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Atacado desde 1º dia no cargo, presidente da CNBB quer apaziguar polêmicas

Dom Walmor de Oliveira, novo presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) - Alexandre Rezende / UOL
Dom Walmor de Oliveira, novo presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
Imagem: Alexandre Rezende / UOL

Vitor Pamplona

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

08/06/2019 04h01

Resumo da notícia

  • Novo chefe dos bispos no país recebe críticas de ambos os lados do espectro politico
  • Internamente, dom Walmor é visto como sacerdote de prestígio com o Vaticano
  • Ao UOL, presidente da CNBB fala sobre igreja, ideologia de gênero e política no país

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) elegeu como novo líder um defensor da principal doutrina moderna da Igreja Católica, desenvolvida para afastar padres e fiéis dos totalitarismos do século passado.

Na era das polarizações, a primeira tarefa do eleito, dom Walmor Oliveira de Azevedo, tem sido apaziguar divergências internas e dar declarações sobre seu posicionamento político. Para entender o significado da sua eleição, o UOL ouviu estudiosos da Igreja e pessoas próximas ao religioso, que há menos de um mês completou 65 anos de idade, os últimos 15 à frente da Arquidiocese de Belo Horizonte.

Aumentar a presença católica na internet e nas redes sociais faz parte da estratégia católica para conquistar fiéis que, nas últimas décadas, têm optado pela fé evangélica - segundo a última grande pesquisa sobre o tema no país, realizada pelo Datafolha, 44% dos evangélicos já foram católicos, e estes representam hoje no máximo 50% da população. Em Minas Gerais, onde a tradição católica é mais enraizada, a Igreja ainda fala que possui 70% dos fiéis.

Alexandre Rezende / Folhapress
Imagem: Alexandre Rezende / Folhapress
Ataque 24 horas após a eleição

Menos de vinte e quatro horas depois da eleição do novo presidente da CNBB, na tarde de 6 de maio, durante a 57ª Assembleia Geral dos bispos católicos realizada em Aparecida (SP), um vídeo intitulado "Eleições - A 'nova' cara da CNBB" aterrissou nas redes sociais. A publicação, vista mais de 210 mil vezes no YouTube e replicada no Twitter e Facebook por perfis que juntos somam mais de meio milhão de seguidores, foi o primeiro ataque direto e de largo alcance contra o escolhido para liderar até 2023 a mais influente das instituições ligadas à Igreja Católica no Brasil.

O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte é chamado no vídeo de "mais um que segue a teologia da libertação e seus desdobramentos, como a ideologia de gênero", acusado de não ter "apreço pela liturgia" e de ser "mais um petista, dilmista".

O autor das afirmações é o youtuber paranaense Bernardo Pires Küster, jornalista de 31 anos que ganhou notoriedade na internet e se tornou uma das principais vozes dos católicos de direita por fazer críticas recorrentes ao papa Francisco e à CNBB, considerada por ele promotora de uma "esquerdização" da Igreja no país.

"Os leigos no Brasil estão praticamente órfãos", afirma o youtuber, argumentando que em vez de "cuidar do povo católico", a grande maioria dos bispos se preocupa mais em "se envolver com grupos LGBT, em promover o petismo, associar-se com a CUT e o MST", citando a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Ex-aluno do escritor Olavo de Carvalho e uma das fontes de informação já recomendadas pelo presidente Jair Bolsonaro, Küster sinalizava que a nova direção da CNBB, a começar pelo presidente eleito dom Walmor, iria seguir como alvo preferencial da ala mais conservadora dos católicos, que defende uma instituição mais fechada em si, voltada para a vida religiosa, avessa a movimentos sociais e politicamente silenciosa.

Era o sinal para o arcebispo da terceira maior região metropolitana do país, agora à frente do que já foi chamado de "o sindicato dos bispos", se preparar.

