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Prefeito de BH alega religião e veta peça "Nossa Senhora das Travestis"

1Alexandre Kalil participou da 22ª Parada do Orgulho LGBT de BH no domingo - FLÁVIO TAVARES/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
1Alexandre Kalil participou da 22ª Parada do Orgulho LGBT de BH no domingo Imagem: FLÁVIO TAVARES/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

19/07/2019 20h45

Cinco dias após participar da 22ª Parada do Orgulho LGBT de Belo Horizonte, no domingo (14), e fazer um discurso em nome do amor, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) proibiu hoje a performance "Coroação da Nossa Senhora das Travestis", que seria apresentada amanhã na Virada Cultural da capital mineira.

A encenação seria uma das 447 atrações previstas para a Virada, que acontece entre sábado e domingo em Belo Horizonte.

Kalil anunciou o cancelamento por meio de sua conta no Twitter. Paralelamente, a página oficial do evento informou que a performance tinha sido cancelada.

"Estou comunicando que o evento está cancelado", afirmou Kalil, que justificou a decisão alegando defender a liberdade religiosa.

Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém
Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte

Protesto da Arquidiocese

Alexandre Kalil decidiu pelo cancelamento após protesto da Arquidiocese de Belo Horizonte, que é ocupada pelo presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, e de uma petição online com milhares de assinaturas.

"Os cristãos e todos os homens de boa vontade vêm pedir o cancelamento do evento (...) A realização de uma blasfêmia (...) é uma afronta grave e direta contra o sentimento religioso dos cristãos, majoritários no Brasil e em Belo Horizonte", disse a petição dos internautas.

Para a arquidiocese, a performance seria uma "ação preconceituosa e criminosa de desrespeito à fé cristã católica".

"Não é admissível instrumentalizar Nossa Senhora, desrespeitando-a para se promover um evento que se diz cultural, mas, na verdade, configura-se em agressão à fé cristã católica. Não se cultiva tolerância a partir do desrespeito", disse a Arquidiocese.

Virada preza pela "convivência pacífica", diz organizador

Por meio de nota, o Instituto Periférico, uma OSC (Organização da Sociedade Civil) selecionada por edital para realizar a Virada Cultural de Belo Horizonte junto com a Prefeitura, mostrou-se resignado com a decisão do prefeito.

"Ao ser selecionada por meio de um chamamento público, em nenhum momento houve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer pessoa ou grupo. Mas na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida, optou-se, então, pela suspensão da atividade", afirmou.

"A Virada Cultural de Belo Horizonte é um evento que preza pela pluralidade e que tem como objetivo a convivência pacífica e harmônica entre todos os cidadãos", disse o Instituto Periférico.

Academia Transliteraria chama decisão de "censura"

Por meio de nota, a Academia Transliteraria, responsável pela performance "Coroação de Nossa Senhora das Travestis", protestou contra a proibição, a qual chamou de "censura", e explicou que não queria representar a mãe de Jesus Cristo.

"Nossa arte é festa porque em um mundo que não deseja nossos corpos vivos, seguimos vivos (...) assim surge a Coroação de Nossa Senhora das Travestis", disse a Academia. "Uma espécie de culto a todas as travestis, do nosso coletivo e fora dele, como forma de celebração da vida."

"Se a referência de base são alguns símbolos religiosos, por outro lado não se trata de substituir nenhum deles por essa nossa imagem. Menos ainda trata-se de negar a fé alheia. Não é a Senhora Mãe de Jesus aqui, mas uma outra Senhora, a nossa travesti, moça que é diariamente excluída do convívio social (olhada com horror e desdém), do mundo da arte e da cultura (condenada a nunca ter ideias ou opiniões), da economia (restando-lhe só a prostituição), das ruas (salvo as esquinas dessa mesma prostituição) e da religião (como se não fosse parte de um mistério maior da vida)", disse a Transliteraria.

Não queremos propor e nem mudar nenhuma religião. Não se trata de religião. Há aqui apenas um aspecto religioso no encontro com todos em volta de nós: a ideia de religar as pessoas, de coração aberto e na alegria
Academia Transliteraria

Prefeito discursou na Parada LGBT

Na Parada do Orgulho LGBT de domingo, Kalil arrancou aplausos da multidão ao fim de sua fala sobre igualdade e ocupação do espaço urbano, afirmando que "ninguém manda nesta cidade a não ser o povo de Belo Horizonte". Vestindo uma camisa rosa, disse: "virem para quem está ao seu lado e diga eu te amo (...) E fodam-se os que pensam o contrário".

Hoje, internautas afirmaram que o prefeito é contraditório: "ou você é simpatizante LGBT ou é devoto e católico. As duas coisas não dá pra ser. Prefeito político", disse um seguidor de Kalil no Twitter.

Mesmo apoiadores criticaram a mudança de postura do prefeito. "Apoiei sua eleição para BH, pois queria uma cidade melhor. Aí você sobe no palanque e estimula o público LGBT a mandar um "FODA-SE" aos conservadores. Essa blasfêmia nada mais é o público que te aplaudiu fazendo EXATAMENTE o que estimulou: DANDO UM FODA-SE AOS CRISTÃOS! Demagogo", escreveu outro internauta.

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