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2 meses
Piauí: Surto de doença infecciosa mata cinco em prisão; 135 estão doentes

Cadeia Pública de Altos (PI), localizada na região metropolitana de Teresina - Sejus/Divulgação
Cadeia Pública de Altos (PI), localizada na região metropolitana de Teresina Imagem: Sejus/Divulgação

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

26/05/2020 21h38Atualizada em 27/05/2020 07h40

O surto de uma doença infecciosa ainda não identificada matou cinco presos e adoeceu pelo menos 135 internos na Cadeia Pública de Altos (PI), localizada na região metropolitana de Teresina. A Sejus (Secretaria de Estado da Justiça) suspeita que a infecção foi ocasionada por meio da água que abastece a cadeia. Nos laudos sobre as causas das mortes dos presos estão leptospirose e insuficiência renal - complicação da doença em seu estado grave, segundo o Ministério da Saúde e especialista ouvido pelo UOL.

A cadeia recebe água por meio de poço tubular e, segundo o Sinpoljuspi (Sindicato dos Policiais Penais do Piauí), no mesmo terreno há uma fossa séptica a céu aberto para onde são despejados os dejetos da unidade prisional. O sindicato afirma que toda vez que chove, a cadeia é inundada por água da chuva e refluxo da fossa. Há suspeita também que ratos tenham contaminado a caixa d'água da unidade.

Imagens enviadas por uma fonte mostram as condições que a cadeia pública de Altos fica após uma chuva. Todos os pavilhões e área administrativa são tomados pela água, que pode estar vindo contaminada da fossa localizada no mesmo terreno.

O adoecimento dos presos começou há cerca de um mês, e a última morte ocorreu no domingo (24), quando o preso Isaac Gomes de Oliveira, 23, morreu com leptospirose no hospital Getúlio Vargas, na capital. O preso estava internado desde o dia 16, mas no dia 23 o estado de saúde dele agravou-se e ele foi transferido para UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde veio a óbito.

Cadeia Pública de Altos (PI), localizada na região metropolitana de Teresina, com corredores inundados - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O Sinpoljuspi relata que os presos apresentaram febre, náuseas e vômitos, e os casos mais graves tiveram quadro de confusão mental e dor muscular intensa, chegando a ficarem sem conseguir andar. Há relatos também de problemas gástricos ocorridos com policiais penais lotados na cadeia pública de Altos.

Atualmente, 35 presos doentes estão internados em hospitais públicos de Teresina e outros 100 estão recebendo atendimento médico na própria unidade prisional. A Sejus disse que montou uma enfermaria dentro da cadeia para atender os presos que estão com quadro que não necessitam de atendimento em hospital. Equipes das secretarias de Justiça e da Saúde, além da Vigilância Sanitária investigam a causa, mas já suspeitam que "a infecção tenha sido ocasionada pela água."

"Por conta disso, uma série de medidas foram adotadas como: aplicação de dosadores de cloro na caixa d´água, limpeza do reservatório, além da sanitização e dedetização da unidade. Um comitê de gestão de crise foi instalado no estabelecimento penal a fim de gerir, in loco, a situação", explicou a Sejus.

Entretanto, o Sinpoljuspi atenta para o problema em condição macro, se estendendo aos policiais penais que são plantonistas da cadeia pública de Altos e que estão custodiando presos em hospitais públicos. O sindicato afirma que o número de presos infectados na cadeia aumenta a cada dia e os servidores são deslocados para darem plantão nos hospitais.

"O primeiro preso que morreu estava na ala de pessoas suspeitas de estarem com covid-19. A nossa preocupação é que o governo do Estado não separou uma ala para esses presos, pois os policiais penais, além de se preocuparem com a infecção na cadeia, estão sendo expostos a ambientes hospitalares com risco de contaminação pelo novo coronavírus fazendo a segurança desses presos doentes para eles não fugirem do hospital", diz o presidente do Sinpoljuspi, Kleiton Holanda.

Terreno ao lado de cadeia no Piauí - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A diretoria do sindicato visitou a unidade prisional e afirma que detectou que no mesmo terreno existe uma fossa séptica aberta, em nível maior que o prédio, que pode ser a causa da infecção. O sindicato afirma que no local não há ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) e que os dejetos da cadeia vão direto para o reservatório a céu aberto.

