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Incêndio em favela na zona leste de SP deixa um homem morto

Camila Rodrigues da Silva

Do UOL, em São Paulo

2019-03-24T16:43:48

2019-03-25T14:27:16

24/03/2019 16h43Atualizada em 25/03/2019 14h27

O incêndio da favela do Cimento, que consumiu dezenas de barracos na noite de sábado (23) na zona leste de São Paulo, deixou ao menos uma pessoa morta. A prefeitura informou, por meio de nota, que um suspeito de envolvimento no incêndio foi preso.

Um homem não identificado foi internado em estado grave com queimaduras na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital particular Salvalus, na Mooca, às 20h30, uma hora depois do início do fogo na comunidade. De acordo com o hospital, ele não resistiu aos ferimentos e morreu no início da tarde de hoje.

A favela ficava na radial Leste, próxima ao viaduto Bresser. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o fogo começou por volta das 19h30 e foi controlado às 22h. O incêndio aconteceu horas antes de uma reintegração de posse ser cumprida pela PM na favela, que terminou de ser desocupada pela manhã.

Segundo o hospital, um boletim de ocorrência foi registrado e o corpo da vítima, enviado para o IML (Instituto Médico Legal).

A vítima foi vista por moradores desabrigados correndo em direção ao hospital. Ele estaria muito machucado, segundo testemunhas ouvidas pelo UOL. Nenhuma delas conhecia o homem, descrito como um "senhor entre 40 e 50 anos".

Até a manhã de hoje, a prefeitura e a PM divulgavam que o incêndio não havia deixado mortos ou feridos. Após o UOL revelar a existência da vítima, a prefeitura emitiu uma nota em que lamenta o ocorrido.

Ainda de acordo com a prefeitura, um suspeito de ter causado o incêndio foi preso. Ele tinha um galão com restos de combustível e estava próximo ao local do incêndio. Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) confirmou a prisão.

Moradores reclamam de truculência

Danilo Verpa/Folhapress
Homem tenta resgatar pertences em meio a escombros de incêndio na favela do Cimento, na zona leste de São Paulo Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Revoltados com a reintegração do local, moradores chegaram a bloquear, com barricadas, a radial Leste no sentido centro na noite de ontem, minutos antes do início do fogo. Eles foram contidos pela Força Tática da PM.

Ao mesmo tempo, outras pessoas se encaminhavam para outra ocupação, na rua do Hipódromo, a duas quadras da favela. Foi nesse ínterim, logo após o incêndio e ainda sob a tensão do protesto, que agentes da Força Tática começaram a circular nas ruas dos arredores e, segundo relatos, atacaram pessoas que se deslocavam entre as duas favelas.

Ao menos quatro homens relataram que teriam sido vítima de violência policial logo depois do incêndio.

O autônomo Soleo da Conceição Ramos, 21, tomou um tiro de bala de borracha na perna --ele já tinha marcas de balas de borracha de outros despejos.

"Primeiro chegou o [Batalhão de] Choque. Não fizeram nada. Mas já tinham quatro viaturas da Força Tática na radial Leste, e pediram apoio, falando que a situação estava incontrolável. O pessoal estava correndo, olhando para trás chorando, todo mundo desesperado", relatou.

O carroceiro Carlos Henrique Prado de Farias, 31, disse que estava indo do local do protesto para casa quando foi abordado na rua do Hipódromo. "Um magrinho deu com o cassetete na cabeça e um grandão, nas costas. Ainda pegaram minha carteira do meu bolso e nem jogaram na rua depois."

Em nota a SSP informou que a "PM não compactua com desvios de conduta de seus agentes e orienta que quaisquer denúncias sobre a atuação dos policiais sejam formalizadas por meio da Corregedoria da Polícia Militar".

Causa do fogo é desconhecida

Segundo a Polícia Militar, o fogo na ocupação irregular começou por volta das 19h30. As causas são desconhecidas e estão sendo apuradas, segundo a Secretaria de Assistência Social.

Procurada pela reportagem sobre as reclamações de truculência policial na ação, a assessoria de imprensa da PM não respondeu até a publicação desta reportagem.

Os bombeiros foram acionados e conseguiram controlar as chamas cerca de duas horas depois, mas vários barracos de madeira ficaram destruídos. Nas calçadas, era possível ver móveis queimados, ainda fumegando, metais retorcidos e restos de lixo espalhado.

A desocupação do local foi concluída na manhã de hoje. De acordo com a Prefeitura, 216 famílias que viviam no local foram cadastradas para serem levadas a abrigos e inclusas em programas sociais de moradia. Entre elas, 66 crianças.