Artigo: Governo federal não tem ideia do que está fazendo no Rio

Carlos Fernando dos Santos Lima

Especial para o UOL

  • Adriano Vizoni - 31.out.2017/Folhapress

    O procurador-regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima

    O procurador-regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima

Ninguém duvida que o Estado do Rio de Janeiro faliu e que sua população está à mercê de criminosos – e não estou falando somente dos traficantes. Também ninguém vai questionar que medidas severas, das mais diversas naturezas, devem ser tomadas.

Talvez não a intervenção, que paralisa completamente qualquer discussão sobre reformas essenciais para a população. Ou, quem sabe, bem ao contrário, uma intervenção total, retirando completamente o poder do governo estadual, pois não é somente a segurança pública que vive um caos, mas também saúde, educação e justiça daquele Estado. É difícil dizer qual o caminho, pois não há planejamento ou algum estudo que suporte qualquer decisão.

Esse é o problema essencial do que estamos assistindo: o mais completo amadorismo na tomada de decisões e na condução de suas consequências. O governo não sabe no que se meteu, não tem ideia do que está fazendo e, principalmente, não tem claro qual é o resultado final daquilo que pretende.

As seguidas declarações revendo outras declarações indicam o completo improviso das autoridades federais. É claro que as Forças Armadas são uma instituição respeitada pela população e que possui reconhecida capacidade, pelo menos temporariamente, para lidar com missões de contenção difíceis como essa.

Entretanto, colocá-las da noite para o dia para simplesmente atenderem a um desejo de Temer, de resgatar sua popularidade e impulsionar sua candidatura à reeleição ou de manter o poder do MDB no Estado, é um abuso das funções relevantes que as Forças Armadas possuem.

Como disse o general Heleno no canal GloboNews, as Forças Armadas sabem que é esse o objetivo da missão que o comandante-em-chefe lhes passou. O cumprimento da missão norteia a forma de pensar dos militares e eles farão o melhor possível.

Entretanto, as Forças Armadas não são polícia e estão treinadas para missões cujos limites legais são bem mais elásticos que um cenário de segurança interna. São dois os perigos: o dela sair desacreditada por ter falhado na missão ou o dela sair desacreditada por ter ido além do que determina o estado de direito.

Sei que esses alertas não encontram ouvidos na população desesperada por uma solução. Mas é necessário dizer a verdade. Outras vezes, como nos planos econômicos Collor e Verão, também a população apoiou medidas extremas que não tinham qualquer possibilidade de dar certo. A esperança é da natureza do brasileiro. O tempo mudou, mas não os métodos dos políticos.

Precisamos mais que arroubos populistas, de planos eleitoreiros ou de farsas que somente se sustentam em pesquisas de marqueteiros. Precisamos estudar o fenômeno da segurança pública como um reflexo de um problema maior, que é a da falência moral do nosso sistema político. Alguém acredita que o problema do Rio de Janeiro será resolvido sem tratar do problema de nossas fronteiras, do tráfico de drogas e de armas? Será possível falar da solução da segurança pública sem falar da corrupção da política e do setor público?

Mais do que nunca gostaria de estar errado. Mas o que vemos é apenas a entrada das Forças Armadas em um lamaçal do qual não há possibilidade de sair limpa. E o pior. Não bastassem os tiros que virão de frente, ainda terão que se proteger do "fogo amigo" porque, sinceramente, eu não ficaria de costas para muitas autoridades daquele Estado, pois certamente hoje já estão sendo pensados esquemas para que tudo se mantenha como sempre foi.

Que Deus guarde os soldados brasileiros, e que as Forças Armadas consigam retornar incólumes para as atividades que lhe foram determinadas pela Constituição Federal.

*CARLOS FERNANDO DOS SANTOS LIMA é procurador-regional da República e integrante da Força-Tarefa da Lava Jato no MPF-PR

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