Alexandre Rezende / UOL
Imagem: Alexandre Rezende / UOL
Ideologia de gênero

Depois de quase três semanas da sua eleição, período em que evitou entrevistas e viajou a Honduras para se reunir com o conselho de bispos latino-americanos, dom Walmor voltou ao Brasil. Quando recebeu o UOL na Cúria Metropolitana, sede da Arquidiocese de Belo Horizonte, ele já tinha falado ao longo do dia sobre pedofilia na Igreja e anunciado a produção de uma cartilha de tolerância zero contra padres pedófilos, prometido se oferecer para dialogar com o presidente Bolsonaro e afirmado que nem Igreja nem governo são donos da verdade.

Entre os ataques que vem sofrendo nas redes sociais, um em particular provoca resposta mais assertiva do arcebispo: o de que sua arquidiocese tolerou, ou mesmo promoveu, a ideologia de gênero. "A Igreja vai na contramão da ideologia de gênero", repetiu dom Walmor.

O tema já lhe custou muita saliva por causa da abertura, em 2017, de "pastorais da diversidade sexual" na paróquia São Francisco das Chagas e santuário São Judas Tadeu, na capital mineira. Segundo o arcebispo, os padres começaram a ouvir e ajudar famílias que se sentiam sofridas "em razão das situações de seus filhos". Então teriam criado a nomenclatura sem autorização da arquidiocese.

"Quando tive notícia, os padres foram chamados, orientados adequadamente e inclusive advertidos. E eu disse: essa autoridade para criar uma nomenclatura nessa perspectiva tenho eu, e o que vocês estão fazendo não tem esse nome. Nosso grande investimento, que é um trabalho importante, é nos centros de acolhida e escuta de famílias".

Comunista ou conservador? Depende de quem critica

Dom Walmor afirma que relativizar gêneros é negar a concepção antropológica da Igreja em relação ao homem e à mulher. No fundo, o que está em jogo é a ideia do matrimônio enquanto sacramento, uma exclusividade de casais heterossexuais. No entanto, desde que o papa Francisco disse a um homem gay que Deus o havia feito assim e o amava assim, o discurso católico mais atual sobre a homossexualidade é sempre acompanhado da palavra acolhimento.

Expressões como diversidade sexual e a própria ideologia de gênero, cujo conceito é disputado e até mesmo contestado nas universidades, são vetadas também por representarem bandeiras. "É algo dispersivo, mais uma questão cultural do que de identidade", defende o arcebispo.

A preocupação de evitar associações com o movimento LGBT alimenta críticas de setores da esquerda em Minas Gerais. Nos círculos universitários, o mesmo dom Walmor chamado de petista e comunista nas redes sociais está longe de ter a imagem de um progressista - seu bispo auxiliar e reitor da PUC Minas, dom Joaquim Mol, é a referência.

Alexandre Rezende/Folhapress
Imagem: Alexandre Rezende/Folhapress
Formação passou por Minas, Bahia e Roma

Baiano nascido na pequena Cocos, na época um distrito do município de Carinhanha, no oeste da Bahia, Walmor Oliveira de Azevedo foi estudar aos 11 anos em um seminário católico na cidade de Caetité (BA).

Esse caminho foi uma escolha muito pessoal. Muito curiosamente, desde os oito anos que passei a desejar ser padre.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Aos 16, atravessou a divisa com Minas Gerais e se mudou para Juiz de Fora. Lá concluiu a formação para se tornar padre, estudou filosofia e teologia na faculdade e foi nomeado pároco. Ao todo foram 20 anos na cidade mineira, interrompidos por uma temporada romana nos anos 80, para mestrado e doutorado no Vaticano.

Sua tese, Comunidade e Missão no Evangelho de Marcos, é um tratado de teologia bíblica que lhe valeu elogios na Igreja, onde é considerado grande "ouvinte da palavra de Deus". Íntimo das escrituras, foi um dos principais encarregados de uma nova tradução da Bíblia para o português, a partir de textos originais. A edição acaba de ser lançada pela CNBB.

Pesquisadores que acompanham o Vaticano veem na trajetória acadêmica de dom Walmor os traços de alguém preparado para assumir altos cargos na cúpula católica. Dois papas já o indicaram para congregações: Bento 16 o nomeou para a da Doutrina da Fé e Francisco o escolheu para a das Igrejas Orientais. Seu nome é visto em progressiva ascensão - ele era presidente da regional da CNBB responsável por Minas Gerais e Espírito Santo antes de assumir o comando da instituição.

