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Segurança pública

Narcomilícia: 11 dos suspeitos mortos eram seguranças de líder, diz polícia

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

16/10/2020 17h31Atualizada em 16/10/2020 19h06

Um comboio formado por 12 suspeitos de envolvimento com uma das maiores milícias do país mortos ontem (15) em uma operação policial em Itaguaí (RJ), na Baixada Fluminense, compõe um dos braços armados da organização criminosa, segundo a Polícia Civil. O ex-PM Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Bené, apontado como chefe do grupo, estava cercado por 11 "seguranças armados" da quadrilha. Todos morreram na operação e um policial ficou ferido.

Os suspeitos, que seguiam em quatro carros, estavam com "armas de guerra" e são apontados como os encarregados de garantir a proteção de Bené, de acordo com a polícia. Na ação, foram apreendidos oito fuzis, quatro pistolas e um facão. Após terem sido interceptados, eles desembarcaram do veículo para abrir fogo, segundo os agentes. Todos eles foram identificados pela Polícia Civil no começo da noite de hoje.

Em entrevista, a Polícia Civil defendeu a legalidade da ação ao dizer que houve uma reação ao ataque. O grupo é chamado pela polícia de "narcomilícia" por suposta associação com o tráfico de drogas.

Denunciado por organização criminosa, extorsão e milícia armada, Bené é apontado como o líder do grupo em Itaguaí. De acordo com a polícia, ele tem ligações com Wellington da Silva Braga, o Ecko, apontado como o chefão da milícia.

Quando foi interceptado na rodovia Rio-Santos, o grupo estava se deslocando da zona oeste do Rio, reduto de Ecko, para Itaguaí, segundo a polícia.

A ação contou com a participação de cerca de 30 agentes da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) da Polícia Civil e da PRF (Polícia Rodoviária Federal), mais que o dobro em comparação ao número de suspeitos.

O Bené é conhecido como uma pessoa extremamente violenta, que torturava, matava, ameaçava e extorquia [dinheiro] dos moradores daquela região. Ele estava em um comboio com segurança armada para reagir a qualquer abordagem policial ou de rivais

Fábio Salvadoretti, delegado-assistente da Core

"São criminosos que sempre andam com armas de guerra. Para eles, se entregar não é uma opção", disse o delegado Fabrício Oliveira, coordenador da Core.

Como foi a ação, segundo a polícia

Os agentes disseram ter usado as viaturas para cercar os dois acessos à Rio-Santos. Encurralados, os suspeitos desembarcaram atirando, segundo a polícia.

O policial atingido não se feriu com gravidade, já que o disparo atingiu o colete à prova de balas na região do peito. Ele foi encaminhado ao hospital por causa da lesão causada pelo impacto do tiro.

"Não buscamos o confronto. O nosso objetivo era interceptar o comboio. O confronto só ocorreu porque eles desembarcaram e começaram a atirar contra os policiais, que reagiram", relatou o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil.

O ex-PM Bené foi identificado devido a uma cicatriz no braço. Ainda pela manhã, os agentes confirmaram a identidade de Emerson Benedito da Silva, conhecido como Macumba, denunciado pelo MP-RJ em um processo que identificou 44 suspeitos de integrar a organização criminosa. A identidade dos outros 10 suspeitos foi confirmada à noite.

Segundo informações da Polícia Civil e do MP-RJ, Bené chefiava uma espécie de "franquia" do Bonde do Ecko em Itaguaí. Considerado uma das maiores milícias do país, o Bonde do Ecko é uma continuidade do grupo paramilitar conhecido como Liga da Justiça, criado há 15 anos na zona oeste carioca.

Ex-integrante denunciou Bené por mortes

Um vídeo obtido pelo UOL revelou depoimento de um ex-integrante da quadrilha ao MP-RJ (Ministério Público do Rio) em setembro de 2018, relatando a participação de Bené no assassinato de dois membros do próprio grupo criminoso.

Cinco meses depois, o corpo de André Vitor de Souza Corrêa, jurado de morte pela quadrilha segundo o MP, foi encontrado no porta-malas de um carro com marcas de tiro.

Segundo o relato, Ecko mandou Bené matar dois integrantes da organização criminosa por supostamente usarem o nome dele para extorquir dinheiro de moradores em um condomínio do programa federal "Minha Casa Minha Vida".

"O Bené já veio dando a explicação, dizendo que era parada de homem. Disse que o Ecko mandou resolver. Só que o Paulinho [apelido de uma das vítimas] ainda estava vivo. E gritou assim: 'Pelos meus filhos, não fui eu que meti a mão'. O Bené veio com a AK-47 e deu um tiro na cara dele. Depois, mandou a gente botar os corpos na caçamba do carro. Aí, fomos para o cemitério clandestino", disse André, em depoimento gravado.

Em 24 horas, polícia matou 17 suspeitos da mesma milícia

A operação faz parte de uma força-tarefa criada para coibir eventual intervenção de organizações criminosas nas eleições deste ano na Baixada Fluminense.

Na última quarta (14), outros cinco suspeitos de integrar a quadrilha foram mortos em um confronto com policiais em Nova Iguaçu (RJ). Esse grupo também tem ligação com o Bonde do Ecko.

Segundo a polícia, cerca de 40 suspeitos foram surpreendidos pelos agentes. Entre eles, estava Danilo Dias Lima, o Tandera, um dos chefões da quadrilha, que fugiu do local.

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