Moradora dá o sangue e vira símbolo para famílias desalojadas por vila olímpica no Rio

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Bruna Prado/UOL

    Maria da Penha Macena, moradora da Vila Autódromo, virou símbolo no Rio

    Maria da Penha Macena, moradora da Vila Autódromo, virou símbolo no Rio

Maria da Penha Macena é uma mulher sorridente e falante. Nem parece pensar nos dois anos que viveu sob ameaça de ter seu teto demolido.

Mas a lembrança não vai se esmaecer. Seu rosto sereno, ao lado de outras duas moradoras da comunidade de Vila Autódromo, estampa um painel na Gamboa, na zona portuária do Rio, próximo ao Museu do Amanhã. A obra é de um grupo de artistas uruguaios.

A paraibana Penha, 52, chegou ao Rio aos seis anos de idade e se tornou um dos símbolos de resistência e luta por moradia. Ela permanece na comunidade que existe há 26 anos ao lado do que hoje é o Parque Olímpico, na divisa da Barra da Tijuca com Jacarepaguá, na zona oeste.

Também estão lá outras 19 famílias, mas a vila já abrigou 650 lares antes de entrar na mira da prefeitura por estar no "meio do caminho" para o acesso ao complexo com 1,18 milhão de m² composto por arenas, centro de tênis, parque aquático, velódromo e dois hotéis.

As famílias removidas foram indenizadas ou conduzidas para o conjunto Parque Carioca, do Minha Casa, Minha Vida, em Jacarepaguá, construído especialmente para esses moradores.

Bruna Prado/UOL
Maria da Penha é retratada em grafite na Gamboa, na zona portuária do Rio

"As remoções começaram verdadeiramente em março de 2014 e terminaram em maio de 2016, quando a última casa foi demolida. As nossas casas foram construídas em dois meses e meio. Foi rápido porque tinham pressa para mostrar que a comunidade estava urbanizada", diz Penha.

A disputa para ficar na comunidade tirou o sono e sangue de Penha, literalmente. Em uma das tentativas de reintegração de posse, ela teve o nariz quebrado por um golpe de cassetete. Outros sete moradores foram agredidos pela Guarda Municipal. Era a tarde do dia 3 de junho de 2015.

"A oficial de Justiça chegou e fomos para rua para saber o que estava acontecendo. Era para levar uma família que estava sendo desapropriada, mas não tinha sido avisada. Falamos que tinha que negociar. Levou quase um dia inteiro. Chegou um momento em que ela disse que tinha que derrubar. Nós dissemos: 'Só se bater em todo mundo aqui'. Fizemos um cordão humano", conta.

"A guarda começou empurrando, depois que começaram a bater. Fui uma das primeiras machucadas. Um cassetete quebrou meu nariz. Comecei a sangrar, quem estava de fora começou a jogar pedra, foi um alvoroço. Foram sete feridos, mas não levaram a família."

Penha diz acreditar que aquele dia foi decisivo para a prefeitura decidir reurbanizar a área com a permanência das 20 famílias.

"Foi um dos piores dias das nossas vidas. Mas, atrás de uma coisa ruim, vem sempre uma muito boa. Acho que é por causa daquele dia que ainda estamos aqui. Tivemos a certeza de que governo não podia nos tirar na marra. O povo junto, unido e forte vence. Aquele dia nos fortaleceu muito mais", afirma a moradora.

"Essa terra era nossa por dois direitos seguidos: todos nós temos direito à moradia, ninguém nasce para viver no relento, e essa terra tinha sido doada pelo Estado. Tínhamos uma concessão de uso e uma lei complementar que diz que essa terra é área de especial interesse social para fins de moradia popular", explica.

Bruna Prado/UOL
Cartilha produzida no Japão que conta a história da comunidade no Rio

"Queria uma casa com dignidade"

Penha nasceu em Itabaiana, na Paraíba, de mãe solteira e analfabeta. Ela foi criada pela avó enquanto a mãe vinha para o Rio para tentar dar uma vida melhor aos três filhos. Aos seis anos, Penha foi morar com a família na Rocinha. 

