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4 meses
Perícia nega sinais de tortura e "tiro de misericórdia" no corpo de Adriano

Adriano Nóbrega era acusado de chefiar milícia no Rio de Janeiro - Reprodução
Adriano Nóbrega era acusado de chefiar milícia no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

14/02/2020 19h46Atualizada em 15/02/2020 10h00

Resumo da notícia

  • Legistas dizem que não encontraram sinais que confirmem uma execução
  • Miliciano foi morto em cidade no interior da Bahia no último domingo

Peritos que fizeram a necropsia no corpo do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega descartaram hoje a possibilidade de o ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) ter sido torturado e levado um terceiro tiro disparado por militares da Bahia. Os profissionais também negaram haver indícios que sustentem a tese de execução.

Nóbrega morreu em confronto policial na zona rural de Esplanada, a 170 quilômetros de Salvador, no último domingo (9).

As hipóteses foram levantadas pela revista Veja em reportagem que exibe fotografias do ex-PM morto e com base em análise de dois especialistas.

Segundo um dos médicos legistas ouvidos pela publicação, uma marca que aparenta ser um tiro na região do pescoço de Adriano pode ter sido provocada por um disparo conhecido como confere, ou "tiro de misericórdia", após a vítima ter caído no chão.

"A imagem me sugere ser de baixo para cima, da direita para a esquerda, em quase 45 graus. Esse disparo pode ser o que o povo chama de 'confere'. 'Confere' é o famoso tiro de misericórdia, efetuado quando não há a intenção de salvar a pessoa baleada", afirmou à Veja o médico legista Malthus Fonseca Galvão, professor da UnB (Universidade de Brasília).

Em entrevista coletiva na tarde de hoje, um dos médicos legistas que examinaram o corpo de Adriano no IML (Instituto Médico Legal) de Alagoinhas rechaçou as afirmações de Veja e as classificou como "levianas".

"Nós, da perícia, não especulamos. No laudo pericial, o perito médico legista responsável não encontrou sinais que confirmassem execução. Os sinais que nós encontramos confirmam, sim, um confronto policial", disse Câmara, que é diretor-geral do IML.

"Falta de conhecimento"

Além de afirmar que os disparos que mataram Adriano da Nóbrega foram feitos a curta distância, a cerca de 40 centímetros, Veja diz que as imagens divulgadas em sua reportagem mostram supostas queimaduras do lado esquerdo do peito do ex-policial. Os tiros, segundo a publicação, teriam sido feitos por um revólver ou uma pistola.

Câmara rejeitou a tese da revista ao afirmar que o ex-capitão foi alvejado a pelo menos a 1,5 metro de distância. "Isso demonstra mesmo uma falta de conhecimento do assunto. Essa questão de trinta, quarenta centímetros se refere à arma curta. Quando se trata de arma de alta energia, fuzil, você não usa isso aí. Fuzis deixam resíduos até mais de um metro. Você soma isso ao cano da arma e ao corpo da arma, o sujeito vai estar a dois metros de distância", disse.

Segundo ele, "tiro próximo é o que deixa zona de tatuagem, resíduos no corpo". "Tiro a distância não deixa resíduo. A gente não fala de distância exatamente porque só há uma maneira de você saber de onde foi dado o tiro. É você reproduzir aquele disparo, com a arma do crime e uma munição similar. Você faz vários disparos contra um alvo, vai recuando até você ter o mesmo tamanho de resíduo que você encontrou no corpo. Aí pode-se dizer: foi feito feito dessa distância. Fora disso é leviano", acrescentou.

Ferimento de causa desconhecida

Em outro trecho da reportagem, a revista também menciona um machucado na cabeça de Adriano, que teria sido resultado de uma coronhada de pistola.

Câmara, por sua vez, diz que o ferimento surgiu quando o miliciano já estava morto. Questionado, o diretor do IML não esclareceu o que pode ter provocado a lesão.

"É um ferimento em forma de quina. Aquele corte tem um ângulo de 90 graus pra baixo da região frontal da cabeça. É um corte feito depois da morte. Não há sinais vitais naquele corte. Então, provavelmente, em algum momento, entre o socorro e a funerária, bateram com a cabeça dele em algum lugar. É 'post mortem'", disse.

Câmara também rebate a interpretação do professor da UnB a respeito de uma marca cilíndrica cravada no peito de Adriano. Para o especialista, o ferimento seria decorrente de um cano longo, após o "disparo, quente", enquanto ele estava estava vivo.

"Aquela lesão no peito é uma equimose, não é uma queimadura, como disseram. Equimose é um sangramento na pele", disse o legista. "A equimose é causada por um instrumento de ação contundente. Ele bateu ali no peito, é um instrumento arredondado. Agora, eu não posso dizer se foi uma ação ativa, se alguém bateu nele com aquilo, ou se foi passiva, se ele caiu em cima de algo e ficou com aquela marca."

"Não houve terceiro tiro"

O também perito Alexandre Silva, do IML de Alagoinhas, afirmou que o laudo da necropsia comprova a versão de que dois tiros, e não três, foram disparados contra Adriano, conforme relato dos policiais que o localizaram.

"Não sei a cronologia exata dos tiros. Não houve terceiro tiro. Esse o suposto terceiro disparo, na verdade, é uma continuação do disparo que veio do tórax, cruzou o pescoço, saiu numa área que a gente chama de fúrcula [osso do peito] e passou raspando pelo pescoço. Com o mesmo primeiro disparo, houve uma reentrada no tórax do lado esquerdo", detalhou.

Silva afirmou que, durante a necropsia, encontrou apenas um dos projéteis que atingiram o corpo de Adriano.

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