Topo

Exército acabou com minha família, diz sobrinho de músico metralhado no RJ

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

08/04/2019 13h08

"Imagina uma criança ver o pai baleado ... tentando respirar? Ele pede para eu ajudar o pai dele! O que eu respondo? Não tem resposta para isso. O Exército acabou com a minha família", desabafou ao UOL o sobrinho e filho de criação de Evaldo Rosa dos Santos, de 51 anos, que morreu após ter o carro metralhado por militares do Exército na tarde de ontem em Guadalupe, na zona norte do Rio.

Daniel Rosa, 29, trabalha com entrega de móveis e é sobrinho da mulher de Evaldo, Lucia Rosa dos Santos, e tinha uma relação de pai e filho com o tio. Lucia estava no carro ao lado do marido, mas escapou ilesa. O sogro de Evaldo, que estava no veículo, e um pedestre ficaram feridos. O estado de saúde dos dois não foi divulgado.

Reprodução/Facebook/Remelexo da Cor
Imagem: Reprodução/Facebook/Remelexo da Cor
"Ele me deu muito carinho. Foi mais que um pai pra mim. Era ótimo, boa pessoa, me ajudava muito, me dava conselhos, dedicava a vida à família. Ele me empurrava pra frente e me dava puxão de orelha quando fazia algo de errado. Agora vou ficar sem meu pai?", questionou Daniel muito emocionado.

Evaldo foi o primeiro cavaquinhista do grupo de samba Remelexo da cor. Neste domingo, o grupo publicou em sua página oficial no Facebook uma homenagem ao músico que era conhecido também como "Manduca".

"Olho pro céu e peço a Deus que mande a paz do sentimento verdadeiro dos mortais. Aqui embaixo o pesadelo está demais, demais, demais, demais, demais. Neste domingo, perdemos um grande amigo, o primeiro cavaquinista do Grupo Remelexo da Cor (Manduca). Deixamos aqui um abraço é nosso sentimento para todos familiares!", postou o grupo

Vascaíno e apaixonado por samba, o músico trabalhava também com ornamentação de cenários e como segurança. Um amigo de adolescência, Alexsander Conceição, 41, disse ao UOL que estudou música por influência do amigo.

Os dois se conheceram ainda jovens na comunidade do Muquiço e continuaram amigos mesmo após deixarem a favela e se mudarem para o bairro de Marechal Hermes, na zona oeste do Rio.

Reprodução/Facebook/Remelexo da Cor
Imagem: Reprodução/Facebook/Remelexo da Cor
"Ele que me incentivou a estudar música. Integramos juntos o grupo Remelexo da Cor. Ele no cavaquinho, eu no violão. Ele era um cara muito trabalhador, trabalhava muito mesmo, fazia ornamentação de cenário, tocava à noite, depois acabamos deixando o grupo, pois a rotina ficou muito pesada. Tivemos filho e não deu para conciliar, mas o grupo continua", contou o amigo.

Evaldo era casado havia 27 anos e tinha um filho de sete anos, outro de criação de 29 anos e uma afilhada de 13 anos.

Ele era um excelente pai, excelente marido. Nunca brigou. Não tinha desavença com ninguém. Por causa do grupo de samba era muito conhecido na região. Era um ser humano espetacular

Alexsander Conceição, amigo de Evaldo Rosa dos Santos

Família abalada

Amigo da família, Conceição contou ainda que Lúcia Rosa está muito abalada e não conseguiu voltar para casa depois do ocorrido. "Ela não quis entrar em casa, precisou ir para o hospital porque estava passando muito mal. É um choque, né? O filho deles está aos cuidados dos avós", disse.

O corpo de Edvaldo continua no IML (Instituto Médico Legal) e deve ser enterrado amanhã, segundo informações da família. Ainda não foram definidos local e o horário do velório.

Carro metralhado por engano

Edvaldo Rosa teve o carro metralhado por militares do Exército na tarde de ontem, quando passava pela estrada do Camboatá. O CML (Comando Militar do Leste) alegou que os agentes foram atacados a tiros e revidaram atirando contra o veículo no qual Rosa estava com a família a caminho de um chá de bebê. No entanto, nenhuma arma foi encontrada no automóvel e a família nega que Evaldo seja criminoso.

O delegado responsável pelas investigações, Leonardo Salgado, disse em entrevista à TV Globo, que tudo indica que os militares atiraram por engano. Mais de 80 disparos foram realizados contra o veículo. O Exército assumiu a investigação, ouviu 12 militares e anunciou na manhã de hoje a prisão de 10 militares.

Mais Cotidiano