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Conteúdo publicado há
2 meses
Rio: Dois PMs são suspeitos de terem agredido e ameaçado jovem em shopping

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

08/08/2020 14h20

A Polícia Civil do Rio identificou os dois homens que ameaçaram, agrediram e acusaram um jovem de roubo no shopping Ilha Plaza, na Ilha do Governador, na zona norte do Rio, na última quinta-feira (6). Segundo o delegado, Marcus Henrique, da delegacia da Ilha, responsável pelas investigações, os dois são policiais militares que trabalham para uma empresa de segurança que presta serviço para o estabelecimento comercial. Os dois vão responder pelos crimes de racismo e abuso de autoridade.

Matheus Fernandes, 18, foi monitorado e seguido na loja Renner após comprar um relógio de R$ 300 de presente para o pai. Ao sair da loja, o rapaz foi abordado e levado para a escada de emergência do local onde foi agredido e ameaçado com uma arma na cabeça. Ele foi acusado de roubo, mesmo com a nota fiscal do produto na carteira. O UOL questionou a loja Renner e o shopping Ilha Plaza e na ocasião, os dois estabelecimentos afirmaram que os homens não pertenciam ao quadro de colaboradores. O delegado Marcus Henrique disse que a dupla é aguardada para prestar depoimento.

Identificamos eles pelos nomes de guerra e já sabemos que os dois policiais trabalham para uma empresa de segurança que presta serviço para o shopping. Em um primeiro momento, houve retração do shopping em ajudar [nas investigações], mas agora se manifestaram e informaram que vão apresentar os dois policiais. Marcus Henrique, delegado

Vítima de racismo

A família de Matheus afirma que o jovem foi vítima de racismo. O tio dele, Jaime Fernandes, que é advogado, já havia afirmado que os homens eram seguranças à paisana do shopping. Em imagens gravadas e postadas na internet é possível ver Matheus no chão de uma escadaria no shopping, imobilizado e encurralado por um homem de máscara e camisa vermelha e outro vestindo camisa preta.

"Os seguranças do shopping, uniformizados, nada fizeram. Eles viram os caras armados e não chamaram a polícia. Parece pelas imagens que eles estão todos juntos. É um crime de racismo. Ele [Matheus] é mulato e vítima de dois homens brancos agredindo ele."

Com a confusão, várias pessoas se aglomeram próximo a porta de emergência que dá acesso à escadaria do shopping e questionaram a ação. Clientes e um colega de Matheus, que também é entregador, exigiu que os seguranças do shopping interferissem na abordagem. Durante a gravação, um segurança aparece apenas assistindo o episódio.

Em uma conversa com o UOL, Matheus disse que passou a noite às claras após as ameaças.

"Não consegui dormir, pois fiquei com aquilo na cabeça, né? Imagina só você ser suspeito e ter uma arma na cabeça?". O jovem nunca havia vivido um episódio como o ocorrido no shopping.

"Eu nunca tive problema não, mas sempre vejo umas olhadas nada agradáveis e tudo mais na rua".

No Facebook, a mãe do rapaz compartilhou as imagens do filho encurralado pelos dois homens e questionou: "Se fosse um jovem branco, olhos claros e com um objeto de valor, seria tratado assim?

"Pensei que nunca aconteceria com alguém da minha família, mas hoje foi meu filho, todo feliz pois comprou um relógio para presentear o pai e de repente mesmo com a nota fiscal e tudo certinho é confundido com ladrão, só que no Rio de Janeiro nada é correto, nem mesmo uma abordagem. Renderam meu filho, levaram para um canto, puseram uma arma em sua cabeça, mesmo ele sendo inocente (...)"

Dificuldade de registrar boletim de ocorrência

O tio de Matheus, Jaime Fernandes, contou ainda que o rapaz foi à delegacia prestar queixa junto com a mãe e que os dois foram orientados a fazer o boletim de ocorrência pela internet, pois o caso não foi avaliado como grave no momento.

"Falaram que o caso não era grave e que o registro poderia ser feito na internet em virtude na pandemia de coronavírus". Só depois de o episódio repercutir nas redes sociais, a família foi chamada para prestar depoimento - o que ocorreu ontem.

Testemunha da agressão, o entregador de uma loja do shopping, Matheus do Nascimento, contou ao UOL que após ajudar o conhecido, o coordenador do shopping informou que ele estava proibido de retornar ao local.

"Se eu não tivesse chegado lá, teriam agredido ainda mais ele. Depois disso, me falaram que não queriam mais me ver lá, sendo que sou terceirizado, preciso entrar no shopping para pegar os lanches para fazer as entregas. Agora não sei mais como vou ficar, estou com medo, temo represálias", disse o entregador.

O outro lado

O UOL entrou em contato na manhã deste sábado com o Ilha Plaza Shopping para que o estabelecimento comentasse as informações da Polícia Civil, mas até o momento não obteve retorno.

Ontem, o shopping informou que lamenta profundamente o ocorrido e que repudia qualquer tipo de violência e que está apurando os fatos para tomar as medidas necessárias. "O Ilha Plaza Shopping é um estabelecimento familiar, reconhecido por ser um ambiente pacífico, democrático e seguro. Nenhum tipo de violência é tolerado dentro das nossas dependências".

"O Ilha Plaza ratifica que os agressores não são funcionários do shopping", reforçou em comunicado enviado por e-mail.

Já a Renner disse que lamenta o ocorrido e repudia e não compartilha com qualquer forma de violência e discriminação.

"Estamos tomando as medidas necessárias para esclarecer o fato e buscando contato com o Matheus Fernandes para dar a ele o suporte necessário (...) No processo de apuração interna sobre o caso, ficou claro que os agressores não integram o nosso quadro de colaboradores ou de prestadores de serviço".

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