua vez, diz que o casal chegou a faturar R$ 5.000 por dia com os furtos. 

Juntos há quatro anos, H. e M.A. têm um filho, que vive em Curitiba com os pais dela. Os dois se conheceram quando ele cumpria pena por roubo em Piraquara, região metropolitana de Curitiba. 

"Certo dia liguei para um telefone aleatório e ela, que na época tinha 15 anos, atendeu. Começamos a conversar e pintou um lance. Foi amor de cadeia, amor bandido, coisa forte mesmo", ele disse, quando foi preso, segundo reportagem do portal "O Diário.com", de Maringá. "Ela gosta tanto de mim que assume as broncas sozinha."

Divulgação
Casa de Custódia de Maringá, no Paraná

1.800 km, sem ter carro, para um encontro

Solto e com problemas com drogas, M.A. resolveu sair da cidade e ir a Maringá, onde nasceu e até hoje vivem os pais. "Mas ela veio atrás e não se deu com minha mãe, minha família, daí saiu da casa, e eu saí também", ele narrou ao juiz. Passaram a morar em hotéis baratos da cidade --por vezes, dormiram na rua.

Antes da mudança para Maringá, H. fora presa na pequena cidade mineira de Campos Altos (264 km a oeste de Belo Horizonte), por porte de drogas. Segundo M.A. disse ao magistrado, ela recebeu a promessa de um pagamento de R$ 5.000 para levar uma quantidade de maconha do Paraguai a Minas Gerais. "A gente estava junto em Foz do Iguaçu, eu disse pra ela que era loucura. Ela fechou o pau comigo na rodoviária e foi. Eu acabei indo pra Bahia, de carona", relembrou. 

Quando soube da prisão da mulher, ele estava em Sergipe. "Também tinha sido preso, estava só com a roupa do corpo. Levei três meses para chegar onde ela estava, de carona, a pé, dormindo na rua, na estrada", ele narrou ao juiz. A distância entre Aracaju, capital sergipana, e Campos Altos é de 1.800 km --ou uma viagem de quase 24 horas, se feita de carro, segundo o Google Maps. 

H. acabou solta, em Minas Gerais, sem ter de responder a processo.

Crimes como "meio de vida"

H. e M.A. foram presos em Maringá em 26 de julho de 2016, uma terça-feira. Ela acabara de furtar a bolsa de uma cabeleireira. Imagens divulgadas pela imprensa local mostram que, ao ser abordada pela polícia, H. se atira ao chão --depois, os policiais diriam que ela "fingiu um desmaio". Já M.A. não esboçou reação. 

Portais de notícias locais registraram que, na delegacia, H. --vestida com uma calça justa preta estampada com desenhos de flores vermelhas, blusa de lã branca, echarpe salmão atada ao pescoço e brilhantes sapatos brancos com fivela nos pés-- manteve um sorriso no rosto e trocou beijos com o marido.

M.A., por seu turno, trajava uma bermuda jeans, uma surrada camisa polo preta e verde. O contraste era o par de vistosos tênis Nike que tinha nos pés.

"Ela é uma menina de aparência. Se eu entrar [numa loja], [com] essa cara de drogado, vão prestar atenção em mim, chamar a polícia. Mas nela não", relatou M.A. ao juiz, como que explicando a estratégia da dupla.

Um dia depois, a delegacia local já elencava 17 furtos cometidos pelo casal. O modo de agir era sempre o mesmo: sem chamar a atenção, H. aproveitava momentos de distração para tomar celulares deixados sobre o balcão de lojas. Na saída, entregava os aparelhos ao marido, que sempre estava por perto, e em seguida se separavam.

Em agosto, o Ministério Público denunciou os dois por "furto em concurso material" e afirmou que os crimes "cometidos em série" eram "usados pelo casal como meio de vida".

Na sentença que proferiu em maio passado, o juiz Alves condenou o casal a quase três anos e meio de prisão. M.A., que já fora condenado anteriormente pelo mesmo crime, ficou em regime fechado. Já H., mesmo também condenada por ameaça, ganhou direito ao aberto. Não demorou a ser presa novamente, em 4 de julho último. Estava num supermercado da cidade quando a vítima de um furto recente de celular a reconheceu.

Ao revistarem a bolsa dela, policiais encontraram uma caixa de bombons, um frasco de xampu e outro de condicionador para cabelos. 

"H. foi presa novamente por furto e agora passa a responder ao terceiro processo pelo mesmo crime", explicou Rafael Thomasi, que defendeu a jovem como advogado dativo (nomeado e custeado pelo Estado quando o réu não tem condições de bancar a própria defesa) em dois dos processos contra ela. Foi Thomasi quem ouviu, de H., o pedido para a visita íntima.

"Acha que eu saio rápido daqui?"

"Estou melhor preso do que na rua. Eu queria que ela estivesse aqui. Quando a gente está limpo, pensa melhor. Hoje, 'seo' Joaquim, pela primeira vez sinto vontade de parar. Porque não é normal. Perdemos tudo. A gente leva tempo para conseguir, mas, para perder, é rápido. Não tenho ninguém, minha família se afastou de mim", disse M.A. ao juiz, num laivo de arrependimento. 

Já H. tem mais uma ação penal aberta contra si. Já foi denunciada, pelo Ministério Público, novamente por furto. O novo processo também corre na terceira vara criminal de Maringá, onde trabalha o juiz Joaquim Pereira Alves. 

Quando foi presa pela primeira vez em Maringá, a moça perguntou ao advogado: "O senhor acha que eu saio rápido daqui?". Enquanto aguarda o novo julgamento, ela está presa preventivamente --isto é, sem prazo para a soltura.

O que dizem as defesas

"O último furto de que H. é acusada foi de coisas pequenas coisas --um xampu, alguns chocolates. Cabe aí o princípio da insignificância", disse a advogada dela, Cristiane Aparecida de Miranda, que por conta disso irá tentar a liberdade da cliente --os processos a que ela responde têm audiências marcadas para o fim deste mês e para janeiro próximo, respectivamente. H. confessa alguns delitos que cometeu, mas diz sofrer de cleptomania (distúrbio psicopatológico que gera a compulsão por furtar objetos). Ela tem a intenção de se tratar da doença quando sair.

A defesa dele recorreu ao Tribunal de Justiça, a segunda instância, da condenação imposta pelo juiz Alves. "Mesmo se tratando de pessoa próxima e cujo vínculo afetivo nos permite presumir elevado grau de conhecimento recíproco, não é cabível esperar ou crer que M.A. era onisciente quanto às atitudes de H.", argumentou o advogado dativo dele, Ricardo Palamar, no recurso entregue em junho passado. Ele pede que o cliente seja absolvido ou, ao menos, que sua pena seja reduzida pela metade.

No depoimento que prestou ao juiz, acompanhado de um advogado, negou que participasse dos furtos da namorada, mas admitiu ter conhecimento deles.

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