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Rio: policial é investigado por vazar informações sobre ação contra milícia

Preso é levado à Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro (RJ), durante a Operação Heracles - JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Preso é levado à Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro (RJ), durante a Operação Heracles Imagem: JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

20/12/2018 16h32

Um policial militar foi preso passando informações para criminosos sobre uma operação da polícia e das Forças Armadas contra a maior milícia do Rio de Janeiro iniciada na manhã desta quinta-feira (20). Ele é suspeito de ter avisado o grupo criminoso usando um telefone celular.

O vazamento de informações sobre operações de segurança por meio de policiais corruptos tem sido uma das grandes preocupações da equipe do interventor federal Walter Souza Braga Netto, segundo afirmaram ao UOL integrantes da cúpula da intervenção.

O policial preso não teve o nome divulgado. Ele pertencia ao Regimento de Polícia Montada (RPMonte), de Campo Grande, na zona oeste da cidade - uma das áreas dominadas pela organização criminosa alvo da operação.

O objetivo da ação desta quinta-feira é prender membros e enfraquecer a organização criminosa conhecida como "Liga da Justiça", a milícia chefiada por Wellington da Silva Braga, o Ecko.

A operação é realizada com participação da Polícia Civil, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público estadual, e do Comando Conjunto, o órgão que coordena as ações das Forças Armadas durante a intervenção.

Os agentes pretendem cumprir 97 mandados de prisão e 296 de busca e apreensão expedidos pela Justiça. Até o início da tarde desta quinta-feira, 27 suspeitos haviam sido presos e não foram registrados confrontos entre criminosos e agentes do estado.

Também foram apreendidos carros, armas, drogas e uniformes da PM, além de cigarros contrabandeados. 

O policial flagrado vazando informações não era um dos alvos iniciais da operação. A polícia investiga se as informações passadas por ele aos criminosos influenciaram no resultado da operação.

Cerca de 1.700 militares das Forças Armadas participaram de ação contra a milícia - JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Cerca de 1.700 militares das Forças Armadas participaram de ação contra a milícia
Imagem: JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Procedimentos de segurança

Quando vão participar de operações, os militares das Forças Armadas não são autorizados a portar celulares, para evitar vazamentos de informações, tais como os locais de atuação, o horário e os objetivos. Quem algum descumpre a norma e é visto com um aparelho, vira alvo de investigação.

Além disso, quando participam de operações, os militares de patentes mais baixas das Forças Armadas entram em blindados e caminhões de transporte sem saber para onde estão indo - eles têm apenas informações sobre medidas que terão que cumprir no terreno, como dominar a área onde desembarcarem ou montar pontos de fiscalização.

Na prática, eles só percebem onde estão quando a ação já está em andamento. Também não sabem o que os colegas das outras unidades estão fazendo. A ideia é evitar que um militar que tenha sido corrompido vaze informações. Apenas um pequeno número de oficiais tem informações completas sobre o que está de fato ocorrendo.

Porém, esses procedimentos de segurança nem sempre são adotados pelas unidades da Polícia Militar. Uma das ações de bastidores da intervenção tem sido implantar nas polícias procedimentos semelhantes aos adotados nas Forças Armadas para evitar vazamentos de informações.

Operação

A ação iniciada na manhã desta quinta-feira foi batizada de Heracles e tem a participação de 1900 agentes - a maior parte (1700) militares do Exército. As equipes atuam na zona oeste e norte da cidade e também em municípios da Baixada Fluminense. 

Na ação também foram empregados helicópteros e mais de 160 veículos das Forças Armadas - entre eles blindados Guarani, jipes de transporte Maruá e caminhões de transporta de tropas.

Segundo o Ministério Público, um dos principais alvos da operação é prender o chefe da organização criminosa - o miliciano Wellington da Silva Braga (Ecko) que está foragido. Ele já foi alvo de outras operações da Polícia neste ano, mas conseguiu fugir.

Também foram expedidos mandados de prisão contra Vagner da Silva e Aguimar Barbosa Gomes, apontados pelo MP como integrantes da alta cúpula da organização criminosa.

 "Os outros denunciados atuam majoritariamente na função de braço armado do bando", disse o MP.

Segundo as investigações, o grupo de Ecko começou atuando na zona oeste do Rio e estendeu o seu domínio até a Baixada Fluminense através de um grupo de gerentes da milícia. Eles atuam em diversas comunidades entre elas a favela do Aço, do Rodo, de Antares de Três Pontes, em áreas de Paciência.

A milícia no Rio é formada na maior parte por ex-policiais e policiais corruptos que dominam regiões pobres e exploram a população e comerciantes com cobranças ao estilo mafioso de "taxas de segurança".

Moradores e comerciantes são obrigados a pagar para o grupo paramilitar exercer sua atividade. Caso rejeitem a "proposta", sofrem retaliações que variam de violência física a assassinato.

A milícia também age com grilagem de terras e realiza a comercialização irregular de serviços como TV a cabo e fornecimento de gás.

"Com essas ações, controlam bairros inteiros", afirmou o Ministério Público em nota. O grupo é denunciado por organização criminosa e os mandados são de prisão preventiva para todos os denunciados.

A operação desta quinta é um desdobramento da operação Freedom realizada no início do mês, quando 13 suspeitos foram presos.

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