"É um grande tanque que recepciona todo esgoto da unidade prisional e mais grave: fica na parte mais alta em relação ao poço tubular. Fomos à cadeia e logo já entendemos que seria problema na água. O laudo preliminar identificou coliformes fecais. Essa contaminação tem um problema maior que é a questão das tubulações, pois se chegou a esse ponto, contaminou o lençol freático", diz o vice-presidente do sindicato, Vilobaldo Carvalho.

A Sejus nega a falta de tratamento do esgoto e afirma que o local trata-se de um "reservatório de evaporação", para o qual o esgoto da unidade prisional é levado, após passar pelo processo de tratamento. "Trata-se de um efluente tratado, onde matérias orgânicas são mantidas em compartimentos enterrados no subsolo, chamados de tanques sépticos", informa a Sejus.

"Pelos poucos meses que o presídio foi construído e inaugurado, o tanque deveria estar em funcionamento. Vamos levar o caso ao MPF (Ministério Público Federal) para saber se a empresa que construiu a cadeia utilizou a tubulação hidráulica conforme a apresentada no projeto porque quando chove a inundação é grande, há refluxo dessa fossa para dentro da cadeia. Grande parte das celas estão entupidas, há mau cheiro intenso e onde os policiais penais laboram podem ser infectados", afirma o presidente do Sinpoljuspi.

O sindicato afirma que nos três pavilhões da cadeia há presos doentes e que os que todos os dias aparecem mais presos com sintomas da infecção. "O problema está ocorrendo há mais de mês e a Sejus continua trabalhando de forma obscura, não se tem clareza do que se está acontecendo naquela unidade prisional. O sindicato está preocupado com a saúde dos servidores para não haver colapso de mão de obra no sistema. Isso custou vida de presos e não queremos que custe mais vidas", destaca Holanda.

Casos podem estar subnotificados

De acordo com dados da Sejus, as causas da morte dos cinco presos da Cadeia Pública de Altos foram: um de leptospirose e quatro de insuficiência renal. Os quatro casos podem estar subnotificados, pois a insuficiência renal é uma das complicações causadas pela leptospirose.

A médica Marília Magalhães, que atua em hospital especializado em doença infecciosa, explica que grande parte dos pacientes reeducandos que recebe são acometidos por leptospirose, pois eles vivem em ambientes sem saneamento básico adequado. Ela afirma que a causa mais comum da morte por leptospirose é insuficiência renal.

"A manifestação mais grave que leva as pessoas para o hospital é a síndrome de Weil, que vai apresentar icterícia, insuficiência renal grave e hemorragias, incluindo cerebral e pulmonar. É descrito na literatura médica que a bactéria leptospira tem predileção para colonizar uma estrutura dos rins que se chama túbulos renais proximais das pessoas infectadas, por isso o paciente que vai ter lesões renais agudas. A causa mais comum de morte pela leptospirose é a insuficiência renal", explica a Magalhães.

O que é a doença

A leptospirose é uma doença infecciosa febril aguda causada pela bactéria leptospira, a qual o indivíduo é exposto direta ou indireta da urina de animais infectados. O rato é o principal vetor da doença e a urina dele acaba contaminando a água. "Ela pode ter várias manifestações e varia de um quadro subclínico leve, sem muitos sintomas, até quadros graves e óbito", destaca a médica.

O período de incubação da bactéria pode variar de dois a 30 dias dentro do organismo, mas, segundo a médica, o comum é que os sintomas se desenvolvam em até dez dias, em média.

"A leptospirose não passa de uma pessoa para outra, mas elas se contaminam no mesmo ambiente. É muito comum presídios, hospitais de longa permanência, se não tiver saneamento básico", afirma Magalhães.

Dados

A cadeia pública de Altos está custodiando 750 presos e tem capacidade para 600 internos. A cadeia é a mais nova unidade prisional do sistema penitenciário do Piauí, sendo inaugurada em setembro do ano passado. Segundo o Sinpoljulpi, a construção custou R$ 21 milhões e foram financiados com recursos federais do fundo penitenciário. Atualmente, 70 policiais penais trabalham na cadeia em regime de plantão de 24h por 72 horas.

Cotidiano