Homem assume guarda após ex-mulher devolver filho adotivo no MS

Daniela Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo Pessoal

    23.mai.2018 - Zilvan já tem a guarda de Henrique* e está no processo de adoção de Luiza*

    23.mai.2018 - Zilvan já tem a guarda de Henrique* e está no processo de adoção de Luiza*

O vidraceiro Zilvan Aves Loureira, 35, teve medo de perder o seu filho adotivo ao receber um telefonema. "Ligaram, do núcleo de adoção, falando que minha ex-mulher ia devolver meu menino, assim do nada."

Zilvan foi casado por 10 anos e não teve filhos biológicos. Em dezembro de 2015, decidiu, junto da então mulher, dar início ao processo de adoção de Henrique*, à época com 5 anos. Durante a separação, os dois acertaram que o menino continuaria a viver na casa da mãe. Em fevereiro deste ano, contudo, ela entrou em contato com o Núcleo de Adoção da Vara da Infância e Juventude de Campo Grande para avisar que havia desistido da adoção.

Durante a ligação com a assistente social, Zilvan diz ter sentido, de imediato, uma angústia ao se imaginar longe do filho. Até que foi informado que poderia pedir sozinho a guarda de Henrique. "Senti alívio, senti um monte de coisa. Ele sempre foi mais apegado comigo", lembra. Juízes da infância permitem que o processo de adoção siga seu curso, no caso de separação do casal. 

O vidraceiro afirma que se surpreendeu com a atitude da ex por não tê-lo avisado. Mas não faz críticas a ela pela desistência do menino. "Como todo casal, surgiram desentendimentos, mas eu sentia que ela não queria que o menino se aproximasse de mim", conta.

A juíza Katy Braun, coordenadora da Infância e da Juventude da Vara, diz que a mãe adotiva teve que pagar atendimento psicológico para Henrique durante seis meses, após a separação da criança. Caso Henrique estivesse sob a guarda do casal, a mulher poderia sofrer outras punições como pagar indenização ou pensão alimentícia.

Arquivo Pessoal
Zilvan formou uma nova família com os dois irmãos biológicos

Katy diz que costuma negar a habilitação aos pretendentes que dão sinais de que querem adotar como uma tentativa de salvar o casamento. "Nossas crianças não podem se prestar a esse papel. De fato, o casal fica mais unido no começo, mas depois a situação do casal volta ao normal", avalia. Para a juíza, a mãe pode ter percebido isso depois, quando sua relação com Zilvan já havia terminado. "Parece que ela não estabeleceu um vínculo com a criança. Para ela, só fazia sentido a maternidade naquele casamento."

O filho não chegou a ser entregue ao abrigo. A antiga mãe adotiva deixou Henrique em uma sala de audiência da Vara. "Ele abraçou a mãe, mas não chorou. Acho que estava em estado de choque", diz Katy. A juíza, uma psicóloga e uma assistente social fizeram companhia ao menino até Zilvan aparecer para buscá-lo.

O vidraceiro lembra ter chegado às 17h30 no local. "Eu não falei nada, só cheguei e bati na porta, e escutei o grito dele: 'Meu pai'." Quem estava na sala perguntou como o menino correu tão rápido, antes mesmo de ouvir a voz do pai. "Ele disse que tinha reconhecido o meu jeito de bater na porta", recorda Zilvan.

A história de Henrique, hoje com 9 anos, poderia ter sido marcada por mais um episódio de abandono neste Dia Nacional da Adoção. Contudo, Zilvan decidiu exercer uma paternidade dupla e adotar Luiza*, 11, irmã biológica do garoto. "Ele andava meio 'jururu' e me explicou que sentia muita falta da irmã, que vivia em um abrigo." Segundo a juíza, a menina não se adaptava a outras famílias adotivas por causa da distância do irmão.

Zilvan deu início ao processo de adoção da menina há um mês. Ele tem a guarda legalizada de Henrique desde janeiro deste ano. A juíza estima que até julho, após o estágio de convivência, o vidraceiro já poderá registrá-la como filha.

"É um pai solteiro que uniu dois irmãos", afirma a juíza. As crianças foram destituídas de sua família biológica por maus-tratos. Eles têm ainda outros três irmãos, também adotados, mas as famílias adotivas evitam o contato entre eles.

O desejo de Zilvan agora é que os dois o chamem de pai. "Por enquanto só ele me chama de pai, ela me chama de tio." A menina, no entanto, já reconhece a mudança de viver com o irmão, Zilvan e os avós em uma casa, com um pequeno quintal, em Campo Grande. "Acho que eu estou vivendo a melhor época da minha vida", diz ela. 

*Os nomes das crianças foram trocados

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