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Menor suspeito apenas "fantasiou" sobre massacre em Suzano, diz defesa

Julien Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo
20.mar.2019 - Crianças participam de abraço coletivo no prédio da escola estadual Raul Brasil, em Suzano, que foi palco de um massacre há uma semana Imagem: Julien Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

2019-03-25T12:58:33

25/03/2019 12h58

A defesa do menor apreendido sob a acusação de ser um dos mentores do massacre de Suzano disse hoje em São Paulo que o adolescente apenas "fantasiou" sobre o atentado, e nunca fez nada para executar o crime.

O advogado Marcelo Feller, que defende o jovem, afirmou que ele e Guilherme Taucci, um dos assassinos, "fantasiaram" sobre um massacre na escola Raul Brasil durante conversas no ano de 2015. No entanto, segundo Feller, as provas do caso não permitem dizer que o jovem ajudou a planejar o ataque ou mesmo que sabia que o crime ocorreria.

"Sim, ele fantasiou com o Taucci em entrar na escola e atirar em pessoas. E com outros garotos também", disse o advogado. "Não há prova de que Taucci tiraria isso do campo das ideias."

O advogado rebateu parte das acusações citando literatura especializada sobre ataques similares ao de Suzano, defendendo que seu cliente não tem o perfil comum a atiradores.

"Se de fato o adolescente estiver envolvido, seria o primeiro caso da história de alguém que participou de um massacre e não confessou", afirmou.

Ainda segundo Feller, é comum que atiradores falem de suas fantasias para conhecidos, mas "na maioria das vezes ninguém os leva a sério".

Suspeito "angustiado" com ataque

O advogado também rebateu a acusação, feita pela polícia, de que o jovem queria ter participado do atentado. Feller disse ter ouvido de seu cliente que, no dia em que ele e Taucci foram a um estande de tiro de airsoft em um shopping, o atirador perguntou ao garoto se ele já tinha pensado em se matar. O adolescente disse crer que, por ter dado uma resposta negativa, Taucci não o convocou para o crime.

Ainda de acordo com Feller, a informação sobre a visita ao estande, dias antes do massacre, foi dada à polícia pelo próprio adolescente, que também teria entregado espontaneamente seu celular às autoridades e respondido a tudo o que perguntam -- o advogado chegou a dizer que o suspeito é um "sincerida", ainda que suas falas possam ser "mal vistas".

Outra acusação refutada pela defesa foi a de que mensagens enviadas pelo adolescente a Taucci logo depois do massacre serviriam como prova de seu envolvimento. Segundo Feller, se o jovem estivesse envolvido, não teria mandado as mensagens.

O advogado também leu mensagens enviadas pelo adolescente logo após o crime, a outros amigos, em que o rapaz admite ter conversado com Taucci sobre um ataque anos antes, mas demonstra angústia ao ver que o massacre tinha acontecido de fato.

"Não sei como eu conseguia pensar nisso", disse o suspeito em um grupo de WhatsApp, de acordo com seu advogado.

Outra prova questionada foi o coturno encontrado na casa do adolescente, do mesmo modelo usado pelos assassinos. Segundo Feller, enquanto os atiradores compraram os calçados de uma só vez em novembro, seu cliente ganhou os coturnos de um tio em fevereiro.

Investigação sobre conta no Twitter

Feller disse que a defesa busca na Justiça a quebra do sigilo de uma conta no Twitter supostamente usada por Taucci, na qual ele indica que planeja um crime do tipo em posts iniciados em abril de 2018.

Segundo o advogado, seu cliente e Taucci estavam brigados nesta época, e só retomaram o contato em outubro. Assim, caso se comprove que o Twitter era do assassino, seria uma forma de afastar o envolvimento do terceiro suspeito.

Feller também afirmou que ainda busca na Justiça o acesso às mensagens trocadas entre Taucci e o outro assassino, Luiz Henrique Castro, assim como a conversas entre os atiradores e terceiros. Segundo o advogado, a polícia não liberou a íntegra destes diálogos.

Feller criticou o vazamento de provas à imprensa de forma "incompleta e distorcida", e lembrou que, por envolver um menor de idade, o processo corre sob sigilo.

Amanhã, testemunhas de acusação serão ouvidas no Fórum de Suzano. A Polícia Civil ainda procura quem vendeu a arma para os autores do massacre.