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Ex-PM pede que Corregedoria investigue cabo por assédio e multas inventadas

Ex-PM denunciou assédio sexual e moral; ela pediu para ter sua imagem borrada por medo de represálias - Reprodução
Ex-PM denunciou assédio sexual e moral; ela pediu para ter sua imagem borrada por medo de represálias Imagem: Reprodução

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

28/05/2021 04h00Atualizada em 28/05/2021 13h39

A ex-soldada da Polícia Militar Renata Russi dos Santos, 33, entrou ontem com uma representação junto à Corregedoria da PM para que um cabo, seu superior direto, seja investigado por possíveis crimes de inserção de dados falsos em documento público, além de assédio sexual e moral.

As investidas do cabo tiveram início em maio de 2020, segundo Renata. Lotada na 4ª Companhia do 7º Batalhão da PM de São Paulo, ela, que ingressou na instituição em 2018, conta que começou a receber em seu celular mensagens de cunho sexual enviadas pelo superior.

A ex-soldada guardou os textos como provas. Pedem para ela tirar e enviar fotos enquanto tomava banho no vestiário do quartel e prometem, em troca, oferecer nudes dele.

"Com medo de sofrer represálias por ele ser um superior hierárquico e por eu também não ter nenhum interesse de cunho sexual por ele —inclusive por saber que era casado—, me esquivei das investidas sempre de forma muito educada e delicada", conta Renata.

Ela diz que o cabo não recebeu bem as suas negativas. A partir do momento em que foi rejeitado, teria passado a assediá-la moralmente, de forma insistente.

Ele sempre me chamava para ter conversas em particular, quando me humilhava, falava comigo em tom ameaçador, me coagia. Ele usava da prerrogativa dele de superior hierárquico com o objetivo de me obrigar a fazer aquilo que ele queria.
Renata Russi dos Santos, ex-soldada da Polícia Militar

Ela conta que se repetiram situações de humilhação e assédio moral ao longo de oito meses. Até que, em janeiro deste ano, o cabo teria ido até o alojamento feminino, fora do horário de serviço, e a chamado para mais uma conversa particular, do lado de fora da companhia.

"Mais uma vez ele me coagiu e eu, muito nervosa com a situação, resolvi abrir uma representação contra ele. Quando ele soube, por terceiros, que eu faria isso, ele fez uma comunicação disciplinar contra mim por não ter prestado continência a superior direto", diz.

A representação aberta contra o cabo pela ex-soldada, por assédio sexual e moral, foi considerada improcedente pelo comando da PM. Sentindo-se humilhada e muito constrangida, Renata decidiu pedir exoneração. Disse que passou a ser maltratada por colegas, foi mudada de pelotão e teve turnos alterados. Até que, em 8 de abril, foi publicada a sua baixa da corporação.

Renata se mudou para uma cidade no Interior de São Paulo, a convite dos pais. O sonho de se tornar PM havia se despedaçado.

Multas na capital enquanto ela mora no interior

Apesar de viver no interior de São Paulo desde o dia 6 de abril, Renata recebeu avisos de multas por supostamente ter passado no sinal vermelho em dois semáforos da rua da Figueira, região central da capital. Ambas as notificações estão datadas de 12 de abril e emitidas com a assinatura do cabo.

"Temos provas de que ela não foi a São Paulo no período em que foram lavradas as multas", afirma Emerson Lima Tauyil, advogado de Renata.

"Histórico do Google Maps, comprovantes da última passagem pela praça de pedágios, comprovantes de compras feitas em lojas da cidade em que hoje mora no mesmo dia e horários aproximados. E ainda estamos levantando dados junto ao Projeto Radar, para pedir imagens comprovando que o veículo sempre esteve no interior de São Paulo, desde que a minha cliente se mudou", afirma o defensor.

Segundo Tauyil, a inserção de dados falsos em documento público configura crime previsto no artigo 312 do Código Policial Militar. A pena é de cinco anos de reclusão.

"Esse é o objeto da nossa representação protocolada hoje junto à Corregedoria, que, por consequência, investigará os crimes de assédio cometidos pelo cabo. No jargão policial, chamamos de tirocínio quando um veículo passa em velocidade por mais de um sinal vermelho. A praxe da PM é abordar o motorista para checar se não se trata de um suspeito ou alguém em perigo. E não simplesmente emitir multas", diz.

"Espero que finalmente a PM tome as providências cabíveis e pare esse policial, que está sem limites e sem pudor para me prejudicar. Se ele cometeu um crime de inserção de dados falsos em documento público, precisa perder a função. Já que, com relação ao crime de assédio que eu denunciei, nada foi feito", afirma Renata.

Por meio de nota, a Polícia Militar esclareceu que, até o momento, não foi registrada denúncia pela ex-soldada PM Renata Russi dos Santos e que, tão logo seja formalizada, será rigorosamente apurada pela Corregedoria da instituição. "A Polícia Militar é uma instituição legalista e não coaduna com desvios de condutas", afirma o comunicado.

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