Um "partido" dentro da Igreja

De característica pessoal de dom Walmor, o diálogo virou uma de suas principais bandeiras durante a Assembleia da CNBB que o elegeu presidente.

Sobretudo como postura a ser adotada em relação ao governo federal, que sob Jair Bolsonaro tem promovido a flexibilização do acesso às armas, proposto cortes de benefícios aos mais pobres na reforma da Previdência e contingenciado recursos da educação, pautas criticadas pela conferência nacional dos bispos.

Esses posicionamentos, expostos em documentos oficiais da CNBB, são usados por críticos para sustentar a tese da esquerdização. "Há grupos de diferente sensibilidade e estilo dentro da Igreja", diz Rodrigo Coppe Caldeira, professor de ciências da religião da PUC Minas. "Houve padres e fiéis que acreditaram em ideologias, tanto o socialismo quanto o fascismo. A igreja aprendeu. A tentação de assumir lados vai sempre existir, mas o foco é o evangelho e a doutrina social".

A doutrina social da Igreja é um conjunto de princípios que começou a tomar forma no final do século 19 e se desenvolveu nas décadas seguintes como resposta religiosa a ideologias como o marxismo - que produziu a famosa teologia da libertação -, o fascismo e o liberalismo econômico. "Ela questiona o individualismo liberal e também o coletivismo. Valoriza o sentido de comunidade, mas a coletividade também não pode passar por cima do indivíduo", explica Caldeira. Em síntese, é uma doutrina anti-totalitarismos, e isso inclui tanto os de Estado quanto os do mercado.

Se hoje há um "partido" majoritário dentro da Igreja Católica, é o da doutrina social. "A Igreja tem o seu ponto de partida quando se fala do social e do político na sua doutrina social", resume o novo presidente da CNBB.

Alexandre Rezende/Folhapress
Imagem: Alexandre Rezende/Folhapress
Nem esquerda, nem direita, nem centro

A eleição de dom Walmor foi interpretada como a vitória de um moderado, capaz de dialogar com todas as forças sociais e assegurar que a Igreja não fosse capturada pela lógica da polarização, que nos últimos anos redesenhou o mapa político do país. Isso o colocaria em tese no centro do espectro político, mas as correntes dentro da Igreja nem sempre espelham as disputas partidárias.

"O momento político não influenciou diretamente no processo de eleição da nova presidência da CNBB", afirma dom Joel Portella, bispo auxiliar do Rio eleito o secretário-geral da entidade.

"Como o próprio papa Francisco diz, a política é o modo por excelência da prática da caridade", afirma dom Walmor, buscando justificar por que não se considera nem de esquerda, nem de direita, nem de centro. "A Igreja e a CNBB não são partidárias. Os cidadãos é que são chamados a fazer sua opção política".

"Existe uma responsabilidade social que decorre da fé", argumenta dom Joel. "O desafio consiste em definir o que se entende por participação política". Nos últimos anos, a CNBB produziu documentos em que incentiva os católicos a participar de conselhos populares e eleições. "A Igreja não organiza bancadas. A Igreja não quer fazer lobby das suas coisas. A Igreja entra na discussão", afirma o arcebispo de Belo Horizonte.

Catedral assinada por Niemeyer

A obra mais visível da gestão de dom Walmor é a nova catedral de Belo Horizonte, cujo projeto assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer já foi chamado de "horroroso" e "bizarro". A construção deve ser concluída até 2022 - 40% da obra já estão de pé, segundo a arquidiocese dentro do orçamento total previsto de R$ 110 milhões a R$ 130 milhões.

Dom Walmor relata que em uma das conversas que teve com Niemeyer o arquiteto insistiu na construção da catedral: "Vai ser o lugar mais visitado de Belo Horizonte. E embora eu nunca tenha tido opção religiosa, minha família tinha enraizamentos religiosos muito profundos. O mundo está difícil. Se não fosse a religião, estaria muito, muito pior", teria dito.

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