"Comecei a trabalhar aos oito anos lavando copos em um bar na Rocinha. Depois comecei a servir pinga aos clientes. Trabalhei em pastelaria, vendi cachaça em porta de obra, tive barraca de comida e fui diarista. Quis sair da Rocinha porque queria mais espaço, lá é tudo muito apertado", diz. 

Casada e com uma filha, foi para a Vila Autódromo aos 26 anos, em busca de uma casa com um quintal para a criança brincar. "Queria que uma casa com dignidade, o ideal para toda pessoa", conta. "Já são 23 anos de luta."

O povo não é lixo para ser removido

Maria da Penha Macena, moradora da Vila Autódromo

Penha não está na luta sozinha. Tem a seu lado (inclusive no mural) Sandra Regina Damião, 54, e Dalva Crispino de Oliveira, 84.

São convidadas a dar palestras e falar da resistência para garantir a moradia.

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A moradora Dalva Crispino de Oliveira

Penha já esteve na ONU (Organizações das Nações Unidas), na Suíça, e em Washington, nos EUA. 

Também já foram procuradas por organizações no Japão, que receberá os Jogos Olímpicos de 2020, para falar do processo de remoção.

"Gravamos vídeos porque lá já estão acontecendo remoções por causa das Olimpíadas. A mesma coisa que aconteceu com a gente aqui acontece lá. E lá é pior porque lá pobre não tem voz, não ganham outra casa, eles têm que se virar", afirma Sandra.

"Acabamos sendo símbolo da luta de resistência no país e fora porque, na história das Olimpíadas, a vila venceu esse processo. São 20 famílias. Se olhar pelo lado de que saíram muitas, a vitória é pequena, mas, se olhar pelo lado do gigante que enfrentamos, é uma grande conquista", diz Penha.

"Briguei com meu marido quando ele disse que ia querer sair daqui", disse Dalva.

Penha também tem um novo projeto, que ganhou o nome de Museu das Remoções. "Estamos pensando em fazer um lugar para um acervo de fotos. A ideia é manter a história da comunidade antiga e continuar a nova história", explica.

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O grafite completo que homenageia Sandra Regina Damião (à esq.), Maria da Penha Macena e Dalva Crispino de Oliveira, no Rio

Elas terão mais uma vitrine quando for lançado o documentário "1000 Mulheres de Luta", do Grupo Daza.

"O objetivo é ser ferramenta de luta contra as remoções. O povo não é lixo para ser removido", diz Penha.

Sem árvores nem documentos

As 20 casas da vila destoam com a paisagem no entorno, cheia de edifícios altos, entre eles os hotéis do Parque Olímpico.

Quase todas as residências parecem cubos brancos, pois não têm telhados inclinados e de telhas, comuns no Brasil.

Cada terreno tem 180 metros, com sala, cozinha, dois quartos e área de serviço, além de quintal e uma área na frente do imóvel que serve de garagem.

"Gostamos das casas porque são as únicas que temos, mas, se pudéssemos escolher, seria um projeto diferente. Pediria quartos e cozinha maiores. Colocaria a janela da sala em um lugar diferente. As casas são quentes, a rua não tem arborização. Nós tínhamos muitas árvores antes", conta Penha.

O que ainda preocupa é a falta de documentação dos imóveis, que dificulta a realização de serviços como cabeamento de telefone, internet e até o recebimento de correspondências.

"Já tem mais de um ano e nada de documentação. Também não nos dão prazo", disse Penha, que afirmou que os moradores estão em contato com a Secretaria Municipal de Habitação.

Por meio de nota, a prefeitura informou que a Subsecretaria de Urbanismo está finalizando a elaboração do Projeto de Aprovação de Loteamento (PAL), que consiste no desenho da área, definição dos equipamentos coletivos da região, definição das ruas e a individualização das moradias com matricula em cartório e emissão do Habite-se.

"O processo é naturalmente burocrático e demorado. Principalmente o registro em cartório, que independe de uma ação específica por parte da prefeitura", diz a nota.

"Como se trata de uma nova área, as ruas do loteamento precisavam existir oficialmente para que os endereços das residências tivessem validade e código postal. Os títulos de propriedade serão entregues assim que todos os trâmites forem finalizados."

A conclusão, segundo o órgão, deve acontecer no primeiro semestre de 2018.

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