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Justiça condena ex-aluno da FGV por chamar colega de 'escravo'

Fachada do prédio da Fundação Getúlio Vargas  - Cecilia Acioli - 14.abr.2012/Folhapress
Fachada do prédio da Fundação Getúlio Vargas Imagem: Cecilia Acioli - 14.abr.2012/Folhapress

Colaboração para o UOL, de Jundiaí (SP)

22/03/2021 21h59

O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o ex-aluno da FGV (Fundação Getulio Vargas) Gustavo Metropolo a 2 anos e 4 meses de prisão, em regime aberto, pelos crimes de racismo e injúria racial. A pena privativa de liberdade foi substituída por prestação de serviços à comunidade e pelo pagamento de cinco salários mínimos à vítima.

O estudante de administração de empresas foi condenado por ser o autor da foto e da mensagem de WhatsApp, num grupo de alunos da FGV, na qual o aluno de administração pública João Gilberto Lima, 28, é chamado de escravo. Na mensagem, ele escreve "Achei esse escravo aqui no fumódromo! Quem for o dono avisa!".

Três anos após o crime, Motropolo foi interrogado no começo deste mês e negou que tenha sido o autor da foto. Porém, na decisão, a juíza Paloma Assis Carvalho, da 14ª Vara Criminal de São Paulo, considera que não convence 'a versão do réu de que não foi o responsável pela fotografia, postagem e mensagem".

"Restou comprovado que, por diversas vezes, o réu admitiu aos professores e coordenadores da Faculdade ter sido o autor dos fatos, chegando a dizer que havia feito uma "monstruosidade" e que eles estariam "perdendo tempo" com uma pessoa como ele. Afirmou que não era isso que aprendera com a sua família, mostrando-se arrependido da conduta," escreve a juíza.

Na sentença, Paloma alega que a versão dada pelo acusado 'não encontrou respaldo nas demais provas e elementos de convicção. Até porque foi insuficiente para invalidar o restante do contexto probatório, que o contradiz, sendo incapaz de apontar um motivo idôneo para ilidir a robusta prova trazida pela acusação.'

O caso

O caso aconteceu em setembro de 2017. Gustavo foi suspenso da instituição. Ele conseguiu uma ordem judicial para voltar à FGV, mas foi recebido com um protesto de alunos da universidade com cartazes contra sua presença na faculdade. Posteriormente, ele trancou sua matrícula e se desligou da instituição. Hoje estuda em outra universidade.

Em 2018, segundo a FGV, Metropolo admitiu ser o autor da mensagem à Comissão de Conduta da instituição, que determinou a suspensão do então aluno por três meses.

"Dias após o fato, a comissão mostrou a ele a postagem, caracterizando o João Gilberto como escravo e Gustavo começou a chorar e confessou. Ele disse que foi um ato monstruoso e pediu desculpas à Comissão de Conduta", disse ao UOL o advogado de João Gilberto, Daniel Bento Teixeira, diretor do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), que dá apoio à vítima por meio de um grupo de litigância estratégica em casos de racismo.

"Gustavo admitiu a autoria, mas, depois de consultar os advogados, que são os pais dele, ele passou a negar durante o inquérito policial. Ele passou a dizer que teve o celular roubado, mas o roubo foi após a postagem e ele agora diz apenas que não foi ele, apesar de ter admitido lá atrás e as testemunhas todas confirmam", afirmou Teixeira.

As testemunhas do caso foram professores que participaram do processo interno da Comissão de Conduta da FGV. João Gilberto é bolsista da FGV e hoje está no último semestre do curso. Ele teve que fazer tratamento psicológico após o episódio racista. Em 2018, logo após os fatos, ele disse à Folha de S.Paulo que ao entrar na universidade havia "três ou quatro" negros, mas que, até então, ele nunca havia sentido "um clima hostil."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado na primeira versão, Gustavo Metropolo é aluno de administração de empresas na FGV, e não de economia. A informação foi corrigida.

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